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Onde estão os novos profetas da coragem, da fé e da esperança?

Em meio à avalanche de políticas sociais desumanizadoras e ataques aos direitos humanos, Henry Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns fazem falta

O rabino Henry Sobel (Foto: Wilson Dias / Agência Brasil)
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Estava em curso o ano de 2015. Padre Ticão e eu estávamos trabalhando intensamente para concluir o livro “Dom Paulo Evaristo Cardeal Arns: pastor das periferias, dos pobres e da justiça”. Já havíamos reunido artigos da grande maioria dos amigos e amigas que convidamos para darem seu “testemunho-depoimento” sobre Dom Paulo, fruto de convivência direta ou indireta com ele. Dentre eles figuravam bispos, padres, intelectuais, acadêmicos, políticos, religiosos e religiosas de diversas denominações, leigos e leigas de várias idades.

Dentre os nossos convidados, havia um que não poderia faltar: Henry Isaac Sobel, nacional e internacionalmente conhecido como o rabino Henry Sobel, que fez sua Páscoa no dia 22 de novembro pp. Naquela ocasião, o rabino já dividia seu tempo entre Brasil e Estados Unidos, o que dificultava um pouco mais nosso encontro. Contudo, conseguimos falar com ele por telefone. Prontamente aceitou o convite e nos agradeceu profundamente por lhe darmos a oportunidade de registrar sua homenagem ao – em suas palavras -, “grande amigo e irmão Dom Paulo”.

Marcamos um encontro e nos reunimos dias depois em sua residência. Conosco estavam o também rabino Gilberto Ventura e a querida amiga de muitas batalhas Regina Mariano. Foi uma conversa que jamais será esquecida. Tivemos a oportunidade de ouvir seu relato sobre como conheceu e se tornou grande admirador de Dom Paulo: “Dom Paulo pertence àquela estirpe de líderes pastorais que deixaram a comodidade de seus gabinetes, jamais se esconderam atrás do púlpito, mas arregaçaram as mangas e foram a campo em defesa dos direitos humanos e da tolerância”. E continuou: “Foi sua ação firme que incentivou outras grandes lideranças católicas (…) a também se engajarem no combate contra as trevas do regime militar brasileiro. E foi nesse campo que nos encontramos, nos tornamos amigos e, acima de tudo, parceiros e cúmplices em defesa do diálogo inter-religioso e da universalidade dos direitos humanos. Uma cumplicidade que, muitas vezes, foi fundamental para resistirmos, junto às pressões dos poderosos e mesmo à incompreensão de setores dentro de nossas próprias comunidades”. Momentos de rara beleza, sinceridade profunda e emoções à flor da pele que jamais se apagarão.

Como não podia ser diferente, trouxemos à baila o episódio que, em nosso entendimento, tenha sido um dos mais marcantes e inesquecíveis vividos por Henry Sobel e Dom Paulo: o ato religioso realizado em memória do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), morto sob tortura nas dependências do DOI-Codi no dia 25 de outubro de 1975, que teve a causa morte divulgada pelas autoridades militares como “suicídio”.

O jovem rabino Henry Sobel, então com 31 anos, tomou uma atitude que se tornaria a mais significativa e importante de sua atuação enquanto rabino líder da Congregação Israelita Paulista (CIP), negando-se a aceitar a versão da ditadura de que Vladimir Herzog teria cometido suicídio por enforcamento. Sobel afirmou que as marcas de tortura no corpo do jornalista não deixavam a menor dúvida que a causa morte não fora suicídio.

Pela religião judaica, o atentado contra a própria vida é um dos pecados mais graves e aos suicidas só é permitido o sepultamento em covas rasas, sem cerimônia religiosa e ao lado do muro ao fundo do cemitério. Não aceitando a versão oficial do suicídio de Herzog, Sobel celebrou a cerimônia religiosa do enterro no centro do Cemitério Israelita, não cedendo às pressões que sofreu por parte de setores mais reacionários, submissos ou ligados ao regime ditatorial que governava o país. Ao seu lado no Cemitério estava Dom Paulo Evaristo Arns.

Não bastasse sua atitude frente sua própria religião e opiniões contrárias, Sobel participou da organização do ato religioso ecumênico em memória de Vlado realizado no dia 31 de outubro de 1975 na Catedral da Sé. O ato reuniu uma multidão para ouvir as preleções do Cardeal Dom Paulo, do Reverendo Presbiteriano Jaime Wright e do jovem rabino Henry Sobel.

Desafiando as ameaças e as medidas tomadas pelas autoridades na tentativa de impedir a realização do ato, cerca de 8 mil pessoas se reuniram no interior e imediações da Catedral da Sé. O coronel Erasmo Dias (o mesmo que invadiu a PUC em 1977), então secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, bloqueou ruas de acesso e montou um enorme cerco em torno da Praça da Sé com cavalaria e cães policiais, na tentativa de impedir que jornalistas e estudantes saíssem em passeata. O tiro saiu pela culatra. A celebração se transformou na primeira grande manifestação pública contra a ditadura desde 1968.

Num segundo momento, o rabino nos apresentou o artigo que escrevera para o livro em homenagem a Dom Paulo. Momentos antes de nos entregar o escrito, fez questão de ler um pequeno trecho em que dizia: “Nesses tempos de incerteza, de crescimento da intolerância e do fundamentalismo em todas as religiões, eu me lamento pela falta que Dom Paulo faz”. (D. Paulo já havia se aposentado).

Estávamos em 2015 e o rabino, num brado profético, chamava nossa atenção para a intolerância e o fundamentalismo presentes em todas as religiões, o que hoje está mais que evidente, do mesmo modo que chamou a atenção de todo o Brasil ao assumir a responsabilidade pelo ato de sepultar Vlado no Cemitério Israelita com todas as honras devidas a um judeu.

Recebendo como herança os ensinamentos deixados por Henry Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns, tempos depois, representantes das mais diversas religiões, formaram a “Frente Inter-religiosa Dom Paulo Evaristo Arns”. Atuando profeticamente em tempos de intolerância e fundamentalismo religiosos elevados a patamares jamais pensados para o século XXI, a Frente Inter-religiosa tem sido uma luz em meio a obscuridade gerada por ensinamentos equivocados e cheios de ódio e rancor, transmitidos por representantes de inúmeros segmentos da sociedade.

Tendo a não violência, a justiça e a paz como elementos norteadores, seus membros estão organizados de modo a proporcionar diálogos inter-religiosos que possam esclarecer dúvidas, proporcionar união, disseminar o amor ao próximo e o respeito por todas as confissões religiosas.

Mas isso não e tudo. A Frente Inter-religiosa Dom Paulo Evaristo Arns não limita suas ações ao campo religioso. Atenta aos acontecimentos político-sociais dados em esferas nacional e internacional, a Frente se preocupa com o futuro das novas gerações. Questões ambientais, econômicas, sociais, educativas entre outras, também fazem parte de suas atividades.

Trazendo no coração e na razão a certeza de que o mundo não aguenta mais tantas injustiças sociais, geradas por um “Deus-Mercado” que transforma os seres humanos em “potenciais consumidores” de seus produtos, levando-os a se verem não mais como semelhantes, mas como concorrentes a serem vencidos, a Frente Inter-Religiosa Dom Paulo Evaristo Arns se faz profética num mundo onde se busca acabar com toda profecia.

Lamentavelmente, temos assistido o avanço de novas “igrejas” nas quais um falso moralismo é ensinado. “Igrejas” que se tornaram palanques eleitorais voltados exclusivamente aos interesses de grupos corporativos que para alcançarem seus objetivos não medem esforços na disseminação de ensinamentos repletos de erros e equívocos, que “capacitam” seus seguidores a se tornarem juízes sobre todos aqueles que não comungam de seus pensamentos.

Com facilidade, podemos observar o crescimento acentuado nos últimos anos de referências a Deus e a passagens bíblicas presentes em discursos políticos. Haja vista os discursos inflamados de um número considerável de deputados federais proferidos durante a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016. Desde então, temos assistido no Brasil a instrumentalização do apoio evangélico na ascensão de líderes de direita. O mesmo pode ser observado na América Latina, Estados Unidos e países europeus.

Há que se deixar claro que não somos contrários à participação de pessoas ligadas a uma ou outra religião nos meios político-sociais de uma cidade, um estado ou um País. Muito pelo contrário. O que nos preocupa é exatamente a instrumentalização desta participação, como mecanismo para instituir novos “conceitos morais” preconceituosos, racistas, homofóbicos e xenofóbicos, que estão contribuindo para o crescimento do ódio religioso e social entre as pessoas.

 

Mais preocupante ainda é a constatação de que esses pensamentos têm encontrado campo fértil entre muitos jovens de diversas religiões. Temos nos deparados com jovens que manifestam abertamente uma intolerância religiosa absurda e recheada de preconceitos. Estão convencidos de tal forma de que o que pregam e praticam é o mais correto, que princípios religiosos como a caridade, a solidariedade, a misericórdia, o perdão, o amor ao próximo e o respeito ao semelhantes e suas escolhas não figuram – apesar de não aceitarem esta colocação -, em seus preceitos e práticas. Infelizmente, a intolerância religiosa está causando enormes estragos na sociedade como um todo.

Diante destes acontecimentos e de muito outros que permeiam o cotidiano de todos nós, a “Frente Inter-Religiosa dom Paulo Evaristo Arns” se coloca à disposição de todos que, como ela, almejam uma sociedade onde justiça e paz façam parte do dia-a-dia de cada um.

Uma sociedade na qual se preconiza o acúmulo de muito nas mãos de poucos, como instrumento de controle social imposto sobre milhões, religião e religiosos jamais poderão ficar de fora do mundo político-social, sob pena de serem considerados omissos.

No Brasil de agora, estamos assistindo a uma avalanche de políticas-sociais desumanizadoras nas quais os direitos humanos não passam de reles palavras. E aqueles que ousam sair em defesa deles são imediatamente considerados como “inimigos da pátria”, comunistas e outros adjetivos mais. O mais cruel nisso tudo é que tais práticas estão sendo adotadas “em nome de Deus”.

Porém, ousamos perguntar: “em nome de qual Deus?” Do deus mercado? Do deus dinheiro? De que Deus estão falando? Podemos afirmar sem sombra de dúvida que não estão se referindo ao Deus de Henry Sobel, de Paulo Evaristo Arns, de Mahatma Gandhi, de Luther King, de Francisco de Assis e de milhares e milhares de pessoas que ao longo dos séculos seguiram o Deus verdadeiro que é Amor.

Encerramos este artigo dizendo: em dias atuais, devemos pedir ao Criador que suscite em nosso meio “não um, mas dez, cem, mil profetas como Henry Sobel e Paulo Evaristo Arns, homens comprometidos com o destino do seu rebanho e de todos os rebanhos do Deus que é um só”.

Que jamais deixemos cair a profecia!

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