Quaresma: ainda há tempo de mudar de lado!

A Quaresma, é, de fato, um tempo de inspiração e oportunidade para cristãos, para pessoas de outras religiões e até para quem não tem uma

O Carnaval acaba, começa a Quaresma

O Carnaval acaba, começa a Quaresma

Diálogos da Fé

Desde a quarta-feira da semana passada, chamada “de Cinzas”, estamos no tempo da Quaresma, segundo o calendário cristão. Os quarenta dias que antecedem a Páscoa procuram recuperar o sentido do número 40 registrado nos textos sagrados. 

Da conhecida história do dilúvio (os 40 dias em que a terra ficou submersa), passando pelo tempo do êxodo do povo hebreu no deserto, do Egito à Terra Prometida (40 anos), ao número de dias que Jesus passou no deserto antes de iniciar sua intensa vida pública (40 dias), são muitas as referências ao número 40 na Bíblia cristã. 

Em todas elas, este número indica não um tempo cronológico exato, mas, de acordo com a cultura e visão do mundo dos povos do Oriente Médio, um momento vivido na sua completude, que, frequentemente, marca a realização de um tempo significativo de decisões e mudanças.

É por isso que, no contexto cristão, um dos textos mais importantes para reflexão durante a Quaresma é a narrativa sobre Jesus de Nazaré no deserto, conhecida como “As três tentações de Cristo”. O texto conta que, antes de começar sua vida pública, tendo se retirado para o deserto, para um momento de preparação, de mudança (40 dias), Jesus foi tentado três vezes pelo Diabo.

 

As três tentações representavam desafios e, se respondidos como sugerido pelo Diabo (do grego diabolos, caluniador, opositor, criador de confusão e divisão), dariam novo rumo às ações do Nazareno. Tornaram-se, então, importante momento de decisão. 

Basta uma simples observação para perceber que, no universo religioso cristão, a “tentação” a ser superada são fundamentalmente relacionados ao controle do corpo e do prazer.

Nesse caso, tentações passariam pelo sexo fora do casamento registrado (antes dele ou em adultério) e da heteronormatividade, pelo consumo de bebida alcoólica e de fumo, pelo lazer fora dos espaços considerados sagrados –  festas populares, principalmente o Carnaval (“da carne”), e em espaços relacionados à música popular e à dança. Isto tem relação estreita com o puritanismo trazido ao Brasil a partir do século 19 por missionários do sul dos EUA.  

Não é preciso muito esforço para se avaliar que há muitas lideranças religiosas de hoje dizendo “sim” às propostas-tentações de religião assistencialista

Dar um passo adiante, ler a Bíblia com os óculos da fé no Deus da Vida e da Paz com Justiça, permite um outro olhar para o episódio das tentações de Jesus. Nessa perspectiva, elas não têm relação com o moralismo puritano e apresentam o que de fato interessa para quem decide seguir o caminho cristão com coerência. A narrativa das tentações chama à atenção mesmo é para as propostas da parte da oposição (Diabo) aos projetos de vida e de ação de Jesus. 

Primeiramente, a proposta de transformar pedras em pães, em um mundo de famintos, a fim de atrair consumidores de religião sem conteúdo, interessados em uma imediata satisfação material, tornando oculta a necessidade de justiça social na busca pelo “pão”. Também, a oferta de autoridade e poder sobre os reinos do mundo [naquele momento o Império Romano], mantendo-se na lógica da dominação, da violência e da exploração, própria dos Impérios. 

E por fim, se jogar do ponto mais alto do templo para ser aparado por anjos, oferecendo um grande show da fé, e atrair e distrair multidões, mais uma vez, com uma religião sem conteúdo e vínculo com a vida plena para todas as pessoas.  

Segundo os Evangelhos, Jesus disse “não” a tudo isto, em nome de seu compromisso radical com a paz e a justiça, com a simplicidade, o despojamento e a solidariedade. 

Não é preciso muito esforço para se avaliar que há muitas lideranças religiosas de hoje dizendo “sim” às propostas-tentações de religião assistencialista que enfatiza apenas o material como elemento atraente de público, de busca de sucesso, espetáculo e sede de poder eclesiástico e político no espaço público.

Vemos neste exato momento do Brasil, estes religiosos dizerem “sim” à tentação de poder na forma de apoio a um mandatário que nunca escondeu ser violento, virulento, enganador, iníquo, néscio, entre outras características.

Um homem que se revela atuante pela morte, promovendo a destruição da vida de pessoas, animais, matas e águas, a aniquilação de direitos duramente alcançados, o desbaratamento dos instrumentos democráticos e de ação da sociedade civil constituídos a duras penas.

Este apoio é cegamente estendido a pessoas e grupos que o seguem, tudo em nome do poder político e econômico-financeiro resultante desta aliança espúria. 

Como explicar, a não ser pela tentação de poder e de serviço ao mal, que líderes religiosos cobrem de deputados da Câmara Federal a absolvição de um político alinhado ao mandatário, que vinha pregando a destruição de opostos e pedindo intervenção militar e AI-5, ou seja, estado de exceção, descarte da Constituição, censura, repressão e cerceamento de liberdade?

Os que caem na tentação sabendo o que estão fazendo, e prosseguem na cumplicidade com o monstro e seus tentáculos que dominam, terão sua paga correspondente.

Aos que caíram por engano (pois o Diabo é o pai da mentira, já ensinava Jesus), a Quaresma, torna-se um chamado para uma decisão: rever atitudes e mudar de lado (conversão), enxergando a vida não só individualmente mas de forma coletiva, desejando um mundo com vida plena de paz com justiça para todas as pessoas.

A Quaresma, é, de fato, um tempo de inspiração e oportunidade para cristãos, para pessoas de outras religiões e até para quem não tem uma. Um momento para decisões e para mudanças. Tempo de reafirmar projetos de vida e de revê-los, mas com um sentido profundo: se opor às tentações de quem promove o mal, pagando o preço que for preciso para que vida plena, com paz e justiça para todas as pessoas seja defendida.

 

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

Compartilhar postagem