Só haverá disputa quando entendermos os evangélicos segundo eles mesmos

Pensar na fé da classe trabalhadora é lembrar que os evangélicos partilham experiências de uma vida precarizada pelo neoliberalismo

Grupo de evangélicos presente no noticiário mais recente e o pertencente ao primeiro escalão do governo federal são vinculados à corrente que sempre foi hegemônica. Foto: Pixabay

Grupo de evangélicos presente no noticiário mais recente e o pertencente ao primeiro escalão do governo federal são vinculados à corrente que sempre foi hegemônica. Foto: Pixabay

Diálogos da Fé

“Andá com fé eu vou Que a fé não costuma faiá”
Gilberto Gil 

Tão simples o ajuntamento da palavra fé, apenas duas letrinhas, entretanto fé é uma palavra polissêmica e polifônica, com tantas variações de sentido e tantas vozes que a disputam. Rubem Alves, teólogo-pedagogo-contador de histórias, dizia que o discurso religioso é uma extensão do corpo.

Então, excluir a dimensão do corpo na fé é um erro, tanto dos religiosos quanto do campo progressista político. Já diziam as Escrituras Sagradas que a fé move montanhas, além disso, movem corpos, movem a política…

A classe trabalhadora do Brasil tem fé, e isso é inegável nesse Brasil de 2021. A fé faz parte do cotidiano, traz a dimensão de sustentação e horizontes de esperanças. A religiosidade promove acolhida, estética, cultura, organização de mundo e conexão com o transcendente.

Entretanto, invoco Rubem Alves novamente, quando diz que “todo o fenômeno religioso é ambíguo e ambivalente” (em “Dogmatismo e Tolerância”), não devemos fechar nossos olhos para as violências e fundamentalismos acometidos em nome da “verdadeira fé”. Compreender as múltiplas dimensões desse fenômeno se faz uma tarefa urgente.

 

Nas últimas décadas o crescimento exponencial dos evangélicos tem chamado a atenção, assim como, suas articulações em diversos espaços públicos e midiáticas, e dessa forma temos ouvido muito o quase-mantra: “a esquerda precisa dialogar com os evangélicos”.

Quando penso nessa frase, tenho a impressão de que os evangélicos estão à parte da sociedade, como se fossem difíceis de encontrar… pois bem, sabemos que não é o caso, nas periferias as igrejinhas estão por todos os lados. A realidade é que se estamos no meio do povo dialogamos com os evangélicos.

E não é apenas o diálogo, mas antes a esquerda precisa aprender a dialogar com um mundo de símbolos religiosos, ritos, místicas, magias, que são diferentes de um catolicismo da Teologia da Libertação, que inspirou, e ainda influencia, muitos movimentos populares na década de 70.

A linguagem constrói e destrói  mundos, corpos, teologias e saber a historicidade do pensamento protestante, pentecostal e neopentecostal nos auxilia nessa imersão do aprendizado básico de uma boa comunicação: a escuta.

Apenas haverá disputa de narrativas quando compreendermos as estruturas de fé dos evangélicos por eles/elas mesmos. Só realmente há diálogo quando os ouvidos, o corpo, a mente, o coração estão abertos a escuta! Coisa difícil nesses tempos de cancelamentos… 

Em tempos de covid-19, as ações de solidariedade promovidas pelos movimentos populares do campo e da cidade, como o Periferia Viva, Brigadas do Congresso do Povo, MST, demonstram um amadurecimento do campo popular de esquerda para as temáticas religiosas. Lucas Lemos, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra do Distrito Federal, pontua esse aprendizado adquirido na sua atuação como ativista:

“O contato, e o trabalho de base, que muitos movimentos perderam, as religiões sabem fazer muito bem.  Que é chamar pessoas para si, trazer esperança para elas, dar um apoio físico, ou de conseguir um emprego ou as  condições que a pessoa está precisando. Às vezes o carro quebra, e é o carro que a pessoa trabalha, e os irmãos vão lá e se juntam para consertar o carro daquela pessoa. Então, essa parte da solidariedade a gente aprende muito com as igrejas. Essa solidariedade com o trabalho de base, que é aproximar mesmo,  não  é  só  o  dar,  mas  você  fazer  parte  de  um  grupo  que  vai  te  dar  um  apoio  e  que  a  partir  daquele  grupo  você  vai  ter  uma  relação com a sociedade como um todo.”

Dada essa inadiável necessidade de nos debruçarmos sobre esse assunto e a extrema relevância do tema, que o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, as Brigadas do Congresso do Povo e os movimentos populares construíram o “Seminário Trabalho de Base e os Neopentecostais”, que aconteceu em outubro-novembro de 2020,  com o objetivo de refletirmos coletivamente o que este fenômeno quer dizer para a prática de nossas ações e para que possamos, além de compreendermos historicamente o fenômeno religioso, construirmos forças populares com ações concretas a partir da avaliação, debate e aprofundamento do tema proposto. Quem se interessar pode acessar o conteúdo no site do Formação em tempos de Corona, promovido pelo MST. 

Por fim, os evangélicos não são apenas uma palavra abstrata, um grupo homogêneo. Pensar na fé da classe trabalhadora é lembrar que os evangélicos são corpos viventes, com desejos, prazeres, alegrias e experiências de uma vida precarizada pelo neoliberalismo e que muitas vezes reproduzem fundamentalismos e violências como resposta de inúmeros males e opressões.

Corpos que buscam em algo transcendente uma dignidade que muitas vezes lhe são negadas pelas instâncias sociais. Corpos evangélicos que, segundo a pesquisa Datafolha, são grande parte de mulheres, negras e periféricas. Corpos que contém saberes populares, que são contraditórios, ambíguos, e que são movidos por fé, e então, que seja uma fé de resistência como os Evangelhos da Bíblia podem nos ensinar.

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Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

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