Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Quando a fé encontra a luta dentro nos movimentos sociais

Não se pode esquecer do projeto colonial do cristianismo na América Latina. A luta e a fé populares, entretanto, também caminharam juntas na fundação de diversos movimentos 

Foto: Janine Moraes/The Tricontinental
Foto: Janine Moraes/The Tricontinental
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Ao falar de religião e fé, é importante ter em mente como ambas impactam os modos de vida dos fiéis. A religião é sempre muito mais do que os ritos e místicas: influencia todos os aspectos e dimensões da existência humana e suas ações perante o mundo. Teóricas feministas, como Agnes Heller e Ivone Gebara, apontam o cotidiano como uma dimensão histórica, uma substância social que não está fora dos acontecimentos históricos.

A fé evangélica atua nos cotidianos simples da vida, nas quais a leitura da Bíblia, a oração, as idas ao culto alimentam o povo – simultaneamente às opressão neoliberal sobre os trabalhadores, à manipulação entre religião e política e os inúmeros fundamentalismos religiosos que encontramos em aqui e acolá.

Quando tratamos do cristianismo nos territórios latino-americanos é preciso mencionar o projeto colonial da sua vinda e seus desdobramentos na atualidade. A luta e a fé popular, entretanto, caminharam juntas na fundação de diversos movimentos e no desenvolvimento da Teologia da Libertação, que surge na América Latina como resposta das diversas organizações populares formadas no período de avanço da industrialização, em que a massa camponesa se proletariza, aprofundando as desigualdades sociais estruturantes de nosso continente. A década de 1970 consolida essa nova teologia – que será suporte para que as organizações populares a partir da leitura de um Jesus histórico.

Como aponta Lucinéia, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no Rio de Janeiro, a religião está presente nos movimentos sociais e populares, mesmo que muitos militantes sejam ateus ou agnósticos. O nosso povo é religioso, né. O brasileiro é e o campesinato muito intensamente. A religião tem um potencial libertador como ela tem um potencial repressor, né.”  E continua: “Por mais que o Cristianismo tenha sido um instrumento utilizado nesse processo de dominação dos povos, o Cristianismo também serviu como um elemento da resistência dos povos, né. A própria criação da Teologia da Libertação se deu na América Latina, muito vinculada ao coletivo da igreja (…), mas as Comunidades Eclesiais de Base foram muito fundamentais na articulação dos povos, inclusive de grandes movimentos como o MST, a Comissão Pastoral da Terra, o próprio PT.”

A Comissão Pastoral da Terra surgiu em 1975,  na cidade de Goiânia (GO), a partir do avanço dos trabalhos pastorais. Sua tarefa era organizar as lutas do campo, optando radicalmente pelos pobres e por uma leitura política da Bíblia. O corte teológico de construção da justiça social na terra foi determinante para a luta camponesa. Pelas articulações da CPT e graças às suas lutas no Sul do Brasil, nasceu o MST. A organização do campo na conquista da terra – e não mais a espera pela justiça divina – engrossou o caldo para uma nova leitura sobre a realidade, apoiada também em leituras marxistas. 

Sobre a retomada do debate sobre as religiosidades populares, Atiliana Brunetto, da direção nacional do MST, lembra os trabalhadores e trabalhadoras que constroem a luta e a fé no cotidiano da vida. Uma fé, aponta ela, que encoraja a capacidade de organização e ação: “Essa fé vai me fazer acreditar nas potencialidades da minha capacidade e que não estou sozinha. Faz acreditar mais nas pessoas – eu, acreditar em mim mesma e é muito além de um modelo único de ser, mas respeitando todos os processos das pessoas. Ela não me torna individual, me torna um ser coletivo que necessita dos outros para sobreviver.”

A experiência partilhada por Eliane, dirigente do MST na Bahia e evangélica, corrobora essa percepção: “Tanto o Movimento quanto a Igreja nos ensinam a lutar – lutar por igualdade, embora com diferenças –  no movimento, no âmbito da radicalidade, na Igreja dentro das caixas, ainda muito superficial. Cabe à gente enquanto liderança, enquanto evangélica, extrapolar esse paradigma. A Igreja me ensinou a ser companheira, a ir em busca daqueles que estão precisando de apoio, há também busca pela igualdade “

Esse breve resgate que pode ser aprofundado na série de estudos publicados pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social nomeados de “Quando a fé encontra a luta: as vozes das mulheres evangélicas do MST

Angelica Tostes

Angelica Tostes
Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

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