Diálogos da Fé

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Diálogos da Fé

Quando a verdade se torna missão das comunidades de fé

Campanha contra a desinformação vem para combater o que, desde as eleições de 2018, tornou-se uma estratégia de campanha política, sendo os grupos religiosos um dos alvos prioritários

Quando a verdade se torna missão das comunidades de fé
Quando a verdade se torna missão das comunidades de fé
"Boto Fé no Voto" (Foto: Divulgação)
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Eleições 2026

Boto Fé no Voto: Eu escolho a verdade é o tema da campanha promovida para o período eleitoral do Brasil neste 2026 por organizações ecumênicas e da sociedade civil. O tema está articulado em torno de um desafio que acompanho há anos por meio do projeto Bereia – Informação e Checagem de Notícias, no qual atuo como editora-geral: a desinformação circulante em ambientes digitais religiosos. A desinformação, desde as eleições de 2018, tornou-se uma estratégia de campanha política no Brasil, e os grupos religiosos são um dos seus alvos privilegiados. Não é exagero dizer isso. É o que as evidências mostram.

Venho escrevendo há algum tempo neste espaço de CartaCapital sobre o problema das mentiras que circulam nos espaços digitais de igrejas, nos cultos e nas missas. Tendo atuado em três períodos eleitorais brasileiros (2020, 2022 e 2024) o Bereia identificou um núcleo temático que reiteradamente é acionado nas campanhas por votos de cristãos, tendo por base sempre o medo como um ativo de convencimento e mobilização.

Ameaças da chamada “ideologia de gênero”, que seria foco de destruição das famílias, e da “cristofobia”, falsa ideia de perseguição e silenciamento sistemáticos de cristãos no Brasil; pânico de que a economia do Brasil vai quebrar e de que as escolas se tornaram espaços inseguros para crianças e adolescentes em risco de serem doutrinados comunistas; as suspeitas de que as urnas eletrônicas nas eleições são inseguras e sujeitas a fraudes, são conteúdos falsos e enganosos desmentidos dezenas de vezes, mas que seguem ressurgindo em cada eleição com nova roupagem.

Para as eleições de 2026, novos temas desinformativos embalados pelo medo têm sido acionados. Um deles é a invenção de que a insegurança pública do Brasil se deve à existência de “narcoterroristas” e que a solução para a superação da criminalidade é mais intervenção armada em territórios ocupados por “bandidos”. O outro se refere à ideia de poderio dos Estados Unidos em retaliações sobre o Brasil, caso um governo de esquerda seja reconduzido à Presidência com altas taxações de produtos nas relações comerciais e até com intervenção militar.

Neste processo todo, fica nítido que não se trata de algo inocente ou espontâneo. A desinformação nos espaços religiosos tem endereço e estratégia. Quem produz conteúdo falso e enganoso dirigido ao eleitorado cristão explora a confiança que os fiéis depositam em líderes e irmãos da família da fé. É o que pesquisas como a do Instituto Nutes/UFRJ, que gerou o projeto Bereia, em 2019, identificaram como o principal vetor de circulação de mentiras entre evangélicos: não é ingenuidade, é um sistema de confiança religiosa que foi capturado e instrumentalizado.

O mecanismo é simples e devastador. Quando um pastor, uma liderança de célula ou uma pessoa da confiança da comunidade de fé compartilha uma informação, ela chega revestida de autoridade moral. Questionar essa informação pode ser interpretado como questionar a própria comunidade. E a velocidade das redes digitais faz com que a mentira já tenha percorrido mil grupos antes que qualquer desmentido chegue ao primeiro.

Religião e pânico passam a ser administrados em campanhas para captação de votos e, posteriormente, em caso de vitória eleitoral, para manutenção de apoio a governos que lançam mão das mentiras como sustentação política. Neste 2026, tudo isto tem sido intensificado com o avanço do uso de inteligência artificial generativa que reforça a compreensão de que na internet evidências e fatos contam muito pouco. O que conta é o que emociona, o que aciona crenças e valores e administra o medo. Os usuários decidem com base em posições preexistentes e não em fatos, informações.

É diante desse cenário que a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a verdade faz sentido e ganha urgência.

A iniciativa, articulada por um conjunto expressivo de organizações – a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), o Bereia – Informação e Checagem de Notícias, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) o Coletivo Novas Narrativas Evangélicas, a Cáritas Brasileira, Fé no Clima/Instituto de Estudos da Religião, a Diaconia, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito – parte de uma premissa que é essencial: as comunidades de fé não são apenas vítimas da desinformação. São também agentes com capacidade de enfrentá-la.

O lançamento em formato de roda de diálogo, com transmissão ao vivo pelas redes, é em si uma escolha metodológica: não se trata de falar para as comunidades, mas com elas. O lema “Eu escolho a verdade” é ao mesmo tempo uma declaração de princípio e um convite à ação. Para quem pesquisa a intersecção entre comunicação, religião e política há décadas, esse lema tem peso teológico. A verdade não é apenas um valor democrático, é um valor de fé. E quando mentiras são usadas para manipular o voto de fiéis, estamos diante de uma dupla violação: da democracia e da própria fé.

Antes de compartilhar uma mensagem, pergunte. Verifique. Confirme. Isso não é desconfiança, é discernimento. E discernimento, nas tradições cristãs e em outras tradições de fé, é um dom a ser exercitado, não abandonado na porta do templo.

O lançamento da campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a verdade desta quinta, 30 de julho, ocorre presencialmente, às 19h, na Catedral Anglicana de Brasília. Ele pode ser acompanhado ao vivo pelas redes digitais das organizações parceiras. Que esta campanha ganhe fôlego porque, nos últimos pleitos, as mentiras já elegeram muita gente cujos mandatos não apresentam um feito sequer, pois são baseados nelas.

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