Biodiversidade: Um caminho possível para uma cadeia mais sustentável

Quando deixaremos de lado a prerrogativa de sermos seres humanos como desculpa para degradar a natureza?, pergunta Erika Gottsfritz

Biodiversidade: Um caminho possível para uma cadeia mais sustentável

Fashion Revolution

É simples: Por mais que estejamos em meio a mais uma corrida espacial, ou melhor dizendo, em meio a uma nítida tentativa (inicialmente bem-sucedida) de explorar o que chamam turismo espacial, não existe Planeta B. E muito menos C, D ou E. O universo é amplo? Sim. Mas nossa culpa na degeneração do Planeta Terra, também. A propósito, quando deixaremos de lado a prerrogativa de sermos seres humanos como desculpa para degradar a natureza e enfim pagar nossa (imensurável) dívida ambiental?

O mais rápido possível, seria a resposta ideal. Mas enquanto não revertemos anos e mais anos de ações antrópicas, nocivas e nada regenerativas, um alento: olhar para a biodiversidade em seu sentido mais plural, como alerta, mas também, como referencial.

Aliás, quando falamos de biodiversidade estamos falando do conjunto de todas as espécies de seres vivos existentes na biosfera e/ou em determinada região, e claro, suas inter-relações. Ou seja, sua importância não é apenas infindável por definir as diferentes formas de vida ao redor da Terra, mas também, porque seu declínio em decorrência da perda de ecossistemas e habitats vem mudando e muda (drasticamente) cada vez mais a vida no Planeta.

Nesse sentindo, o alerta que ela – a biodiversidade- nos dá é muito nítido: seu declínio acelerado, hoje mais rápido do que em toda a existência humana, coloca em risco de extinção as mais diversas espécies. Incluindo a nossa. Segundo um relatório divulgado pela ONU em 2019, enquanto a perda de biodiversidade que vivenciamos atualmente é mil vezes maior do que a taxa natural, um milhão de espécies da Terra estão agora em risco de extinção.

Alarmante? Muito. A partir dessa perspectiva nada agradável faz-se necessário entender que não é (apenas) a sustentabilidade como um todo que está em pauta, mas sim, o nosso futuro como seres vivos em meio a uma trama que transcende o homem como ser individual.

E o que a moda tem a ver com tudo isso?

Para início de conversa, tudo. A indústria da moda depende (e muito) da biodiversidade. Em que sentindo? Através da utilização de fibras e outras matérias primas que originam, gostando ou não, o que sustenta toda essa indústria: nossas roupas. Mas este fadado sistema não apenas depende do meio natural, como também, o degrada.

O relatório “Planeta Vivo” produzido pela WWF em 2020 nos mostra que não apenas a população de vida selvagem no Planeta reduziu 68% desde 1970, mas também que a moda pode ser apontada como uma das grandes corresponsáveis por essa redução.

 

 

Depois de anos e mais anos tratando o meio ambiente como um supermercado que existe apenas para nos suprir matérias primas e insumos, hoje é muito claro como essa atitude é um contribuinte significativo para a perda da biodiversidade como um todo. E falando de uma perda que não é nada sutil, fica válido aqui lembrar que as cadeias de suprimentos de vestuário estão diretamente ligadas à contaminação do solo, perda de ecossistemas naturais, poluição dos cursos de água, emissões atmosféricas de poluentes e muitas outras degradações a mais.

Nesse ínterim, o cultivo do algodão por exemplo, quando não estamos falando de uma abordagem orgânica, está intrinsecamente correlacionado a utilização de uma grande quantidade de pesticidas, inseticidas e fertilizantes, os quais não apenas contaminam a água e o solo, mas também, a fauna local.

A culpa toda então é do algodão? Jamais. A viscose contribui de forma alarmante para o desmatamento. Para produzir a fibra, anualmente são derrubadas, 50 milhões de árvores. No caso do poliéster, são gastos 10 milhões de barris de petróleo por ano para a fabricação de uma matéria prima que emite um composto de N20, ou óxido nitroso, 300 vezes mais venenoso do que o dióxido de carbono. O couro? Produto de uma pecuária a qual é responsável por 70% do desmatamento na floresta Amazônica. Preocupante demais? Acredite, dá para piorar.

De acordo com a Fundação Ellen McArthur, a produção de roupas praticamente dobrou nos últimos 15 anos, o que nos faz olhar não apenas para a perda da biodiversidade a partir dos insumos, mas também, dos resquícios. Ainda segundo o levantamento da fundação, 73% dos resíduos têxteis (dos quais grande parcela não são biodegradáveis) são queimados ou enterrados em aterros sanitários.

Outro alerta: Partículas micro plásticas produzidas pela microfibra sintética são agora uma preocupação e tanto! Inseridas em diversos biomas, especialmente nos oceanos, essas partículas afetam hoje o clico alimentar e a qualidade de vida de diversas espécies. Mais uma vez, incluindo a nossa. E apesar dos alertas serem muitos, devemos olhar para a biodiversidade (também) como referencial.

O que a natureza nos ensina?

Colocar tais assuntos em pauta é entender que não existem sistemas únicos e isolados, mas sim uma ampla trama de acontecimentos que se relacionam e anulam o individual. Olhar para a moda a partir da perspectiva da biodiversidade nos mostra então como seu fadado sistema não é um assunto isolado, mas sim algo coletivo e global.

Neste sentido a natureza como um todo nos ensina como o equilíbrio não é apenas um pilar ambiental, mas uma palavra-chave para semearmos um futuro muito melhor. Dessa forma, fomentar uma cadeia mais sustentável nos suscita pensar ações antrópicas como diretamente correlacionadas ao que ocorre no meio natural. Ou seja: entender que o homem afeta e integra a diversidade ambiental.

Um ótimo exemplo de tais ensinamentos na prática é o Fashion Pact. Iniciativa de Emmanuel Macron, atual presidente da França, que originou o acordo assinado na reunião de cúpula do G7 em 2019. Mais do que uma forma de
organizar os projetos de sustentabilidade na indústria da moda, o pacto fomenta um pensamento nada individual, e sim, global.

Por fim, ainda que tenhamos um árduo caminho pela frente, um último lembrete: na esfera da vida ambiental, da qual fazemos parte, nada é privativo ou exclusivo. Mas sim diverso, integrado e plural.

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Graduanda em Design de Moda e futura socióloga. É co-fundadora e editora do projeto de comunicação de moda independente Trameiras e colunista nas horas vagas. Leva a arte como uma filosofia, a leitura como sua terapia e adora tramar sobre o mundo lá fora.

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