Sobre cristãos traficantes de notícias falsas

Há, como acontece com as drogas, produtores, financiadores, 'traficantes' grandes e pequenos, 'soldados', 'aviões', e 'viciados'

Hans River do Rio Nascimento é alvo de representação no Ministério Público Federal por declarações inconsistentes na CPMI das Fake News. Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

Hans River do Rio Nascimento é alvo de representação no Ministério Público Federal por declarações inconsistentes na CPMI das Fake News. Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

Blogs,Diálogos da Fé

O tema das fake news ganhou o mundo desde 2016. Naquele ano as notícias falsas foram protagonistas da campanha para retirada da Grã-Bretanha da União Europeia (o Brexit) e, também, das eleições dos EUA que levaram Donald Trump ao poder. 

Naquele 2016, já havia muito conteúdo falso espalhado pelas mídias sociais no Brasil durante a empreitada pelo impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Dois anos depois, fomos inundados de notícias falsas que alimentaram a campanha eleitoral da extrema-direita, que acabou colocando Jair Bolsonaro na Presidência da República (é fato que centro e esquerda também fizeram uso, só que em número extremamente inferior). 

O caso do Brasil foi tão grave que, logo no primeiro ano do governo Bolsonaro, foi instaurado um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) e instalada uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, a CPMI das Fake News. Tanto o inquérito quanto a CPMI investigam ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e o debate público (o primeiro com especial atenção aos dirigidos à Corte e a seus familiares) e a utilização de perfis falsos, com financiamento irregular, para influenciar os resultados das eleições 2018.

O pesquisador em Comunicação Política da Universidade Federal da Bahia Wilson Gomes explica que neste período de quatro anos, foi criada uma engrenagem de produção e de disseminação de notícias falsas para que grupos interfiram, de forma criminosa, em temas de interesse público.

Para Wilson Gomes, a falsificação e a distribuição de fake news são um tipo de tráfico. Há, como, acontece com as drogas, produtores, financiadores, “traficantes” grandes e pequenos, “soldados”, “aviões”, e “viciados” (aqueles das nossas relações pessoais que estão nas mídias sociais consumindo fake news).

Tudo é gerado, desde 2016, por grandes “traficantes”/falsários da informação, em ritmo industrial. Organizam cadeias de montagem, ordenam a demanda, articulam times de criadores, convocam fornecedores, com financiamento de empresários cúmplices, e garantem e amplificam o consumo de fake news pelos “viciados”. Investigações têm levantado a existência de um gabinete para sustentar este mecanismo, montado dentro do Palácio do Planalto, cujos líderes seriam os filhos do Presidente da República. Segundo o pesquisador, são dez publicações por hora, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Ligados aos grandes falsários produtores estão os “traficantes” que distribuem o produto. São ministros de Estado, deputados federais e estaduais, ativistas auto-denominados jornalistas, humoristas e youtubers, blogueiros e religiosos. Os empresários financiadores que atuam na engenharia de produção também atuam no tráfico de fake news.

Wilson Gomes indica que não só o Presidente da República, mas metade da chamada “tropa de choque” do governo no Congresso foi eleita com base nessa cadeia de falsificação e tráfico e continua como parte ativa nessa atividade para se manter no poder. É o verdadeiro “Mecanismo” (lembram da série de TV?), segundo Wilson Gomes, que só o STF poderia (se é que vai) quebrar, já que não se pode esperar muito de uma CPMI onde a “tropa de choque” está em atuação.

E foi o STF que trouxe o tema com força às discussões públicas, nos últimos dias. O ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, demandou uma operação da Polícia Federal (PF), que cumpriu 29 mandados de busca e apreensão como parte do processo, envolvendo pessoas que ele chamou de “milícias digitais”. 

O grupo é composto por aliados políticos do presidente Jair Bolsonaro, deputados federais e estaduais, blogueiros, empresários e um ex-deputado do Centrão. Destas personagens, seis se identificam e atuam nas mídias como cristãs, sendo quatro católicas e duas evangélicas. Vejam quem são:

  • Sara Winter, youtuber filiada ao DEM/RJ, foi candidata derrotada a deputada federal em 2018. Chegou a receber nomeação, em 2019, para uma coordenação do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo Bolsonaro, mas, em quatro meses, foi exonerada. Ela se declara publicamente militante conservadora de direita, anti-feminista, anti-aborto, pró-vida e religiosa. Em 2016, Sara Winter apareceu em um vídeo ao lado de Jair Bolsonaro se dizendo “curada” do feminismo depois de se converter ao Catolicismo. Suas postagens nas mídias sociais são marcadas por conteúdo falso além de imagens em que aparece portando armas em defesa do Brasil e do atual governo. Como alvo do inquérito do STF, a ex-ativista feminista publicou vídeo ameaçando o ministro Alexandre Moraes: “Queria trocar soco com esse fdp (xingamento), esse arrombado. Infelizmente, não posso. Ele mora lá em SP, não é? Pois você me aguarde, sr. Alexandre de Moraes. Nunca mais vai ter paz na sua vida”.
  • Bernardo P. Kuster, youtuber indicado por Jair Bolsonaro como canal informação de sua confiança https://t.co/25GAgrfFp6 , se apresenta como “jornalista católico”. É de origem presbiteriana, com passagem pela Igreja Batista, e se converteu ao catolicismo. Em seus canais é crítico feroz da Teologia da Libertação, da CNBB e do Papa Francisco. Debocha de figuras públicas e tem ampla veiculação de conteúdo falso e desinformativo em seus espaços. Neste mês de maio, foi condenado em segunda instância a pagar indenização de R$ 20 mil e dar direto de resposta ao teólogo Leonardo Boff, a quem havia acusado, em vídeo recheado de xingamentos, de desviar recursos públicos. Ele responde a outros processos na Justiça
  • Allan dos Santos, blogueiro do site Terça Livre, protagonista na campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, chegou a ser cotado para assumir a Secretaria de Comunicações da Presidência (Secom), quando foi denunciado o envolvimento do secretário Fábio Wajngarten em ilegalidades, que ainda permanece no cargo. Recebe verbas da Secom na forma de anúncios em seus canais da internet. Foi evangélico batista e se converteu ao catolicismo, tendo até se tornado seminarista mas “deixou a batina” e se casou. É um dos mais aguerridos propagadores de conteúdo falso e difamação contra personagens da arena pública. É alvo de 77 processos judiciais por conta dos conteúdos que expõe. Depôs na CPMI das Fake News. 
  • Os deputados federais do PSL Filipe Barros (PR) e Bis Kicis (DF) fazem parte da “tropa de choque” de Jair Bolsonaro no Congresso. Filipe Barros é evangélico presbiteriano. É um dos coordenadores da equipe de coleta de assinaturas e apoios para a criação de um novo partido político de Bolsonaro, o Aliança para o Brasil, e chegou a organizar um evento para isso na igreja onde participa, a Presbiteriana de Londrina. https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-igreja-presbiteriana-de-londrina-faz-campanha-para-partido-de-bolsonaro/ Ele aparece em investigações como administrador de grupos de WhatsApp onde são compartilhadas notícias falsas e ataques contra integrantes do Congresso Nacional e do STF (Supremo Tribunal Federal). Nestes grupos de Whatsapp há ainda mensagens com defesas e elogios a integrantes do governo federal e espaço para desinformação sobre o coronavírus, mensagens religiosas de autoajuda e conteúdo homofóbico.
  • Bia Kicis é procuradora aposentada e lidera o Instituto Resgata Brasil. Declara-se lutadora por uma sociedade livre, contra a implantação do comunismo na América Latina, com base em valores cristãos, por ser católica. Foi eleita deputada federal em 2018. Seus espaços nas mídias sociais frequentemente propagam notícias falsas contra quem classifica como “inimigos do Brasil e de Jair Bolsonaro” e sobre a pandemia de coronavírus.
  • Douglas Garcia é deputado estadual (PSL/SP) e se declara nascido em “berço evangélico”, na Assembleia de Deus, “cujos valores defende até hoje”. É apontado como agente de propagação de fake news no inquérito do STF, por meio de um braço do “gabinete do ódio” que funcionaria nas salas que o deputado tem na Assembleia Legislativa de São Paulo. Garcia é ligado ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (SP), filho do presidente da República. 

Sim, há cristãos que se tornam traficantes de notícias falsas para defender seus interesses políticos e ainda usam conteúdo religioso como capa para essas ações criminosas, utilizando-se da fé dos “viciados”, seus consumidores. E ainda debocham da fé cristã ao usarem e abusarem das palavras de Jesus “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8.32).

Como já escrevi sobre isto neste espaço, de acordo com a fé cristã, mentir é pecado!

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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