Diálogos da Fé

Quantos Cristos terão que nascer e morrer para que as crianças cheguem ao mundo com dignidade?

Como ouvi esses dias, em um encontro de juventude evangélica progressista: boas novas para quem tem fome é comida!

Dezembro é tempo de Natal. Diversas igrejas cristãs celebram nesse período o Advento, o tempo de espera para o nascimento de Jesus. É o início do calendário de celebrações cristãs, um período de preparação, marcado pelos quatro domingos anteriores ao Natal. Momento de meditar, pensar, refletir nas quatro chamas que se acendem nesses domingos: a esperança, a fé, o amor e a paz. Os evangélicos, com suas inúmeras denominações e igrejas, nem sempre seguem o mesmo calendário litúrgico, mas o Natal é uma época em que todos e todas estão com seus olhos e corações para a vinda daquele que chamam de Salvador. 

Ao mesmo tempo, para a religião do mercado, a liturgia do capital não cessa. Em um ritual ininterrupto, sacrifícios são feitos para gerar cada vez mais lucros nas mãos dos poderosos. Tudo o que não gera lucro é matável: a natureza (com seus rios, florestas, montanhas) e alguns seres humanos (os quilombolas, os negros, os indígenas, as mulheres, assentados e acampados, moradores das ocupações urbanas, os dissidentes de gênero e sexualidade…)

Fico pensando com meus botões: se Jesus estivesse prestes a nascer no Brasil em 2021, ele não estaria nascendo em um contexto tão diferente que os Evangelhos nos relatam: a perseguição, a fuga, a fome, os despejos, a violência, as mortes das minorias… Quantos Cristos haverão de nascer e morrer para que as crianças possam se achegar ao mundo com dignidade?

Em 2019, a pesquisa “Evangélicos, Política e Trabalho de Base”, do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, esteve junto ao acampamento Marielle Vive, localizado em Valinhos (SP), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Lá é possível encontrar uma linda horta agroecológica, uma escola popular e muitos outros projetos importantes. Debaixo de uma tenda de bambu construída a céu aberto, a pesquisadora Delana Corazza conversou com diversos militantes evangélicos. Entre eles, Luzia, baiana e evangélica da Assembleia de Deus Ministério Belém. Perguntada do porquê se juntou ao movimento, ela responde: “Um missionário disse que ia para um lugar que ia ter muita luta.”

Entre trocas e diálogos, é sabido que os evangélicos e evangélicas do MST seguem com a esperança alimentada nas igrejas para a luta do campo, (não sem contradições). Como conta Luzia: “Aprendi na igreja a ajudar, dar esperança. No MST, aprendi o papel do coletivo, aprendi a me relacionar, é um desafio, uma realização, uma conquista.”

Pensar nas quatro chamas das velas do Advento para esses tempos não é nada fácil.  E nessa difícil esperança, as 450 famílias, que há três anos cultivam e cuidam do assentamento Marielle Vive, uma terra que outrora foi improdutiva, tiveram que lidar com o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que decidiu pela reintegração de posse do assentamento.

A medida que impedia despejos na pandemia valeu até o dia 03 de dezembro, data marcada para o assentamento Marielle Vive, mas foi prorrogada pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF, até o dia 31 de março de 2022. 

Ouvi esses dias, em um encontro de juventude evangélica progressista, que boas novas para quem tem fome é comida! Mesmo em luta contra um despejo, os companheiros e companheiras do acampamento Marielle Vive seguem cultivando alimentos saudáveis, orgânicos e matando a fome da população. Então, podemos dizer que a campanha do MST, “Natal sem Fome”, é o evangelho, palavra que significa boas novas, sendo anunciada para esse final de ano. Serão realizadas doações de cestas de alimentos, produzidas em assentamentos da reforma agrária popular, para famílias em situação de extrema pobreza.

O nascimento de Jesus marca essa fé evangélica, partilhada pela Luzia, que inspira a ajudar ao próximo, a tecer esperanças. O caminho e a ética de Cristo é a da solidariedade popular, que prefere a partilha ao acúmulo de bens e riquezas, que enfrenta e denuncia os poderes políticos e religiosos que oprimem o povo, e que dá acolhida e acalanto para os que estão abatidos. ?feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen> style="font-weight: 400;">Seguimos em luta, oração e denúncia! Contribua!

Assine nossa newsletter

Receba conteúdos exclusivos direto na sua caixa de entrada.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fonte confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!