Fashion Revolution

A sociedade de consumo na era do Tik Tok

A plataforma foi palco para discussões acerca de sua expressividade enquanto propagadora de novas tendências ou comportamentos

(Foto: Martin BUREAU / AFP)
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Escrever sobre as relações de consumo e consumismo é, também, compreender a forma com a qual estabelecemos a ordem social e nos condicionamos a atender uma lógica saciada por uma alienação que rejeita todas as opções culturais alternativas. O sociólogo Zygmunt Bauman já disse: “A felicidade esperada e atribuída à aquisição de novos bens é apenas uma promessa. Esse desejo permanece na sedução que é retroalimentado por uma insatisfação constante”.  Para seguirmos nessa linha de pensamento, vamos entender como chegamos até aqui: a evolução de consumo para consumismo

Se antigamente nossos esforços estavam concentrados em atender nossas demandas mais genuínas, de forma com que produzimos e consumimos o essencial para a nossa sobrevivência, com a chegada de momentos históricos marcantes como a Revolução Industrial e a Segunda Guerra, as coisas passaram a ser diferentes. 

Após os períodos, sob uma urgente retomada econômica e com a produção em grande escala, a necessidade passou a ocupar um lugar de menor relevância. Aqui, não se trata mais de suprir apenas o essencial, mas de estimular novos desejos, novas possibilidades. 

Com a forte concorrência entre as indústrias da época, nasceram também as facilitadoras de crédito e as primeiras empresas de marketing e propaganda. Uma combinação perfeita que desencadearia no estímulo constante para a aquisição de cada vez mais bens de consumo

Algumas características reforçam essa passagem e podem ser facilmente reconhecidas atualmente: produção em série e normalizada; gerenciamento de oferta e procura; fortalecimento de campanhas de publicidade; padrões de consumo massificados; aquisição de novos bens como forma de integração social e o consumismo como estilo de vida. 

A era da ticketorização 

15 segundos. Este é o tempo médio de vídeos compartilhados em redes sociais e que se colocam como novas formas de comunicação, expansão de território e validação de autoridade. Estudos atuais estimam que, com tamanha velocidade, somos submetidos à exposição de mais de 5 mil marcas diferentes todos os dias. 

Dentre as principais plataformas utilizadas para atender esse formato, está o Tik Tok, lançado em 2016 e que já teve mais 3,5 bilhões de downloads em lojas como Apple Stores e Google Play.

Em setembro de 2021, a empresa chinesa relatou ter alcançado a marca de 1 bilhão de usuários ativos por mês. Os EUA, a Europa, o Brasil e o Sudeste Asiático são os maiores mercados da plataforma. Por aqui, um levantamento liderado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação destaca que a rede é a mais utilizada por crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos. 

Recentemente, a plataforma foi palco para discussões acerca de sua expressividade enquanto propagadora de novas tendências ou comportamentos. Descortinando relações frágeis, como a criação de ações e produtos sem significância – exclusivos para atender a um padrão pré-estabelecido do próprio app, a ascensão momentânea de novos criadores sem qualquer critério de referenciação e a busca insaciável por relevância a qualquer custo.

Num artigo publicado recentemente, intitulado como The Perils of Audience Capture ou, em tradução livre, “Os Perigos da Captura de Audiência”, o autor identifica que esse cenário pode desencadear um fenômeno ainda mais perigoso em que a ilusão de pertencimento possa ser capaz de remodelar nossos princípios, nossos valores, nossa aparência e tudo mais que se fizer necessário para garantir o engajamento e um crescimento exponencial.

Aterrissando na moda, grandes varejistas começaram a prestar mais atenção às tais trends do momento e aos burburinhos digitais. A C&A, por exemplo, havia divulgado que passaria a criar uma mini coleção a cada 24 horas, baseando suas estratégias de desenvolvimento e lançamento de novos produtos nas hashtags mais utilizadas ou em assuntos viralizados. Conteúdos conhecidos como unboxing ou recebidos, avaliações, antes x depois e “dupe” – como construir looks gastando menos – tomam conta das redes e só fazem reverberar práticas já conhecidas. Sendo alvo de parcerias entre os famosos creators e marcas estabelecidas no mercado. 

Também acompanhamos a transição entre o Fast Fashion e o Ultra Fast Fashion, conceito comumente fantasiado por “acessibilidade”, mas que segue atribuído a uma produção ainda mais acelerada, de origem duvidosa, amparada por réplicas de baixo valor, desconectada de preceitos básicos de responsabilidade socioambiental e fortemente conectada à depreciação e descartabilidade. 

Precisamos partir de um consumo mais responsável e transformá-lo em articulações políticas capazes de fortalecer e revolucionar nossa atuação social, por meio de coletivos e frentes de atuação mais propositivas e estimuladas a integrar uma sociedade composta por pessoas, não consumidores. 

Para te inspirar, trazemos os 12 princípios do consumo consciente compartilhados pelo Instituto Akatu

  1. Planeje suas compras. Para isso, você pode analisar tudo que já tem e criar pequenas listas do que verdadeiramente lhe falta; 
  2. Avalie os impactos de seu consumo. Para isso, você pode buscar maiores informações em outros conteúdos distribuídos pelo Fashion Revolution; 
  3. Consuma apenas o necessário. Será que algo novo é verdadeiramente necessário ou só estamos tentando suprir uma relação de pertencimento? 
  4. Reutilize produtos e embalagens. Ao invés de comprar novas, reuse; 
  5. Separe seu lixo. Você pode buscar mais informações sobre coleta seletiva na prefeitura de seu município; 
  6. Use crédito conscientemente. Se possível, acompanhe seu saldo periodicamente e faça planejamentos mais eficientes; 
  7. Conheça e valorize as práticas de responsabilidade social das empresas. Você pode acessar o Índice de Transparência promovido pelo Fashion Revolution; 
  8. Não compre produtos piratas ou contrabandeados. Se possível, escolha aqueles de origem fidedigna. Através de produtores locais e mais responsáveis; 
  9. Contribua para a melhoria de produtos e serviços. Você pode contatar marcas e empresas para questionar práticas duvidosas e, até mesmo, denunciá-las aos órgãos fiscalizadores;
  10. Divulgue o consumo consciente. Compartilhe ações e pequenos negócios; 
  11. Cobre dos políticos. Participe de debates públicos e agendas políticas; 
  12. Reflita sobre seus valores. 

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