Válaka Devi, a 1ª transexual a reivindicar um casamento oficial na religião Ananda Marga

As comunidades religiosas podem ter papel fundamental na superação das intolerâncias, cumprindo sua missão de agente transformador

(Foto: Reprodução/Facebook)

(Foto: Reprodução/Facebook)

Blogs,Diálogos da Fé

“Hoje vocês devem criar o Grande Universo, e o princípio orientador por detrás será o de que todos os seres humanos são a progenitura do Progenitor Supremo, Deus. Assim, todos são Suas crianças, todos deveriam viver juntos – todos terão de viver juntos. Negros ou brancos, alfabetizados ou analfabetos, altos ou baixos, todos são crianças do mesmo progenitor e todos devem viver juntos”. – Srii Srii Ánandamúrti, discurso no Mahabharata.


Recebi esta semana, via Whatsapp, uma solicitação de abaixo-assinado. Sempre fico muito reticente com esse tipo de manifestação, porque não sei – e isso muito empiricamente falando – a sua efetividade. Mas como foi enviado por uma amiga querida, abri para ler.

Ainda bem!

Tratava-se de uma campanha pela liberação do casamento oficial de Tom e Válaka Devi, um casal LGBTI, na Unidade Mestra Ananda Kiirtana, de acordo com o que foi deixado como diretriz por Sri Sri Anandamurti, mestre espiritual dos/as seguidores/as desta doutrina.

Ananda Marga, que significa “Caminho da Bem-Aventurança”, é uma organização sócio espiritual internacional, fundada na Índia em 1955 por Prabhat Ranjan Sarkar, também conhecido como Shrii Shrii Anandamurti, mestre espiritual e filósofo. É uma filosofia da vida aplicada à ação baseada na Prout ou Teoria de Utilização Progressiva, que é uma teoria socioeconômica desenvolvida em 1959 pelo seu fundador, que sintetiza as dimensões físicas, mentais e espirituais da natureza humana e descreve uma alternativa aos paradigmas socioeconômicos do capitalismo. Seu objetivo é ensinar as práticas de ioga e meditação para que o ser humano desenvolva o seu potencial físico e espiritual, além de trazer mudanças positivas nas esferas social, educacional, artística e intelectual.

No Brasil, chegou por volta da década de 1980 e muito rapidamente começou ganhar adeptos/as e hoje conta com mais de seis mil pessoas iniciadas.

Aparentemente é uma filosofia com elementos religiosos bem progressistas e que dialoga com os nossos desejos de um mundo mais justo, sustentável e feliz, uma casa comum, o bem viver posto em prática para todas e todos.

No entanto, assim como em outras comunidades de fé, a transfobia está presente e foi esse ponto que me chamou atenção.

Valaka Devi é uma baiana de quarenta anos, formada em filosofia e teologia védica, a terceira filha de uma cozinheira pernambucana e de um técnico em dinamitação paraibano. Atualmente é culinarista vegana e empreendedora no setor de orgânicos na fazenda onde mora, pertencente a sua comunidade religiosa.

Valaka conhece todas as dores de se assumir transexual em um país que mais mata essa população. Aos quinze anos, ao assumir sua homossexualidade – transexuais, muitas vezes, tem orientação sexual heterossexual e não homossexual, mas pode ser que o processo transexualizador (identidade de gênero) passe primeiro pela identificação com o universo gay – relata que teve apoio de sua família, mas por achar que algo de estranho acontecia com ela, preferiu se recolher em um monastério, onde estudou e teve contato com sua doutrina de fé.

Ainda durante esse processo de autoaceitação, Valaka conta que namorou mulheres e que sonhava em casar e ter filhos. A barreira familiar que aceitava um filho gay e não uma filha transexual contribuiu para esses dilemas. Só depois de anos de vivencia filosófica e de um curso com o educador Tião Rocha, fundador e presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, CPCD, resolveu escrever uma carta para seus familiares e os moradores da fazenda onde mora, relatando o início de sua transição.

Precisava enfrentar os meus próprios medos e foi Tião Rocha quem me proporcionou oportunidades para me olhar como ser humano e identificar o que me fazia feliz. As pessoas descobriram que eu continuo sendo a mesma pessoa, mas com nova roupagem. O processo de transição não é só para a pessoa que passa por ele, mas para quem convive, também”, conta.

Valaka é bastante atuante na comunidade e em 2015, junto com outros membros LGBTIs, fundou o Coletivo Marguis Pró LGBTI, que luta por igualdade de direitos dentro da organização e que nunca reconheceu alguns direitos da população LGBTI, sendo um deles o direito a uma cerimônia religiosa de casamento, “já que direitos religiosos não podem estar descolados de direitos sociais e não há nenhuma orientação nas escrituras que vetem casamento entre LGBTIs”.

O desejo de Valaka é que sua atitude possa inspirar outras pessoas, abrindo portas, e que elas sejam acolhidas na diversidade.

Vivemos tempos difíceis para os/as sonhadores/as, em que é necessário defender o óbvio, disputar narrativas e resgatar conceitos e valores das comunidades de fé, atualmente adormecidos ou propositalmente apagados por aqueles/as que querem fazer das religiões lugares dogmáticos, vazios de interpretações e semelhante a tantas outras que, afastando-se de seus princípios, excluem, segregam e oprimem.

No mês de janeiro, conhecido como o mês da Visibilidade Trans, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) lançou o Dossiê dos Assassinatos e da Violência Contra Pessoas Trans Brasileiras. Em sua 3ª edição, referente ao ano de 2019, chamou atenção o fato de o Brasil continuar sendo o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. O país passou do 55º lugar de 2018 para o 68º em 2019 no ranking de países seguros para a população LGBT.

Acreditamos que as comunidades religiosas podem ter papel fundamental na superação das intolerâncias, cumprindo sua missão de agente transformador, encampando discursos de acolhimento e amor, respeitando a diversidade, respeitando as identidades de gênero e apoiando aqueles/as que procurarem os seus espaços, físicos e simbólicos.

Desta forma, estabeleceremos uma sociedade mais justa e mais diversa. Uma casa comum onde todos/as possam viver bem, tendo acesso pleno aos seus direitos, livres de preconceitos e discriminações.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

Compartilhar postagem