Ser LGBT não é resgate de vidas passadas

A doutrina espírita repudia qualquer tipo de preconceito e discriminação LGBTfóbica

Ser LGBT não é resgate de vidas passadas

Diálogos da Fé

“Questão 202: Quando errante, que prefere o Espírito;

encarnar no corpo de um homem, ou no de uma mulher?

Isso pouco lhe importa.

O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar.”

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos

A religião, a manifestação da fé, de acesso ao sagrado, tem sido mais um espaço negado a nós LGBTQI+ por não nos enquadrarmos em algumas normas impostas pela sociedade hétero-cis-normativa.

Em determinados grupos, para poder ter aceitação e continuidade no compartilhamento do espaço religioso, muitos LGBTQI+ tendem a assumir identidades, comportamentos e posturas não condizentes com seu modo de ser, potencializando o surgimento de quadros de adoecimento mental, como transtornos psicológicos (quadros depressivos, doenças autoimunes) e até mesmo a morte (assassinatos ou suicídios).

Incomodados/as com a captura do movimento espírita brasileiro pelos setores mais reacionários e fundamentalistas, espíritas de todos os cantos do país e de fora dele, tem se reunido, presencialmente (antes da pandemia) ou virtualmente, para expressar seu repudio às leituras equivocadas e enviesadas que estão fazendo do legado de Allan Kardec, codificador da doutrina espírita.

 

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Não há, em todos os escritos de Kardec, uma linha sequer contra LGBTQI+. Se o fazem em nome do espiritismo, fazem baseados em suas próprias convicções, suas crenças e suas leituras – enviesadas – de mundo e de sociedade. E na contramão dos ensinamentos de Cristo e dos espíritos.

Acovardada diante dos retrocessos sociais e das violações dos direitos humanos, boa parte da comunidade espírita – que já ousou debater temas como células tronco, fertilização invitro, divórcio, adoção, trazendo boas contribuições doutrinárias e científicas para o debate – fez uma aliança com os setores mais retrógrados e conservadores do cristianismo. Alguns figurões espíritas, inclusive, são entusiastas dos discursos do atual presidente da república.

Nos últimos tempos uma espécie de pacto perverso do silêncio, em que os cristo-fascistas que estão no poder não “mexem” com os espiritas (queimar terreiro de umbanda/candomblé, pode, afinal, para essa gente, eles nem são espíritas mesmo) e, em contrapartida, a comunidade espirita não enfrenta, sequer fala, sobre violência de gênero, LGBTfobia, escola sem partido e a maior fakenews de todos os tempos: a tal ideologia de gênero.

Desde muito cedo frequentei a evangelização infantil, uma espécie de catecismo dos católicos ou escola dominical dos protestantes. Nela, a transmissão do conhecimento espírita baseava-se na moral evangélica pregada por Jesus, apontado pelos Espíritos Superiores, que trabalharam na Codificação (revelação espírita), como modelo de perfeição para toda a Humanidade.

Ainda criança, durante uma dessas aulas de evangelização infantil, a evangelizadora, responsável pela turma, tentando explicar por que eu era diferente dos outros meninos – mais delicado, mais meigo – disse que eu era uma menina em um corpo de menino. Imaginem! Se hoje há muito tabu em torno das questões LGBTs e religiões, em meados da década de 1990, quase não se falava sobre isso. Sem nenhuma habilidade, foi o jeito que ela encontrou para que os outros meninos me deixassem em paz.

Cresci e embora cercado de muito amor e afeto, inclusive e principalmente no ambiente familiar, vi reverberar essas explicações para as homossexualidades. Segundo Jorge Andréa, um psiquiatra tão famoso quanto controverso no meio espirita, a falta de sintonia entre o ser e o querer ser, ou entre o que se é e o que se pensa ser, transforma o homossexual, masculino ou feminino, num ser frustrado, atormentado por ilusões e anseios de consumação às vezes impossível e que o debilitam moralmente, abrindo porta larga a graves obsessões (obsessão é a influenciação negativa de um espírito desencarnado sobre uma pessoa). Já o Espírito Emmanuel, em sua obra “Vida e Sexo”, psicografada por Chico Xavier, relata que quase sempre, os que chegam no além-túmulo, sexualmente desequilibrados, depois de longas perturbações, renascem no mundo tolerando moléstias insidiosas, ou em condição homossexual, amargando pesadas provas como consequência dos excessos que cometeram no passado.

Percebam como esse discurso espírita, parecido com o discurso de culpa da maioria das religiões cristãs, é forte e carregado de preconceito e desconhecimento.

Somos espíritos imortais, surgidos a partir de um princípio inteligente. Como o espírito é um ser individualizado, vive, cada um/a, as experiências necessárias à sua evolução.

Quando progredimos, cada identidade de gênero ou orientações sexuais, assim como cada posição social, oferece condições e novas oportunidades de adquirirmos experiência.

Ser LGBT+ não é resgate de vidas passadas coisíssima nenhuma. Isso é fala de alguém mal intencionado.

A doutrina espírita repudia qualquer tipo de preconceito e discriminação LGBTfóbica, dentro ou fora das casas espíritas, utilizando-se de argumentos pseudo-religiosos ou mediúnicos para oprimir e violentar.

Toda fala e comportamento LGBTfóbico devem ser radicalmente rechaçados. Não se pode considerar liberdade de opinião, ideias que machucam, ofendem, discriminam e matam.

Ou você é antirracista ou você não é! Ou você é antifascista ou você não é! O mesmo se dá com o combate à violência e ódio oriundos das orientações sexuais e/ou identidades de gênero: ou você é antilgbtfóbia ou você não é!

Diante de qualquer afirmação que coloque nós LGBTQI+ como desviados, doentes ou perturbados, reflita se aquele lugar merece a sua presença, assim como utilize a justiça a seu favor.

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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