Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Uma trajetória de redescoberta de Jesus na capital mais negra do País

Houve salvação em Salvador. Fui salvo e resgatado deste sistema que oprime e gera morte, e passei a integrar um projeto de emancipação

Imagem: iStock
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Para alguém que nasceu e cresceu em lar cristão, vivenciando a experiência de fé comum na Assembleia de Deus, não faltam relatos sobre como as formas de enxergar e se relacionar com o mundo foram, por muito tempo, avassaladoramente impactadas por inúmeros dogmas que implicaram em uma série de limitações, das mais típicas – que figuram no imaginário comum de proibicionismo – até questões mais minuciosas, que têm relação com as problemáticas sociais.

A abordagem que se propõe aqui é sobre as violências que se introjetam quase que no âmago da essência do ser, fazendo-o crer que os sonhos e projetos que aspira – bem como os medos e frustrações – são elaborações suas, quando, na verdade, foram construídos como uma grande camada de cimento sobre um solo que era fértil. 

O evangelicalismo, de forma genérica, oferece uma cosmovisão totalitarista para quem o experimenta; uma “lente sobre os olhos” – por vezes, venda – capaz de influenciar e interferir na ótica sobre absolutamente todas as coisas em todas as esferas. Os processos de formação e criação de identidade, reconhecimento e pertencimento a serem vivenciados, são completamente atravessados pela presença e dominação de um Deus pentecostal; repleta de “nãos” e escassa de “porquês”. Essa era a maneira como eu encarava a religião que me foi “gentilmente imposta”, e era assim que eu pretendia contribuir para sua expansão.

“A ‘Bahia’ não é a ‘Bahia de todos os Santos’, mas de um santo só: Jesus Cristo de Nazaré”. Lembro de fazer coro a esta frase esbravejada que ouvi ecoar em um show gospel no Centro Administrativo da Bahia. Assim, outros títulos atribuídos à cidade passaram a ser questionados por mim. “Baía de Todos os Santos”? “Terra do Axé”? “Cidade do Carnaval”? Além disso, todo um background envolvendo sincretismo, festas, pluralidade… tudo isso que era referência da minha cidade natal parecia avesso ao que absorvi como a identidade adequada a um cristão, alguém que aspirava por uma “santidade” normativa, como eu me propusera a ser.

As músicas, as danças, as roupas, as comidas e até o linguajar intensificado pela irreverência dos palavrões (repleto de “porras” e “desgraças”) … tudo nas tradições e costumes soteropolitanos soavam como uma afronta a esse Deus evangélico que, dizem, espera de nós uma conduta sem excessos. Eu não odiava Salvador, mas as suas representações e símbolos. Até mesmo o clima da cidade me causava repulsa, uma vez que, diante de temperaturas mais quentes, faz-se necessário o uso de roupas mais leves e que cubram menos o corpo… o corpo à mostra – que também é uma máxima nas praias, com as quais eu também não me relacionava – era um tabu irrevogável. 

Era como se não fosse possível ver o Jesus de Nazaré, caminhando por Salvador, entrando em algum beco, subindo e descendo ladeiras. Não era possível vê-lo comendo acarajé, jogando capoeira, se banhando em alguma praia. Não cabia a interação de Jesus com estes corpos… mas por quê?

Todos os traços culturais têm algo em comum: expressam a cultura de um povo muito específico, a saber, o povo que faz de Salvador a cidade mais negra fora da África. Todas as manifestações culturais soteropolitanas, que pareciam tão transgressoras para a conduta que se afirmava cristã, são tão somente a essência de um povo que resgata e mantém viva a memória de seus ancestrais, principalmente, com forte presença das religiões de matriz africana. O racismo (inclusive, religioso) e a intolerância me fizeram praticar uma espiritualidade que pretendia exterminar toda e qualquer identidade preta em mim e ao me redor. O sistema religioso orquestrado e operado por maioria esmagadora de homens – e mulheres – brancos, mesmo na cidade mais negra fora da África, foi quase definitivo para o meu auto ódio velado, travestido de “cultura do céu”.

Mas Jesus, o Cristo, é Salvador. Sim, Jesus veio nos salvar… e continua nos salvando. E não deve ser por acaso que este Jesus, a Palavra por meio da qual todas as coisas foram criadas, tão intencional, me plantou nesta cidade cujo nome remete a sua mais sublime missão. Houve salvação em Salvador. Fui salvo e resgatado deste sistema que oprime e gera morte, e passei a integrar um projeto de emancipação.

Essa é a postura do Salvador em relação a Salvador e seu povo: justiça, reparação, libertação e liberdade. Após romper com dogmáticas hegemônicas da igreja evangélica brasileira, uma das ressignificações diárias que me comprometo a fazer é com a minha cidade, o meu lugar no mundo… o Salvador ama Salvador, bem como eu O amo e, agora, posso dizer, amo o território em que eu vivo. Pertencer é potente. Apropriar-se é necessário. Reivindicar é urgente. Ocupemos!

Alan di Assis

Alan di Assis
Jornalista, coordenador de Comunicação no Evangelicxs Pela Diversidade, e membro do Movimento Negro Evangélico da Bahia

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