Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Religião, conflito e política no Brasil

A vitória de Lula representa uma chance de reconstruir o Estado de Direito, mas o extremismo de direita está sedimentado, com forte instrumentalização da religião cristã

Lula e Jair Bolsonaro. Fotos: Ricardo Stuckert e Evaristo Sá/AFP
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Tendo retornado das férias de janeiro, participei, há alguns dias, de um diálogo com pesquisadores das religiões e ativistas religiosos de diversas partes do mundo, promovido pelo Trinity College (Dublin, Irlanda) intitulado “Religião, conflito e paz na Irlanda e para além dela”. Na ocasião, apresentei uma reflexão sobre o Brasil, no contexto das ações de ataque à democracia, de dezembro e janeiro passados, das quais os participantes de todos os continentes haviam tomado conhecimento pelas mídias. Compartilho aqui o conteúdo da minha apresentação.

O Brasil experimenta, desde 2013, a insurgência de movimentos de extrema-direita que culminaram na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Não é um caso exclusivamente brasileiro, mas se coloca em um contexto amplo de intensificação de extremismos políticos, em todos os continentes.

Bolsonaro não inaugurou o processo de extremismo e radicalização no País. O militar consolidou e aprofundou elementos que têm raízes na colonização portuguesa do século 16 e, mais recentemente, na ditadura militar, que durou 21 anos e deixou marcas profundas de autoritarismo e de militarismo obscurantista. Passados quatro anos desse governo, o Brasil experimenta alto grau de diferentes formatos de violência (física, verbal, simbólica, patrimonial, ambiental, entre outros), e aprende, a duras penas, a lidar com o terrorismo doméstico que emergiu neste período.

Foram duas as principais bases das frentes de violência e conflito no governo Bolsonaro:

  • Necropolítica, com o estabelecimento de projetos de retirada de direitos das populações historicamente subalternizadas (mulheres, pessoas negras, indígenas, moradores das periferias, pessoas com deficiência, trabalhadores), de sucateamento dos sistemas de educação e de saúde públicas, de exploração desenfreada dos recursos ambientais, de militarização e intensificação da truculência policial, de armamentismo e cultura da autodefesa e da vingança, em detrimento do direito à segurança pública. Entre as consequências mais terríveis desta política estão quase 700 mil mortos por Covid-19 (números oficiais subnotificados), desmatamento e destruição de florestas e rios, crise humanitária e sanitária entre povos indígenas com altos números de mortos, portadores de doenças e subnutridos, entre muitas outras situações dramáticas.
  •  Estratégias discursivas de captura de apoio da população e de seguidores mais radicais. Isto significou o uso das mídias digitais pelo governo e de veículos e profissionais de imprensa da extrema-direita para disseminar desinformação e pânico moral (não apenas as popularmente denominadas fake news, mas todo um ecossistema de desinformação muito articulado para convencer e capturar corações e mentes para apoio, com a criação do que se pode classificar como um tipo de seita, com alto grau de fanatismo).

O Brasil se tornou um laboratório de movimentos da extrema-direita para este propósito. Captura-se apoios, especialmente pelo medo, conectando-o a tudo o que representa defesa de direitos humanos: antigas imagens de uma suposta dominação comunista via China, Venezuela e Cuba, que controlaria especialmente as liberdades de propriedade, de religião e de ir e vir.

Ainda, a construção pelo medo da noção de um “marxismo cultural” que domina a juventude via educação e cultura para transformá-la em gays e em feministas abortistas, com a imposição de uma “ideologia de gênero”, sinônimo de libertinagem sexual. Nesta lógica, todo e qualquer governo ou instituição não alinhado com a direita política, até mesmo os de centro-direita como a social-democracia, representaria esta determinação comunista, marxista, e devem ser rechaçados.

Nestas estratégias discursivas, dois elementos de convencimento são fortes: (1) o populismo, com o uso de uma retórica popular pelos líderes, apresentados como pessoas simples, de fala aberta e pretensamente anticorrupção. Daí o uso da agressividade no discurso, com palavrões e ataques verbais a defensores de direitos humanos e opositores, como forma de expressão deste suposto jeito popular, “comprometido com a população”, que, nesta concepção, assim se comportaria no cotidiano; (2) a religião – o uso de uma retórica e de símbolos religiosos, fundamentalmente cristãos, demonizadores de pautas de direitos opostas a certos costumes e práticas de fé e de outras expressões religiosas.

É neste contexto que se configurou uma direita cristã consolidada em fundamental suporte ao governo Bolsonaro, com bases na: (1) Teologia do Domínio para justificar os sinais de Deus no líder escolhido; (2) inversão dos valores do Evangelho, como igualdade, solidariedade, misericórdia e despojamento, classificando-os como sinônimo de comunismo, para, dessa forma, afinar a religião política à cultura do individualismo e à lógica neoliberal da inovação e do empreendedorismo; (3) ênfase no discurso nós vs. eles, do enfrentamento de inimigos e do senso de pertença a um grupo eleito, povo escolhido que tem autoridade divina para combater e eliminar os inimigos da fé; (4) defesa radical das pautas pró-vida e pró-família, como oposição aos direitos sexuais e reprodutivos conquistados no ambiente do Estado democrático; (5) assimilação do discurso armamentista e da linguagem da autodefesa e da vingança com interpretação ideológica da Bíblia.

Tudo isto fortemente assentado no sionismo cristão e na figura de um Israel mítico, equivocadamente relacionado ao Estado de Israel contemporâneo, como elemento motor das ações radicais e ao mesmo tempo como “um muro de proteção” para as ações violentas.

A vitória de Lula nas eleições de 2022 representa uma oportunidade de reconstrução do Estado Democrático de Direito. No entanto, o extremismo de direita está sedimentado, com forte instrumentalização da religião cristã, o que pode ser comprovado com a insistente incitação promovida pelo ex-presidente e seus aliados contra o resultado das eleições, com falsas alegações de fraude. Os atos violentos de dezembro de 2022 e janeiro de 2023 na capital representam o clímax de tal processo.

Os desafios de reconstrução e pacificação para o novo governo são imensos. Já escrevi neste espaço que, no tocante ao grupo de cristãos que se envergonha e cora diante de tantas ofensas ao Deus que segue e serve, é preciso somar e levar adiante, como tenho ouvido, a tríplice tarefa de “reconstruir o País, unir as famílias e pacificar as igrejas”.

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