Religiosos cristãos e não cristãos se unem em lamento pelo Brasil

Na tradição da Bíblia cristã, profetas lamentam, consolam, denunciam e anunciam, alimentados por indignação e inconformismo

Freira reza na Parish Cathedral Jesus Christ Our Peace. Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP

Freira reza na Parish Cathedral Jesus Christ Our Peace. Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP

Diálogos da Fé

A imagem construída de que o governo de Jair Bolsonaro tem total apoio de grupos religiosos não corresponde à realidade. O presidente, de fato, desde sua campanha eleitoral, instrumentaliza a religião cristã e colhe apoios, com negociações de espaços de poder e suporte financeiro a diferentes grupos. O ex-capitão, bem assessorado neste campo, abriu caminho para ministros e pessoal de segundo escalão, reúne-se com lideranças, participa de cerimônias e faz uso de símbolos cristãos em aparições públicas. E ainda põe o dedo nos espaços judaicos, inclusive com promessas de transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

No entanto, esta aliança religiosa, significativa, por certo, não é unanimidade. São frequentes e expressivas as manifestações cristãs, católicas e evangélicas, e de grupos religiosos não cristãos, que não só negam alinhamento ao governo como condenam veemente suas ações. Estes religiosos, aqueles que são, de fato, pró/pela vida, têm denunciado as ações de destruição e de morte em vigor neste último ano e meio. Destruição e morte de milhares pessoas – por incentivo ao extermínio (de populações de periferia e indígenas) e por omissão na pandemia – e dos milhares de hectares de matas queimadas, que afetam terra e água. 

Na tradição da Bíblia cristã, profetas lamentam, consolam, denunciam e anunciam, alimentados por indignação e inconformismo. Foi assim também com Jesus, que chegou a derrubar mesas de exploradores da fé, com um chicote nas mãos, tamanha a sua ira santa. 

 

Nos últimos dias, tomamos conhecimento de três manifestações expressivas de grupos religiosos nesta direção profética. A primeira delas, a “Carta ao Povo de Deus”, por 152 arcebispos e bispos da Igreja Católica, que manifestam indignação por Jair Bolsonaro usar o nome de Deus para difundir mensagens de ódio e preconceito, pelo desprezo do governo pelos direitos humanos e, também, pela educação, cultura, saúde e diplomacia. Os bispos conclamam “o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com ‘terra, teto e trabalho’ com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos”. Leia a íntegra da carta. 

Dias depois foi divulgada um manifesto de 1.058 padres em apoio à carta dos bispos, que afirma: “… estamos profundamente indignados com ações do presidente da República em desfavor e com desdém para com a vida de seres humanos e também com a da ‘nossa irmã, a Mãe Terra’, e tantas ações que vão contra a vida do povo e a soberania do Brasil”. Leia o texto do manifesto.  Foi publicada ainda uma carta de 1440 lideranças leigas da Igreja Católica em apoio aos bispos. O texto diz que o “povo de Deus está sofrendo a violência institucional por parte do governo federal com medidas equivocadas, ultrapassadas e violentas…”. A carta dos leigos e leigas pode ser lida aqui.

A segunda manifestação é de um grupo de líderes da Igreja Evangélica de Confissão Luterana, preocupado com os rumos que o Brasil está tomando, com a insensibilidade da Presidência da República no enfrentamento da pandemia do covid-19, na assistência às comunidades indígenas e quilombolas. O manifesto, intitulado “Pela saúde da democracia” é assinado por educadores/as, pastores/as, comunicadores/as e profissionais de diferentes áreas. Eis a íntegra do manifesto.

A terceira expressão de lamento e indignação de religiosos foi lançada no sábado, 8 de agosto: um ato online de luto e memória pelas vítimas de Covid-19 no Brasil intitulado “Lamento 100 mil”. A iniciativa foi idealizada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), pelo Instituto de Estudos da Religião, por Paz e Esperança Brasil e por Religiões pela Paz Brasil. Foi feito ainda o convite para se consagrar o dia 17 de agosto como o Dia Nacional do Luto e Memória pelas Vítimas da Covid-19 no Brasil. 

A articulação lançou um site com mensagens de conforto e esperança de 100 lideranças religiosas e espirituais da sociedade, em forma de prece, oração ou reflexão.  Os organizadores sugerem que sejam realizados, de 8 a 16 de agosto, atos e reuniões online sobre esse momento de mortes e sofrimento, especialmente no Brasil. Estão sendo compartilhadas no site sugestões litúrgicas de diferentes confissões religiosas no site para que lideranças civis, do executivo, judiciário ou legislativo realizem cerimônias públicas laicas ou multirreligiosas no dia 17 de agosto.

Veja a íntegra do chamado para as ações “Lamento 100 mil. Luto e memória pelas vítimas de Covid-19 no Brasil. Carta-Lamento-100-mil. O site da iniciativa oferece, ainda, outros documentos de grupos religiosos que podem ser subscritos.

*******

Em tempo: entre os dias 14 e 15 de agosto será realizado o webinário internacional “Evangélicos e sociedade em tempos de pandemia: desafios para o Brasil e os EUA”. 

Participam do encontro como expositores 24 pesquisadores e intelectuais de universidades brasileiras e norte-americanas, 12 atuantes em cada um dos países. O objetivo é promover debates e reflexões sobre o papel desempenhado pela religião na esfera pública, especialmente no contexto da pandemia de Covid-19, como alguns grupos evangélicos têm se destacado no apoio aos governos dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro.  Inscrições abertas. Saiba mais aqui: https://djanira.com.br/webinario

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

Compartilhar postagem