Cop-26: Os compromissos, as emissões, as comunidades afetadas e a indústria da moda

Os enormes desafios que temos pela frente só serão ultrapassados por meio da ação coletiva e da colaboração

Foto: AFP/Christophe ARCHAMBAULT

Foto: AFP/Christophe ARCHAMBAULT

Fashion Revolution

A 26ª Conferência sobre Mudança Climática da ONU (COP-26) acontece entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro, em Glasgow, Escócia, para acelerar a ação em direção aos objetivos do Acordo de Paris de manter o aquecimento global abaixo de 2˚C em relação aos níveis pré-industriais, e limitar o aumento da temperatura média em 1,5˚C.

Esta cúpula do clima é, sem dúvidas, a mais importante de todas, a “COP das COPs”, já que se espera ver como os líderes mundiais aumentarão seus esforços para combater a crise climática por meio de metas e ações ambiciosas para a descarbonização. Entre muitas coisas que estão em jogo na conferência deste ano há, por exemplo, a implementação do Artigo 6º do Acordo de Paris, que trata da regulação do mercado de carbono global.

No entanto, muitos ativistas temem que as nações desenvolvidas simplesmente se comprometam a plantar algumas árvores ou comprar florestas para evitar o corte real de suas emissões. Isso, claro, não é uma solução adequada, mas apenas um disfarce ‘verde’ para se manter o objetivo máximo de acúmulo de capital. De acordo com Jaron Browne, diretor da Grassroots Global Justice Alliance, que participará da COP-26, “não podemos nos dar ao luxo de ter indústrias e estados-nação fingindo estar tomando medidas climáticas e, muitas vezes, até causando mais danos. O que está em jogo aqui é a sobrevivência de toda a humanidade – mas, mais significativamente, a sobrevivência daqueles que estão na linha de frente.”

 

 

O receio de que a COP-26 não atenda às expectativas e necessidades de ações robustas, reais e imediatas mobiliza e gera desconfiança ao redor do mundo: Greta Thunberg acusou líderes mundiais de negar a crise climática e disse que países como Reino Unido, EUA e China usam “contabilidade criativa de carbono” para aumentar suas credenciais verdes. Jennifer Morgan, chefe do Greenpeace alertou contra os riscos de greenwashing de países e corporações em relação à contínua poluição do planeta.

Além disso, o fato de que ilhas do Pacífico, enfrentam dificuldades de viajar à Escócia devido às restrições da pandemia e aos custos elevados de voos e acomodações, implicará na falta de representatividade de comunidades extremamente vulneráveis em face à crise climática. Um terço dessas ilhas não poderá comparecer, o que gera temores de que a COP26 seja menos ambiciosa. A presença dos países mais afetados pela emergência climática é fundamental para pressionar os líderes a chegarem a um compromisso com metas agressivas. Ralph Regenvanu, líder de oposição da República de Vanuatu lembra que na COP21 em Paris, “foi a presença dos líderes do Pacífico que realmente fez diferença e nos trouxe à cifra de 1,5ºC que temos agora no acordo.”

 

A ausência das produtoras de combustíveis fósseis na COP26 e a investida de países para aumentar sua produção nessa área

Por um lado, a boa notícia é que as empresas produtoras de combustíveis fósseis não receberam nenhum papel oficial na COP-26, por conta da preocupação do Reino Unido em relação aos planos líquidos zero das grandes petrolíferas, que não são convincentes e não se enquadram em nos critérios de sucesso para a COP-26. Apesar de soar, no mínimo, coerente, nem sempre foi assim, já que por anos as empresas de petróleo receberam destaque nas negociações climáticas da ONU.

Por outro lado, um relatório recente, que analisou as estratégias dos governos dos 15 maiores países produtores de combustíveis fosseis do mundo, incluído o Brasil, apontou que, embora os países estabeleçam metas de emissão líquida zero e aumentem suas ambições climáticas sob o Acordo de Paris, eles planejam produzir mais do que o dobro da quantidade de combustíveis fósseis em 2030 do que seria consistente com a limitação do aquecimento a 1,5°C. De acordo com a pesquisa, em 2040, esse excesso sobe para 190%.

Como o Brasil chega na COP-26

Um estudo sobre os incentivos e subsídios aos combustíveis fósseis no Brasil evidencia que os montantes investidos no país ultrapassam 99 bilhões de reais em 2019, o que corresponde a 1,4% do PIB nacional, e o equivalente a, por exemplo, quase 3 anos do Programa Bolsa Família, no mesmo ano. Além disso, o mesmo relatório indica que o Brasil havia se comprometido, no âmbito do G20, a reformar tais subsídios como forma de reduzir os riscos ao clima e à natureza. No entanto, o país continua impulsionando os fósseis no lugar de traçar trajetórias em direção a fontes energéticas limpas e sustentáveis.

Segundo a Carbon Brief, o Brasil é sexto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo e sua maior fonte de emissões é a mudança no uso da terra e o setor florestal, que englobam, majoritariamente, as emissões decorrentes do desmatamento (legal e ilegal). O desmatamento, impulsionado pela pecuária, produção de soja e extração de madeira, tem implicações importantes para o balanço de CO2 na atmosfera global. Além disso, no país ainda não há um mercado nacional de carbono regulado, somente um marco regulatório que tramita no Congresso.

Outros estudos apontam que a quantidade de carbono sendo absorvida e armazenada pela floresta amazônica está diminuindo e que grandes perdas de carbono no Brasil e em outros lugares do mundo estão contribuindo para que as florestas tropicais passem de um sumidouro a uma fonte global de emissões. Já o Pantanal, que abriga uma das maiores concentrações de vida selvagem do planeta, sofre grande ameaça da expansão da agricultura e a escalada de incêndios que têm se intensificado a cada ano é decorrente da má utilização dos recursos hídricos, do manejo do fogo e da seca prolongada imposta pelas mudanças climáticas.

Infelizmente o governo brasileiro, que já foi protagonista em negociações climáticas globais, atualmente atua no desmonte e enfraquecimento de órgãos ambientais essenciais para controle e preservação de nossos biomas e se omite na formulação de políticas em prol do clima.

Em contrapartida, líderes de comunidades indígenas ao redor do país, aproveitam a cúpula do clima para garantir que suas vozes sejam ouvidas, como o cacique Ninawá Huni Kui de um vilarejo remoto na Amazônia brasileira, cujo povo enfrenta uma imensa ameaça devido à crise climática e ao desmatamento. Ele irá à COP-26 para para se manifestar: “estamos enfrentando genocídio em nossas comunidades.” Este é também um dos grandes objetivos do encontro: proteger comunidades e habitats naturais e capacitar os países afetados pelas mudanças climáticas.

Como a indústria da moda chega à cúpula do clima

A indústria da moda global contribui consideravelmente para os impactos no clima, tendo sido responsável por cerca de 2,1 bilhões de toneladas métricas de emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 2018, cerca de 4% do total global, o que corresponde a aproximadamente a mesma quantidade de GEE emitida por ano pela França, Alemanha e Reino Unido juntos. Segundo estimativas, se nenhuma ação adicional for tomada na próxima década, além das medidas já em vigor, as emissões de GEE do setor provavelmente aumentarão para cerca de 2,7 bilhões de toneladas por ano até 2030. Para evitar o aumento de 1,5ºC, o setor terá que reduzir suas emissões nesse período para cerca de 1,1 bilhão de toneladas por ano.

Globalmente, existem iniciativas para estimular o compromisso público de grandes empresas da moda como, por exemplo, a Carta da Indústria da Moda para Ação Climática da ONU, assinada também por marcas brasileiras como a Renner e a Reserva. Mas muito além do compromisso, é preciso que haja uma participação ativa e coletiva, além da criação de metas mensuráveis que possam ser monitoradas para que a mudança realmente aconteça da forma – ambiciosa – desejada. Afinal, já temos os dados, já entendemos o cenário, o que precisamos agora é agir.

Uma carta aberta da indústria da moda e organizações da sociedade civil em face à COP-26 pede aos líderes mundiais que se comprometam com as seguintes recomendações: ação coletiva para atingir emissões líquidas zero até, no máximo, 2050; criatividade para a eliminação de resíduos; responsabilização das empresas em relação às suas cadeias de fornecimento globais; incentivo à educação de crianças para desenvolver habilidades para fazer, consertar e reutilizar suas roupas; mudança nos modelos de negócio para que façam uma transição justa, passando do foco nos lucros para uma economia de bem-estar.

Certamente, os enormes desafios que temos pela frente só serão ultrapassados por meio da ação coletiva e da colaboração, pois só vamos conseguir alcançar os objetivos se trabalharmos juntos. Esperamos que os líderes globais, governos e grandes empresas assumam compromissos e garantam a redução e compensação das emissões, assim como combatam de uma vez por todas a degradação ambiental e a exploração do trabalho. É agora ou agora. Seguiremos de olhos atentos.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Tem interesse especial na luta por justiça de gênero e climática. É designer estratégica, coordenadora do Índice de Transparência da Moda Brasil, cofundadora do Instituto Fashion Revolution Brasil e professora de Design Sustentável do IED-SP. Com um trabalho que se encontra no espaço entre sustentabilidade, educação e design, lidera projetos que incentivam profundas transformações na indústria da moda. Siga @eloartuso

Compartilhar postagem