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Precisamos falar do sistema patriarcal que predomina nas instituições espíritas

É uma questão urgente que as mulheres tenham mais visibilidade e credibilidade no meio espírita

(Foto: Pixabay)
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*Por Aline Bueno de Godoy, Ana Paula Coelho, Andrea Ronqui e Marcela Lino

A Federação Espírita do Estado de São Paulo anunciou em suas redes sociais uma palestra que será realizada no dia 8 de março, em homenagem ao dia das mulheres, com o título “A participação da mulher no espiritismo”. Um título bastante interessante, não fosse o fato de o palestrante ser um homem.

Ao ser questionado no Instagram, o palestrante respondeu que se a intenção é de homenagem não há necessidade de representatividade.

Pois bem. Nós, mulheres espíritas, progressistas, viemos para dizer que não nos sentimos homenageadas, mas sim, desrespeitadas.

É cansativo o quanto ainda não está evidente para as instituições a questão da representatividade. Nesse caso ainda mais, pois ele é bem óbvio: temos um tema que fala da participação da mulher, mas que não tem a participação de uma mulher. Ver essa ação acontecendo com naturalidade nos faz pensar que a pauta da representatividade talvez não seja tão óbvia assim. Então vamos lá.

Frequentemente, observamos em nosso cotidiano das casas espíritas uma maioria de frequentadoras e trabalhadoras espíritas do sexo feminino. Ainda assim, elas costumam ser minoria nas lideranças/gestão e em meios que representam a doutrina espírita pelo país, como por exemplo quando falamos de médiuns consagrados. Quantas médiuns mulheres você, espírita, consegue mencionar? Médiuns que tenham a mesma visibilidade que o famoso Divaldo Pereira Franco, por exemplo? Difícil, né?

Assim, se nas casas temos um grande número de mulheres, por que quando se fala de levar o espiritismo à luz de todos/as não conseguimos listar mulheres? Será que as mulheres são limitadas? Será que Deus deu a missão mediúnica de levar a palavra apenas a homens? Temos certeza de que se você estuda bem o espiritismo, sabe que isso não condiz com os princípios da doutrina. Portanto, precisamos falar do sistema patriarcal que predomina nas instituições espíritas.

Esse sistema ainda molda as instituições espíritas de forma estruturante. Para ficar com o exemplo da Feesp, além da palestra que citamos, temos também o exemplo do congresso que será realizado este ano: a imensa maioria de palestrantes é homem, isso sem mencionar que também são brancos, héteros, cis, tudo bem de acordo com a sociedade patriarcal.

E, respondendo a pergunta anterior: não, a instituição não carece de palestrantes femininas à altura da função. Podemos citar, por exemplo, Sonia Cabral, Denise e Cintia Catão (que por muitos anos foram responsáveis por cursos da Casa), e também Angela Andrade, que foi orientadora do curso de antropologia por bastante tempo, e para a qual o tema da palestra questionada cairia como uma luva.

Enquanto as pautas identitárias se destacam mais na sociedade, e são cada dia mais necessárias, espaços influenciadores e formadores como a Feesp continuam recusando-se a rever e desconstruir paradigmas institucionais. Não acreditamos que a equipe Feesp tenha feito isso por má intenção ou por recusa, mas sim por desatenção, por estarem alheios às pautas sociais e não terem compreendido a importância dessa nova postura. Mas é essa desatenção que ainda fortalece problemas sérios como as violências contra a mulher, o feminicídio etc. Em 2018, 40,5% das mortes de mulheres foram por questões de gênero. Em 2019, esse percentual subiu para 52% e não houve nenhum mês em que uma mulher não fosse morta por causas relacionadas a gênero (segundo o portal G1). Essas diferenças aparecem também quando o assunto é emprego: em 2019, segundo dados do IBGE, as mulheres eram maioria entre os desempregados. Entre os homens, a taxa de desemprego ficou em 10,9% no 1º trimestre, ao passo que entre as mulheres foi de 14,9%.

Mas o que isso tem a ver com uma simples palestra?

Os homens ainda se sentem autorizados a, por exemplo, falar por ou corrigir mulheres mesmo quando o assunto não lhe cabe, mesmo quando a mulher é a especialista. O termo mansplaining foi criado para explicar essa crença, sutil e estrutural, que a sociedade tem, de não acreditar na potência das mulheres, de diminui-las e, por vezes, homens sentirem-se extremamente ofendidos ao serem vencidos intelectualmente por uma mulher. Ofendidos, muitas vezes, a ponto de matar. O mansplaining nos humilha, diminui e infantiliza, como se não fossemos capazes de falar por nós mesmas ou debater qualquer assunto mais complexo, como se nosso cérebro fosse organicamente limitado pelo gênero. A palestra da Feesp representa um caso típico de mansplaining.

Se o Espiritismo se pretende como um dos impulsionadores do progresso do mundo, faz-se urgente que as federações se atentem para a representatividade nas casas espíritas.

As mulheres contribuem nas casas espíritas de forma total, desde o cafezinho até a tesouraria, e muitas vezes são elas que fazem a instituição funcionar, provando todos os dias sua capacidade. Não é raro encontrar uma casa em que toda a assistência, administração e gestão sejam feitas por mulheres, mas o presidente e sua chapa sejam maioria masculina. Este dado seria um ótimo início para uma palestra que fala da participação das mulheres no Espiritismo: dizendo que, sem elas, o espiritismo não existiria. Kardec precisou de médiuns mulheres para conseguir decodificar o Espiritismo e sua esposa, Amélie, foi essencial no processo. Podemos mencionar, ainda, as irmãs Fox, a quem coube a missão de trazer as manifestações mediúnicas à tona para que pudessem ser estudadas. Vale lembrar da emblemática e importante figura de Maria de Magdala, a quem Jesus se apresentou quando ressuscitou e qual foi a reação dos apóstolos senão de duvidar de seu testemunho? E a igreja apagar por completo sua visão amorosa e caridosa de apostolado e entregar a história fantasiosa de uma prostituta quando na verdade Maria de Magdala foi uma mulher dona de si e subversiva aos moldes da época?

Em tempos de regeneração planetária, é importante que possamos ouvir e dar voz aos oprimidos para promover a transformação verdadeira. É uma questão urgente que as mulheres tenham mais visibilidade e credibilidade no meio espírita. Em tempos de transformação, é necessário reavaliar conceitos, hábitos e pensamentos e admitir erros, se quisermos fazer valer a lei do progresso.

Querem nos homenagear? Unam-se, então, em vossos centros, casas, na mesa de bar, onde puderem e discutam o patriarcado, o machismo, a masculinidade tóxica que também oprimem vocês. Desconstruam e desçam do patamar de detentores da voz e da verdade, escutem, ouçam de verdade as mulheres à sua volta. Se temos um dia no calendário específico é para que todos nos lembremos do quanto ainda é preciso dizer o óbvio.

Se você não encarnou como mulher, por favor, deixe que falemos por nós mesmas, não precisamos de porta-vozes.

*Membras do coletivo Espíritas pela Transformação Social

Diálogos da Fé

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