Diálogos da Fé

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Para relembrar a Revolta dos Malês

A sedição organizada por negros muçulmanos agitou a Bahia na primeira metade do século XIX

Parte dos escravos era muçulmana
Parte dos escravos era muçulmana
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Esta é uma parte da história do Brasil, pouco conhecida e divulgada.

No século XIX, havia muçulmanos o Brasil. Vieram nos navios negreiros ou tumbeiros, como também eram chamados. Escravos do oeste africano que professavam a fé islâmica.

Em 1835, Salvador tinha 65 mil habitantes, dos quais 22 mil eram africanos oriundos de Cabinda, Benguela, Luanda. Malê em iorubá significa muçulmano.

Após a morte do profeta Mohammad, muçulmanos imigraram ou saíram da península arábica em missões para divulgar o islã. Estabeleceram escolas ou madrassas no Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito.

Em duas gerações, o islamismo tornou-se a religião predominante do Norte da África. Os líderes muçulmanos não impuseram sua língua nem sua cultura aos africanos. O islã tinha então uma natureza sincrética com características regionais mescladas.

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Na Bahia, a pobreza era efervescente: 90% da população vivia em condições degradantes. Ideias  libertadoras emergiam do caos social a cada minuto.

Os escravos muçulmanos eram vistos como uma elite entre os outros, por serem alfabetizados em língua árabe e saber ler e escrever. Segundo os registros de um chefe de polícia, os negros que sabiam ler e escrever carregavam um Alcorão e anel de prata. Mesmo integrantes da elite branca eram analfabetos.

Os escravos muçulmanos não trabalhavam na sexta-feira, dia sagrado para a religião, e recolhiam dinheiro entre a comunidade dos libertos para dar aos seus senhores em troca do dia de folga. Também levantavam recursos para alforriar outros escravos. Muitos negros muçulmanos livres exerciam atividades comerciais (alfaites, artesãos e carpinteiros).

Houve muitas revoltas escravas no período, mas a do Malês se destacou. Os líderes foram Pacifico Licutã, Ahuna, Manoel Calafante, Elesbão Dandará e Luis Sanim. Entre eles uma mulher, a heroína Luiza Mahin, que participou de quase todas as revoltas e levantes de escravos, mãe de Luís Gama, advogado e escritor abolicionista. Contavam com um fundo de 80 mil réis, recolhidos entre simpatizantes da causa.

Como em toda jihad, era nescessária a atuação religiosa de um maulana, líder religioso. Quem cumpriu a missão foi Ahuna, de origem nagô, com cerca de 40 anos e quatro marcas étnicas no rosto. Tinha o respeito de todos e era reconhecido como o general da batalha.

O dia chegou: os revoltosos mobilizados para agir no fim do mês sagrado do ramadã, que em 1835 aconteceu em 21 de janeiro, coincidindo com a festa católica de Nossa Senhora da Guia.  

No dia 24, um grupo reunido no porão de uma casa e recebido por Manoel Calafante com saudações em árabe – “salamum aleikom ,aleikom salam” – foi cercado pelas forças oficiais.

Segundo os registros históricos, Guilhermina, negra liberta, traiu a revolta e denunciou seus líderes. A repressão foi terrível. Pegos de surpresa, os rebeldes se dividiram e se espalharam pela cidade. Boa parte se dirigiu a Vitória, bairro de maioria malê, e ao convento das Mercês.

 Alguns tentaram escapar pelo mar, mas se afogaram ou foram atacados por uma fragata à espera. Por muitos dias, as ondas de Salvador despejaram corpos na praia. A revolta envolveu cerca de 1,5 mil participantes. Houve 70 mortes durante os combates nas ruas da cidade.

Os corpos foram enterrados sem nenhum rito religioso, em vala comum no campo de pólvora. Quem foi a julgamento acabou condenado ao açoitamento ou morte, a maioria por enforcamento.

O objetivo da revolta era lutar contra a escravidão e a intolerância religiosa. Os planos estavam escritos em árabe. Por medo de novas revoltas, muitos negros seriam enviados ao degredo nos meses seguintes. Quem sobreviveu e ficou na Bahia viu-se obrigado a professar a fé na clandestinidade.

Pai Rodney

Pai Rodney
Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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