Os cristãos e o 7 de setembro para além das críticas mais comuns

O discurso misógino, homofóbico e racista do bolsonarismo estimula o apoio desses indivíduos e grupos ressentidos

Foto: PAULO LOPES / AFP

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Diálogos da Fé

O que ouvimos e assistimos neste 7 de Setembro verde-amarelo em espaços públicos do Brasil não apresentou novidades. São os mesmos cenários e as mesmas personagens que, desde 2013, fazem apelos antidemocráticos, atualizados com a declaração de apoio ao líder que gestaram desde então. Em termos de perfil, são os mesmos 12% de fiéis bolsonaristas apontados nas pesquisas de opinião, acrescidos de outros que formam a faixa de 20 a 30% dos apoiadores, majoritariamente, homens, brancos, mais velhos, de classe média e formação superior. Entre eles se destacam militares, policiais, empresários, ruralistas, caminhoneiros, evangélicos, católicos.

Quando, nesses dias, acompanhamos a exposição deles em mídias sociais, convocando fiéis para encherem ruas em apoio ao presidente Jair Bolsonaro, houve tanto apoio e adesão quanto crítica e oposição. Entre as críticas, muita gente questionou as vantagens que esses líderes estariam recebendo em termos de capital financeiro e político.

No entanto, pelo que acompanhei de pessoas comuns nas mídias sociais, de grupos de igrejas com os quais me relaciono, e do que assisti e ouvi das manifestações de rua, compartilho aqui ideias que, creio, nos chamam para além destas críticas.

Há uma identidade ideológica

Para evangélicos, apoiar Jair Bolsonaro é mais do que dar suporte a uma pessoa, é apoiar a concretização de um ideal alimentado desde a chegada dos missionários dos Estados Unidos, que fundaram a maior parte das igrejas deste segmento. O presidente do Brasil, desde a campanha de 2018, representa a encarnação do que seria “uma nação cujo Deus é Senhor” ou o “Brasil do Senhor Jesus”.

Esse imaginário tem como principais componentes a conversão de todos os brasileiros à prática do culto evangélico, com a extinção das outras religiões e uma reforma do Catolicismo; a aplicação de valores morais às leis do País, especialmente os sexuais, patriarcais e heteronormativos, como virgindade para mulheres até o casamento (preferencialmente, até que a morte separe o casal), negação do direito ao aborto em qualquer situação e cura gay. O discurso populista religioso, construído por Bolsonaro na campanha para a presidência, foi devidamente ancorado nesse imaginário.

O catolicismo ultraconservador, frustrado com a perda de fiéis para os arraiais evangélicos, que atribui à politização da Igreja Católica dos anos 80, com as Comunidades Eclesiais de Base, “padres e bispos vermelhos” da Teologia da Liberação a culpa por tal situação,  vê-se também representado no discurso da moralidade sexual. Por isso, dá-se até mesmo a uma convergência de propósitos com evangélicos no apoio a Bolsonaro, em uma união de esforços.

No caso dos evangélicos, um outro componente imaginário é bem trabalhado no populismo bolsonarista: o combate a inimigos. Evangélicos sempre desenvolveram por aqui a ideia da perseguição como um motor de autoafirmação e autopreservação como minoria religiosa. A proposta de enfrentamento dos inimigos dos valores tradicionais da família, do País, cai como uma luva nesta composição. E mais: ganha novos contornos com o discurso de defesa da “liberdade religiosa”.

Ao se atiçar, evangélicos e católicos, com a noção de que esquerdistas querem impedir cristãos de praticarem sua fé em liberdade, esse imaginário é acionado.

Foi criado o termo “cristofobia” para caracterizar como perseguição toda legislação e/ou decisão judicial que, cumprindo os protocolos do Estado laico, não permite que um único preceito religioso se transforme em determinação sobre a vida da população em geral. Liberdade religiosa, para o discurso bolsonarista, não é a garantia da existência e da prática das diferentes religiões, com seu culto e costumes respeitados, mas quer dizer que cristãos devem ter a liberdade de agir sobre e contra outras religiões e culturas, e sobre e contra, especialmente, a sexualidade alheia.

A isso se soma o estímulo ao sentimento, que a socióloga estadunidense Wendy Brown denomina “moralidade ressentida”. É um ressentimento branco e masculino, de indivíduos e grupos de classes sociais e formação educacional distintas, que se sentem enfraquecidos por elementos produzidos pela democracia, pela ascensão da visibilidade de mulheres e de LGBTI+ dos direitos de gênero, por serem confrontados quando expõem posições machistas, homofóbicas ou racistas. Esse ressentimento se manifesta na rejeição, por vezes como ódio, em relação a associações e organizações sociais (partidos políticos, sindicatos, movimentos, ONGs), que buscam a igualdade, o respeito às diferenças e o direito das minorias sociais, e a lideranças que se destacam em ações desta natureza.

O discurso misógino, homofóbico e racista do bolsonarismo estimula o apoio desses indivíduos e grupos ressentidos, que habitam os espaços religiosos, a uma cultura antidemocrática, contra posturas e espaços de igualdade. Transforma-se na realização do desejo de fazer as mulheres voltarem para a cozinha, indígenas e pessoas negras para a condição de serviçais dependentes e LGBTI+ para “dentro do armário”.

Aproximação do poder inédita ou renovada

Para esses evangélicos, a aliança com Bolsonaro firmada no rito de passagem dele para o Partido Social Cristão (PSC), em 2016, com o batismo no Rio Jordão pelo (hoje preso por corrupção) presidente do partido pastor Everaldo, representou uma aproximação inédita com o poder. É histórico, neste grupo, o desejo de eleger um presidente evangélico.

Da parte dos católicos ultraconservadores, a aliança com o presidente representa uma reaproximação do poder, uma vez que este grupo religioso esteve sempre próximo dele, desde a colonização portuguesa.

Bolsonaro correspondeu a estas expectativas nomeando, ao longo dos seus quase três anos de governo, nove evangélicos e católicos para ministérios significativos, entre eles a chamada ala ideológica de seu gabinete: Casa Civil, Educação, Direitos Humanos, Justiça. O presidente chegou a ressuscitar ministérios que extinguiu para acomodar algumas destas personagens: Comunicações e Trabalho.

Aqui se pode falar de conquista de capital social, simbólico, político e financeiro de lideranças e grupos evangélicos e católicos apoiadores. São muitos os grupos beneficiados – desde empresas de mídia religiosa a projetos de assistência social e missionários tocados por vários grupos cristãos. Pode-se falar também de avivamento da autoestima evangélica, em especial, com a divulgação de eventos públicos de caráter religioso promovidos por ministros e pela “primeira-dama” que é evangélica, motivo de orgulho, algo com proporções nunca praticadas com promoção do Estado.

Além disso, em aliança com o bolsonarismo, evangélicos conseguem um feito inédito para o grupo, o que católicos sempre tiveram no país: falam para além do seu círculo religioso. Como expressou Ana Carolina Evangelista: “[Lideranças evangélicas] hoje entendem que têm o potencial de falar com uma base bolsonarista que extrapola seus nichos religiosos. São valores comuns, mensagens comuns. A defesa de bases do neoconservadorismo uniu partes dos mundos religioso e não religioso”. Por isso, segundo a cientista política, estes grupos evangélicos veem-se como detentores de um mandato cultural para salvar a nação. Elemento que é muito próprio do fundamentalismo reformista, nascido nos anos 1950 nos Estados Unidos, com Francis Schaeffer, fartamente propagado hoje no Brasil, até mesmo com projetos governamentais. Bolsonaro, em seu projeto de poder, por seu lado, se beneficia disto pois, esta estratégia de lideranças religiosas mantém a base bolsonarista insuflada.

Por fim

O populismo ultraconservador bolsonarista e o cristianismo católico e evangélico ultraconservador no Brasil se atraem e influenciam-se numa convergência ativa (o que o estudioso das religiões Max Weber chama de “afinidade eletiva”). Por isso, é possível ler e escutar comentários de pessoas cristãs como: “Bolsonaro pode errar em várias coisas, mas ele salvou nossas famílias, nossos filhos, da ideologia de gênero, deste pecado de homem com homem, mulher com mulher”.

Nesse sentido, o governo pode ter responsabilidade na morte de milhares de pessoas por covid-19, armar a população e estimular o “olho por olho dente por dente”, destruir nossas matas, águas e os seres que nelas vivem, que vai seguir recebendo o apoio desta significativa parcela cristã. Ela precisa do Estado para levar adiante sua ideologia de “Brasil do Senhor Jesus”, uma espécie de talibã cristão, e Bolsonaro precisa dela para manter sua base insuflada. O espetáculo verde-amarelo deste 7 de Setembro foi o retrato desta situação. Quem quer superá-la que se prepare para um trabalho intenso!

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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