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Só amor inclusivo poderá salvar e curar a nossa sociedade adoecida

É Jesus quem sugere que façamos algo extraordinário: que amemos como ele amou, o amor desinteressado, sem condições

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã (Wikimedia Commons)
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã (Wikimedia Commons)
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No final da tarde de sexta-feira passada, 27 de setembro, aos sete dias da morte da menina Ágatha Félix em ação do Estado no Complexo do Alemão, foi realizado um ato religioso, em frente à sede do governo do Estado do Rio. Ali, pessoas de diferentes confissões de fé clamaram por paz e justiça para as famílias das cinco crianças assassinadas durante intervenções violentas da polícia em favelas do Rio, somente em 2019, e por aquelas que residem nestas áreas, inseguras.

Durante o ato, permeado por falas proféticas de denúncia, consolo e anúncio de esperança, e por orações em prol da paz com justiça, um ou outro que passava em automóveis gritava da janela: “Vão trabalhar”, “Vagabundos!”.

Os gritos gratuitos de ofensa me fizeram pensar na incapacidade que muitos de nossos iguais estão desenvolvendo de amar e de demonstrar amor. E isto aconteceu nos dias em que outra menina, a sueca Greta Thunberg, líder de uma nobre causa em defesa do meio ambiente, foi ofendida publicamente por homens bárbaros ressentidos.

Nossa sociedade adoeceu. Os últimos anos marcados no espaço público por competição, por polarização, pela disseminação de mentiras e calúnias contra desafetos e pela incitação à violência da parte de governantes, fizeram sair do esgoto da vida uma legião de pessoas inumanas: sem misericórdia, sem solidariedade, sem amor (já escrevi sobre isto neste espaço).

 

Falo do amor, não de mães e pais por seus filhos e vice-versa, não aquele entre irmãos e irmãs que afeta amigos e amigas, ou o que une pessoas e formam casais. Falo do amor que permeia (ou deveria) as relações entre seres humanos, e que no Cristianismo, é estimulado pela Lei do Amor.

Esta Lei vem de preceitos antigos da tradição judaica, alimento da fé cristã, dos chamados Dez Mandamentos e seus desdobramentos expostos nos Livros da Lei (a Torá). A base está no Deuteronômio 6.5, que diz: “Amarás o SENHOR, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”, e no Levítico 19.18, que expressa: “Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo…”.

Jesus reafirma esta tradição e desafia seus seguidores a imitá-lo: “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”. O termo grego para “amor” nestas palavras é agapao, o verbo amar que está relacionado ao substantivo ágape, amor. Agapao, a que Jesus se refere, é amar ou expressar amor ao que está próximo, ao compatriota, ao companheiro, ou simplesmente o Outro.

Quando Jesus recupera a Lei de Deus, ele impõe uma novidade, porque enfatiza a relação com o Outro – o sentido amplo do amor que aqueles que dizem amar Deus devem ter. É a oposição a uma tendência religiosa que emergiu na história e acabou restringindo, limitando o amor àquele que está próximo, ao compatriota da terra e aos estrangeiros que habitavam a terra (não os de fora). Jesus, então, abriu, ampliou essa compreensão, e retomou o sentido do amor dos preceitos antigos, dirigido ao Outro, de forma .

 

Um forte exemplo disto está na narrativa em que Jesus reafirma que façamos aos outros aquilo que desejamos que os outros nos façam (a Regra de Ouro, Mateus 7.12). Por isso ele contou a história do samaritano justo, o homem do povo considerado inferior, que prestou solidariedade a um cidadão judeu, que estava ferido na estrada, depois de assaltado (um inimigo, de acordo com aquela cultura), e já tinha sido abandonado por dois líderes religiosos do seu povo.

A história foi contada em resposta à pergunta de um Doutor da Lei sobre quem vem ser o Outro, o próximo. O líder parecia esperar confirmação do que já sabia: segundo a sua tradição religiosa, o próximo era o compatriota e o que cumpria as leis, o “cidadão de bem”. Entretanto, Jesus contou a história e respondeu com uma outra pergunta: quem foi o próximo do judeu ferido na estrada? A resposta não poderia ter sido outra da parte do Doutor da lei: “aquele que usou de compaixão para com ele”.

O Doutor da Lei teve que reconhecer que aquele tido como “não-cumpridor das leis”, o estrangeiro considerado impuro e inimigo, foi o próximo do judeu ferido e não os seus iguais. Ou, poderíamos dizer, o estrangeiro, impuro e inimigo, o samaritano, foi aquele que mostrou amor.

Quem ama só os amigos não faz nada de excepcional. Jesus, porém, sugere que façamos algo extraordinário: que amemos como ele amou, o amor desinteressado, sem condições, “como se não houvesse amanhã”… O amor da reconciliação, que rompe com as restrições das leis e das culturas para que se faça o que é bom e justo.

Este é o amor relacional, o Dom Maior da Vida que, como registrado na Bíblia, torna as pessoas pacientes, bondosas, sem ciúmes (controle do outro), não arrogantes, não desagradáveis, não egoístas, não grosseiras, sem ressentimento e rancor, incomodadas com a injustiça, a mentira e a calúnia, esperançadas (1ª Carta aos Coríntios, capítulo 13).

Esta Lei do Amor, sepultada até mesmo por alguns líderes que se apresentam como seguidores de Jesus mas, na prática, são cristãos fake, cheios de ódio, arrogância e cúmplices da morte, pode ser recuperada e revitalizada. Sim, a sociedade doente pode ser curada.

Basta que cada ser, que se mantêm na sua condição humana, desafie toda orientação que restrinja a expressão do amor apenas àqueles que estão perto de nós, que são como nós, que nos fazem sentir bem. Abrir-se ao amor inclusivo, amplo, com todos os compromissos e as dificuldades que ele requer de nós ao nos colocarmos no lugar do Outro.

Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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