Fashion Revolution

O machismo na frase ‘moda é coisa de mulher’

Historicamente, as mulheres são o alvo preferido da publicidade e da  comunicação social de inúmeras marcas de moda que vão das grifes de renome às redes de fast fashion

Imagem: unsplash
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Como uma vez disse Simone de Beauvoir, “querer ser livre é também querer livre os outros”. Mas, na moda, a realidade está distante do que as palavras de Beauvoir representam.

Precisamos falar sobre como a moda é uma indústria majoritariamente feminina. Os dados não negam. Segundo uma pesquisa realizada pela ABIT (Associação  Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), dos 9,5 milhões de empregos  atrelados à moda no Brasil, 75% são ocupados por mulheres. O número chega a 85% em uma perspectiva global, de acordo com a OIT. 

Antes que alguém diga “moda é coisa de mulher”, precisamos nos  aprofundar em um panorama histórico social não apenas para entender a participação feminina na moda, mas para finalmente nos livrarmos de pensamentos machistas. 

Falar sobre moda implica entender que ela é fruto de um tempo, de uma sociedade e, principalmente, de uma cultura. Nesse sentido, faz-se necessário entender como ela surgiu.

Para Cláude Lévi-Strauss, importante antropólogo francês, a cultura (como  conceito) nasce quando o homem inventa o que podemos chamar de a primeira  norma social de toda a humanidade: o incesto. Não, você não leu errado. Para ele, é nesta construção social da mulher como moeda de troca que podemos observar o surgimento do que entendemos como cultura. Problemático? Com certeza. 

Apesar de essa ser apenas uma das muitas teorias que pensam o surgimento dessa peculiar manifestação humana, é inegável o fato dela  sintetizar de maneira primorosa a forma como nós, mulheres, fomos e ainda  somos socialmente vistas. Aliás, esse recorte sintetiza muito bem como a evolução da indumentária ainda está correlacionada à falta de liberdade vivenciada por corporeidades femininas. 

O que vemos desde os primórdios da humanidade são vestes que reforçam uma tendência escancarada da opressão, que permanece no guarda-roupa de mulheres do hoje e, espero que não mais, do amanhã. 

Além disso, vemos na história da indumentária feminina discursos que reforçam dubitáveis papeis de gênero, que criaram, por exemplo, o imaginário de que no corte e costura encontra-se ofícios que só a nós pertencem. 

Apesar de nossas lutas e conquistas terem feito com que caminhemos longas distâncias em comparação há 100 anos, a atualidade nos mostra que temos um caminho ainda árduo pela frente. 

Roupas 

Como uma vez disse Anne Klein, “a roupa ajuda, encurta caminhos, comunica, tem um papel real na sociedade em que vivemos, mas ela não opera milagres,  não destrói, sozinha, o patriarcado”. 

Não existe uma roupa no mundo que, ao ser vestida por nós, seja neutra,  porque nenhum look que possamos escolher resolve  sozinho construções ainda tão enraizadas na sociedade em que vivemos. 

Um exemplo disso é a pesquisa Chega de Fiu-Fiu (2013), realizada pelo Instituto Think Olgo, que constatou: 90% das mulheres alegaram que já trocaram de roupa pelo menos uma vez antes de sair de casa por medo de sofrer assédio. Alarmante? Muito. Mas, acredite, dá para piorar. 

Uma pesquisa realizada pelo DataFolha em 2016 mostrou que  30% dos homens entrevistados tinham em seus discursos a premissa de que  mulheres que usam “roupas provocativas” não podem reclamar de estupro e/ou  importunação sexual. 

Eu sei, é revoltante, principalmente porque nos livramos dos espartilhos e crinolinas, mas não de um (ainda muito machista) imaginário social que não apenas coloca a moda feminina como sinônimo de opressão, mas trata o consumo de roupas destinado ao nosso gênero como imposição. 

Basta olharmos para campanhas de marketing. Historicamente, as mulheres são o alvo preferido da publicidade e da  comunicação social de inúmeras marcas de moda que vão das grifes de renome às redes de fast fashion.

Sustentabilidade 

Parece um tanto quanto desafiador pensar esse entrelaçamento, mas é necessário porque não o fazemos com a constância que  deveríamos.  

Estamos tão acostumadas com aquela falsa ideia de que “moda é coisa de mulher” que esquecemos o quão machista a frase é. O pior é que nem nos damos conta de que ela é usada de forma escancarada para  manipular nossas ações.

Podemos dizer que trocamos de roupa porque nos sentimos  ameaçadas, compramos para nos sentirmos pertencidas, acompanhamos tendências que foram estrategicamente pensadas (leia-se, impostas) para nós e movimentamos bilhões que vão para bolsos de homens, que estão no  topo de uma pirâmide, sustentada por nós.  

Complicado? Muito. O que quero que fique de reflexão é a seguinte questão: a liberdade para as mulheres ainda é tão utópica quanto dizermos que nossas escolhas não são sustentáveis por falta de opção.

Erika Gottsfritz
Graduanda em Design de Moda e futura socióloga. É co-fundadora e editora do projeto de comunicação de moda independente Trameiras e colunista nas horas vagas. Leva a arte como uma filosofia, a leitura como sua terapia e adora tramar sobre o mundo lá fora.

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