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Por que continuo evangélica apesar do que estamos assistindo

É penoso pertencer ao mesmo grupo religioso de um procurador que manipula acusações para atender seus projetos de poder e de lucro

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Devo muito à formação cristã evangélica que recebi desde a adolescência na Igreja Metodista. Muito do que sou e da visão de mundo que construí se devem ao estudo da Bíblia à luz da vida, como aprendi. Também à compreensão de que amar a Deus é amar o mundo e tudo o que nele existe. Que ser cristã significa ser seguidora dos passos de Jesus, de seu compromisso radical com o amor incondicional, resultante na misericórdia, no despojamento e na busca de justiça a quem é colocado na condição de minoria, em especial, as pessoas pobres.

Esta visão se ampliou com o meu engajamento no movimento ecumênico, experiência marcante da juventude até o presente. Nele aprendi que ser cristã é ser promotora da paz com justiça, e que nesta pauta estão o respeito, o diálogo e a cooperação entre os grupos religiosos cristãos e não-cristãos.

Há até, pelo menos, duas décadas, ser evangélica no Brasil era ser minoria, plural, marcada por um isolamento social e pela negação do prazer do corpo. O destaque social eram os exercícios de fisiologismo da Bancada Evangélica no Congresso Nacional, os escândalos de exploração de fiéis no ambiente pentecostal e a programação em rádio e TV com expressões, por vezes, bizarras. Toda uma história do progressismo evangélico no Brasil era (e ainda é!) silenciada, lamentavelmente.

Este quadro mudou radicalmente nos anos 2000. Deu-se o crescimento massivo do pentecostalismo e dos movimentos de avivamento religioso e a emergência da cultura gospel (da música cristã moderna que transformou cultos em espetáculos, do mercado de bens religiosos, do entretenimento sacralizado e das celebridades tornadas autoridades). Toda uma geração de evangélicos foi formada, entre novos convertidos e antigos afinados ao novo modelo. Os valores ressaltados passam a ser o sucesso individual, o acúmulo de bens, a hierarquização, a meritocracia e a guerra contra inimigos. Justiça e paz não fazem parte deste repertório.

Assisti à própria Igreja Metodista, junto com todas as outras, ser transformada por esta atmosfera religiosa que se tornou hegemônica, alinhada à cultura do espetáculo, do mercado, da competição no campo religioso, da eleição de inimigos dentro dos próprios espaços eclesiais (basta que lideranças sejam confrontadas com perspectivas diferentes e discordâncias).

Ainda assim continuei evangélica, animada pelos grupos que se mantêm fiéis aos princípios que listei no início do artigo, tanto dentro das próprias igrejas, como no movimento ecumênico, nos espaços de diálogo e de partilha de ações cristãs em torno da paz com justiça.

E é recuperando aqui esta memória que preciso reconhecer que o quadro atual torna esta jornada ainda mais árdua. Ser chamada de evangélica no Brasil hoje é ser colocada no mesmo grupo de pessoas que não apenas apoiam o presidente da República que usa o nome de Deus para fins políticos e se revela a cada dia um ser cruel, violento, intolerante, desrespeitoso, contrário a um país justo e democrático para todos.

Ser identificada como evangélica hoje, pior, é ser parte de um grupo que defende a agenda destrutiva deste governante, extintora de direitos trabalhistas e de estudo e pesquisa em instituições públicas, aniquiladora do patrimônio ambiental do país, favorecedora de banqueiros e negociantes, agenciadora de censura, promotora de execuções sumárias como solução para o fim da criminalidade, defensora de ditaduras e ditadores, entre outras atrocidades.

Sim, é triste: evangélicos brasileiros defendem a política da violência, da tortura, da pena de morte. Não são a totalidade do segmento – muitos se opõem a estas iniquidades – mas a maioria tem se declarado alinhada com elas e é isto que se torna público.

E não se trata de um mero apoio com voto: boa parte destes crentes usa o nome de Deus para propagar esta política, esbanja grosserias nas mídias sociais contra quem é oposição e dissemina muitas mentiras, desinformação e material falso tanto para sustentar o governo bestial quanto para atacar discordantes.

Tem sido árduo ainda continuar evangélica na companhia de pastores midiáticos que destilam ódio e não conseguem transmitir nem mesmo um gesto de ternura ou simpatia diante das mazelas alheias. E é penoso pertencer ao mesmo grupo religioso de um procurador que manipula acusações para atender seus projetos de poder e de lucro financeiro.

Ainda assim, não há como descartar a formação que relatei no início deste artigo e a comunidade que ainda se mantem fiel ao Evangelho de amor, justiça e paz. Aprendi com o estudo da Bíblia que Jesus já advertia seus seguidores contra os falsos crentes: “Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos é que vocês os reconhecerão…” (Mateus 7. 15-16). E como o fruto de quem está com Deus é um conjunto “amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade” (Gálatas 5.22), acaba sendo fácil reconhecer quem está e quem não está com Deus, não é?

Se esta coisa é antiga e se Jesus mesmo sofreu com as artimanhas dos falsos crentes da época, não haveria de ser diferente entre nós, em 2019, no Brasil. Se uma minoria foi fiel ao Evangelho no passado e pagou alto preço por isto, ela me inspira e me instiga a perseverar e resistir e a dizer aos falsos crentes que ainda é tempo de conversão!

Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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