Conseguiremos superar o capitalismo?

É possível pensar um futuro mais democrático e justo, que preze pela diversidade, bem-estar e pelos ecossistemas naturais?

Imagem: André Azevedo

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Fashion Revolution

Recentemente li uma entrevista com a artista e ativista americana, Tricia Hersey, fundadora do The Nap Ministry (Ministério da Soneca), que propõe, por meio da arte performática, questionamentos políticos como: “Como você será inútil para o capitalismo hoje?”.

Na entrevista, ela falava sobre a importância do descanso como um instrumento de justiça social e racial e, acima de tudo, um ato radical de resistência e decolonização – particularmente para pessoas negras, cujo descanso foi e continua sendo interrompido pela supremacia branca.

 

 

Ao enxergamos o descanso – o direito ao descanso – como forma de resistência, nos abrimos para uma outra dimensão, que pode nos trazer alternativas. Tricia defende que podemos imaginar um novo mundo e que ele é possível, mas que não virá da exaustão.

Acho que podemos concordar que estamos todas(os) exaustas(os). Encaramos diariamente um sistema injusto, que perpetua desigualdades históricas, colocando as pessoas e a Terra à serviço do capital. Fazemos parte de uma engrenagem que nunca cessa, que nos coloca em um ritmo constante de trabalho, sem fim, esmagando nosso tempo, nossos sonhos, nosso direito ao descanso e nossa natureza. Uma máquina chamada capitalismo que nos faz reféns da produtividade e transforma tudo em mercadoria (pessoas, ideias, ideais, natureza), sugerindo que só temos valor quando estamos produzindo, de forma a continuarmos alimentando essa roda opressora, construída sobre um pilar patriarcal, machista, racista, classicista.

Um exemplo disso é como a economia explora as mulheres. Há décadas, a filósofa, professora e ativista feminista Silvia Federici, junto a outras pensadoras, critica as sociedades capitalistas ao apontar a forma como falham em reconhecer ou apoiar o que é chamado de ‘trabalho reprodutivo’. Isso não se refere somente a ter filhos e criá-los, mas a todo o trabalho relativo à manutenção da vida, ou seja, manter a nós mesmas e aos outros ao nosso redor bem alimentados, seguros, limpos, cuidados e prosperando. Trabalho esse, que é essencial e deve ser feito continuamente, mas que a economia não reconhece e nem remunera.

Na última década, Federici passou a tratar da necessidade de reverter o que ela chama de ‘enclausuramento’, ou seja, o processo que divide e confina o mundo para o lucro. De acordo com a filósofa, quase tudo está enclausurado no capitalismo, não apenas a propriedade e terra, mas também nossos corpos, nosso tempo, nossos modelos de educação, nossa saúde, nossos relacionamentos, nossa atenção, nossas mentes.

O paradigma de desenvolvimento e crescimento em que nos encontramos reduz as pessoas a trabalhadoras e consumidoras privadas de uma dimensão política, segundo a economista, pesquisadora e ativista ambiental Geneviève Azam, que afirma que “a justiça social não virá pela acumulação de capital e pela falsa ideia de repartição desse ‘bolo’, ela só vira se reconhecermos direitos iguais para todos os seres humanos, inclusive da natureza”. Vale lembrar que esse crescimento é totalmente dependente da extração de recursos naturais não renováveis.

O que precisamos é não mais tentar buscar saídas em novas formas de desenvolvimento, e sim propor alternativas ao desenvolvimento em si

Tal perspectiva também coloca em jogo a própria ideia de ‘desenvolvimento sustentável’, já que este basicamente ainda opera dentro de uma lógica de ‘desenvolvimento’. Geneviève aponta que “a explosão das desigualdades e a superação dos limites ecológicos tornaram obsoletas quaisquer esperanças de desenvolvimento sustentável”, tendo em vista que não se trata mais de equilibrar os três pilares do desenvolvimento sustentável (ambiental, econômico e social), mas de confiar ao mercado o cuidado da sociedade.

Dessa forma, o que precisamos é não mais tentar buscar saídas em novas formas de desenvolvimento, e sim propor alternativas ao desenvolvimento em si. Essa é uma das premissas do Bem Viver, que se coloca como uma alternativa para a construção de uma nova sociedade, trazendo a oportunidade de imaginarmos novos meios de viver em sociedade e em harmonia com a natureza. O Bem Viver, de acordo com o político e economista Alberto Acosta, “propõe uma cosmovisão diferente da ocidental, posto que surge de raízes comunitárias não capitalistas”, fazendo com que rompa “com as lógicas antropocêntricas do capitalismo enquanto civilização dominante e com os diversos socialismos reais que existiram até agora”.

Isso, certamente implica em um processo político participativo de tomada de ação que inclua a consciência e responsabilidade sobre a capacidade de regeneração e disponibilidade de recursos naturais, enquanto se controla a acumulação de capital e se desconstrói padrões de consumo. Trata-se da criação de um conjunto de estratégias e ações nas esferas política, econômica e cultural em prol de um novo marco civilizatório, mais democrático, justo, inclusivo, que preze pela diversidade, bem-estar social e pelos ecossistemas naturais.

Dennis Meadows, cientista americano, mostrou, em 2012, que já não é mais possível frear o sistema por meio de políticas de crescimento zero, pelo fato de nossa pegada ecológica ter ultrapassado os limites sustentáveis. Portanto, o que devemos fazer agora é decrescer. Segundo Geneviève, decrescimento (ou pós-crescimento) não é uma alternativa em si, mas uma matriz de alternativas, e vai além da esfera econômica, abarcando as sociedades, suas representações e valores. O decrescimento propõe a redução do uso de recursos naturais e energia e implica a saída do modelo produtivista, por meio de um novo ideário político e social, que se opõe à ideia de crescimento e desenvolvimento estabelecida.

Assim, conforme a economista, “o decrescimento se encarna nos movimentos sociais, que rejeitam a aceleração, a globalização econômica e financeira, a extração massiva de recursos, a exploração energética, a publicidade e o consumismo, a injustiça social e ambiental”. Nesse sentido, a proposta de decrescimento traz a possibilidade de novos caminhos que, por sua vez, aludem às aspirações do Bem Viver, assim como, se encontram com a defesa dos direitos da natureza, com o reconhecimento dos bens comuns e com a rejeição ao extrativismo e à desglobalização.

Desacelerar, neste momento em que nos encontramos, especialmente em que o planeta se encontra, é uma saída revolucionária para encontrar novamente o propósito genuíno da vida, aquele que não foi forjado pelo capitalismo, que não é vendido por campanhas de marketing, mas que é encontrado nos nossos sonhos e desejos individuais. Descansar, decrescer e decolonizar nosso imaginário são poderosas alavancas de mudanças sistêmicas. De fato, só estaremos livres, quando todas(os) estiverem livres. Para isso, teremos que resistir, recusar e romper o sistema nocivo em que vivemos, enquanto ainda há tempo.

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Tem interesse especial na luta por justiça de gênero e climática. É designer estratégica, coordenadora do Índice de Transparência da Moda Brasil, cofundadora do Instituto Fashion Revolution Brasil e professora de Design Sustentável do IED-SP. Com um trabalho que se encontra no espaço entre sustentabilidade, educação e design, lidera projetos que incentivam profundas transformações na indústria da moda. Siga @eloartuso

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