Saudade do espiritismo da minha infância

'A pobreza extrema continua se alastrando pelo País, em decorrência dos grandes retrocessos e da política de recessão adotada pelo governo'

Foto: iStock

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Diálogos da Fé

“Reparte o pão que te enriquece a mesa,

Estendendo o teu horto de beleza,

E o Mestre Amado habitará contigo.”

Auta de Souza

Enquanto lavava louças, ouvi a campainha tocar.

Atendi e era um jovem, talvez pouco menos de 30 anos, mas com algum sofrimento psiquiátrico e as marcas de uma vida sofrida aparentes. Pediu comida e como não tinha nada pronto, preparei um sanduiche, com frutas e suco.

A cena dele sentando na calçada, devorando o lanche, enquanto agradecia, partiu meu coração. Orei em pensamento.

Infelizmente, essa tem sido uma triste realidade do Brasil nos últimos anos, com o golpe e com a ascensão da extrema-direita ao poder: a volta da fome, pessoas pedindo comida nos supermercados, mulheres esmolando com seus filhos pequenos no colo e gente batendo nas portas em busca de alimentos.

A pobreza extrema continua se alastrando pelo País, em decorrência dos grandes retrocessos e da política de recessão adotada pelo atual governo, após anos de avanços nas áreas de assistência social, educação e saúde.

Voltei para a lavagem da louça completamente mexido e, enquanto estava preso naquela atividade doméstica, parece que, automaticamente, fui teletransportado para minha infância.

Cresci em um bairro pobre da periferia de São Paulo e minha infância foi marcada por pessoas que batiam em nossas portas pedindo “uma xícara de arroz ou um punhado de feijão”. Geralmente, essas pessoas eram crianças, negras ou retirantes nordestinas (assim como minha mãe, paraibana, foi um dia), então ela se via no dever moral de ajudar, mesmo com pouco, essas pessoas e dizia (ou mandava a gente dizer) “um pouco com Deus é muito”.

Passávamos todo o final de semana no centro espírita do meu bairro. No sábado, participávamos das atividades para crianças, uma espécie de catecismo. A tarde, ajudávamos na separação de alimentos e roupas que recebíamos como doação e, no domingo, batíamos de casa em casa em busca de alimentos que seriam usados nas cestas básicas para as famílias mais empobrecidas (na época chamávamos de assistidos).

Era uma festa estar na rua fazendo essa ação batizada de Auta de Souza.

Auta de Souza, conhecida também por “cotovia mística das rimas”, foi uma poetisa negra brasileira, nascida no Rio Grande do Norte, na pequena cidade de Macaíba, em 12 de setembro de 1876. Era a quarta filha, se tornando órfã de mãe aos três anos e de pai aos cinco, quando foi acolhida pelos avós maternos. Aos sete anos já sabia ler e escrever, graças a um professor amigo. Aos 14 anos contraiu tuberculose, desencarnando aos 24 anos de idade. Escreveu um único volume de poemas, “Horto”, publicado em 1900, pouco antes de sua morte, com prefácio de Olavo Bilac. A primeira edição esgotou-se em dois meses, ocorrendo fato análogo com a segunda edição, em 1911.

Nós nos revezávamos em cima de uma velha caminhonete verde, ora recebendo os alimentos que as outras pessoas da campanha iam pegando, ora batendo nas casas. Era muito bom tudo aquilo. Fazer o bem era, também, divertido.

Na década de 1990, não havia programas de transferência de renda e nem programas contra à fome e a desnutrição. Além dos espiritas, a pastoral da criança da Igreja Católica, com sua multimistura e a campanha do Betinho (Natal Sem Fome), eram importantes aliadas no combate à fome e a miséria.

Nestes dias, embalado pela nostalgia que tem sido grande companheira em tempos de pandemia, tenho recordado de um espiritismo que acompanhou toda minha infância e adolescência e que já não existe mais.

Era para todos os centros espiritas estarem abertos (observando os cuidados com as recomendações de órgãos de saúde em decorrência da pandemia), socorrendo os enfermos do corpo e da alma, a exemplo do que o Padre Júlio Lancelotti faz em sua paróquia católica.

Tá certo que eu não sou mais o mesmo, o mundo não é mais o mesmo e logo, nossas crenças e comunidades de fé, também não são mais as mesmas. Mas ver espíritas flertando com o horror, apoiando esse governo da morte, tem me levado a refletir se eu ainda caibo no espiritismo e se o espiritismo ainda cabe em mim, embora parte de quem eu sou hoje deva a ele.

Infelizmente, muitos religiosos/as, benevolentes apenas dentro da casa espírita, são favoráveis, em partes, a dar um prato de sopa (que também é necessário), mas são contra programas de transferência de renda ou de ações afirmativas, como o Bolsa Família e cotas para a população negra, indígena e quilombola, por exemplo. Acreditam – nesses dois casos – que devemos “ensinar a pescar, ao invés de dar o peixe”, que Bolsa Família só serve para “fazer filho” e que cotas “aumenta o preconceito contra os próprios negros”.

São os chamados “cidadãos de bem”, fazem caridade para aplacar suas consciências pesadas, mas são contra justiça social. Não querem emancipação das camadas mais populares e nem tampouco que esses pobres deixem de existir, por que precisam deles para provar que são generosos. A classe média, como defende a filósofa Marilena Chaui “é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante.”

A fome nunca foi extinta totalmente do Brasil. A fome é um projeto político.

A sociedade justa, feliz e igualitária, uma casa comum onde todos possam viver bem e tendo acesso aos seus direitos, livres de preconceitos e discriminações, base para o mundo de regeneração, só será possível quando todos nós contribuirmos para se assegurar a dignidade de todos, combatendo todas as formas de exclusão social e se esforçando para que o Brasil volte a investir em programas de transferência de renda, na reforma agrária e em programas de economia solidária (com iniciativas de fomento no campo e na cidade).

Tempos duros para os/as que tem sede e fome de justiça, mas (r)existimos!

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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