Fashion Revolution

Metas científicas para a moda em tempos de negacionismo

As metas devem aproximar a estratégia de sustentabilidade corporativa ao fundamento científico

Imagem: Unsplash
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O cenário da pandemia da Covid-19 e o avanço da vacinação deixaram ainda mais escancarado o importante papel que a ciência desempenha em nossas vidas. A iminente crise climática reforça ainda mais a necessidade da pesquisa e da ciência para a manutenção da vida na Terra.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, é consenso entre mais de 97% das publicações de cientistas do clima que as atividades humanas são a causa do aquecimento global. De acordo com o relatório, a temperatura global continuará a aumentar e o aquecimento global de 1,5°C e 2°C será excedido ainda durante o século XXI, a menos que reduções profundas de dióxido de carbono (CO2) e outras emissões de gases de efeito estufa (GEE) ocorram nas próximas décadas.

É importante destacar que, no Brasil, as emissões de gases de efeito estufa cresceram 9,5% em 2020, enquanto no mundo inteiro elas caíram em quase 7% devido à pandemia de Covid-19. A alta no desmatamento no ano passado, em especial na Amazônia, e o negacionismo de nossos governantes colocaram o Brasil na contramão do planeta e em desvantagem no Acordo de Paris.

Mas o que a moda tem a ver com tudo isso?

Segundo um estudo conjunto da Mckinsey com a Global Fashion Agenda, a indústria da moda foi responsável por cerca de 2,1 bilhões de toneladas de emissões de GEE em 2018, o equivalente às emissões anuais combinadas da França, Alemanha e Reino Unido.

Levando em consideração a expectativa de que a indústria da moda continuará a crescer como resultado das mudanças nos padrões de consumo e do aumento da população, se nenhuma ação ambiciosa for tomada rapidamente, as emissões de GEE da indústria provavelmente aumentarão para cerca de 2,7 bilhões de toneladas por ano até 2030, indo completamente ao contrário do alertado pelos cientistas do IPCC.

Para se alinhar com o caminho de 1,5 grau nos próximos 10 anos, a indústria da moda deve intensificar seus esforços com a adoção de compromissos ousados. Todos da cadeia de valor devem estar dispostos a assumir compromissos firmes, seguidos de ações efetivas, transparência, colaboração e investimento conjunto.

As empresas, como entidades que lucram com o modelo produtivo atual devem se posicionar em meio a esse cenário e estabelecer metas mensuráveis com base científica e com prazo determinado para serem cumpridas. Segundo o Índice de Transparência da Moda Brasil 2021, que analisou o nível de transparência das 50 maiores empresas que operam no mercado brasileiro, apenas 22% das analisadas, ou seja, 11 marcas, divulgam que utilizam uma base científica para a publicação de metas climáticas.

Apesar desse número ter crescido em relação aos resultados da mesma pesquisa em 2020, na qual somente 13% das marcas divulgaram essa informação, em meio às previsões do IPCC, precisamos que as marcas de moda sejam mais ambiciosas e transparentes sobre sua ação contra a crise climática.

Estabelecer metas com base científica fornece um caminho mais definido para a redução das emissões e dá um norte para avaliar se tais metas vão além do marketing e efetivamente contribuem para conter o aquecimento global. As metas devem aproximar a estratégia de sustentabilidade corporativa ao fundamento científico, garantindo que a ambição climática da empresa esteja alinhada com a ciência e que as ações sejam abrangentes o suficiente.

As metas devem englobar não somente as próprias operações da empresa como também a cadeia de fornecimento, que é onde ocorrem grande parte das emissões. Segundo o Carbon Disclosure Protocol – CDP, as emissões da cadeia de suprimentos são, em média, 11,4 vezes maiores do que as das operações próprias da empresa. Na moda, temos o mesmo cenário, já que se estima que até 80% das emissões estão no Escopo 3 que engloba a cadeia de fornecimento.

Por fim, além do estabelecimento das metas é necessário que exista uma transparência sobre como os números foram calculados e que as empresas se tornem agentes e defensoras vocais da descarbonização. As metas não devem servir como algo limitante para a empresa, mas sim como um norte em meio a crise climática e ao negacionismo.

Isabella Luglio
Coordenadora da rede educacional do Fashion Revolution Brasil, pesquisadora e gestora de projetos como o Índice de Transparência da Moda e o Programa Educacional Jovens Revolucionários

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