Onde estão os evangélicos progressistas?

Nosso projeto de sociedade, enquanto esquerda e progressistas, não é semelhante ao vigente, que exclui e elimina a diferença

Foto: iStock

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Diálogos da Fé

É inegável o crescimento da visibilidade que os evangélicos têm tido nas diversas mídias nas últimas décadas. Os canais de televisão aberta estão recheados de programações gospel, tantas e tantas rádios que oferecem louvores em meio a pregações e propagandas, editoras de livros e revistas, as redes sociais que têm se tornado cada vez mais um meio de comunicação com a população evangélica através dos influenciadores ou pastores midiáticos com milhares de seguidores. Entretanto, uma observação deve ser feita – e muita gente nem sequer pensa nela quando coloca os evangélicos como um grupo homogêneo – quem são os evangélicos com tal poder financeiro de investimento de mídia e comunicação?

Bem, a resposta pode não ser tão simples, mas em suma, quem tem essas articulações são igrejas e pastores que fazem parte do projeto de poder fundamentalista e imperialista, sendo eles neopentecostais, pentecostais e protestantes históricos, e tem como desdobramentos a ascensão de evangélicos a cargos públicos e políticos, visando defender os direitos, os “valores cristãos”, propagando a falácia da “ideologia de gênero”, com os discursos de que o conceito de família está sendo atacado, bandeiras anti-feministas e LGBTQIA+fóbicas, ditando quem são e quem não são os evangélicos com bases em padrões estabelecidos pelos mesmos.

O teólogo e pedagogo Rubem Alves perguntava quem define o que é e não é uma “doutrina correta”? Pensando mais a fundo, ele elaborou que a resposta dessa questão pouco se trata de filosofia ou teologia, mas antes, esbarra na dimensão das relações de poder – política, econômica, religiosa – e na manutenção dessa hierarquia já estabelecida. E essa imagem estática criada pelo fundamentalismo sobre quem são os evangélicos se prolifera como uma erva daninha, e por inúmeras vezes é comprada por setores progressistas da esquerda não-religiosa.

Este mês a pergunta “onde estão os evangélicos progressistas?” foi feita nas redes sociais de um influenciador LGTBQIA+ não religioso, em um certo tom irônico que questionava nossas ações enquanto ativistas evangélicos. Esta pergunta traz elementos que elucidam a ignorância e falta de interesse de alguns setores que estão nas mesmas trincheiras políticas que nós, mas que ao menos não buscam nos conhecer, conhecer nossos trabalhos, atuações e teologias, uma simples pesquisa na internet já abriria caminhos para nos encontrar. Em resposta, a ativista Camila Mantovani gravou um vídeo que trouxe as reflexões acerca do projeto fundamentalista que “trabalha para eliminar a pluralidade e a diversidade, isso significa que mesmo a igreja sendo muito diversa e plural, ele trabalha para se caracterizar como a única cara possível do cristianismo”.

Camila responde onde estamos: “Estamos onde a gente sempre esteve, na labuta todo o dia…”. Sim, sim, e sim! Estamos na luta, produzindo conteúdos das redes sociais, pensando e escrevendo outras teologias, estando ativos e ativas nas igrejas locais nas periferias dos grandes centros urbanos, nos acolhimentos das mulheres em situação de violência, nas palavras de afirmação com nossos irmãos e irmãs LGBTQIA+. Alguns desses movimentos são: Frente Evangélica Pelo Estado Democrático de Direito, Evangélicas pela Igualdade de Gênero, Feministas Cristãs, Movimento Negro Evangélico, Frente Evangélica Pela Legalização do Aborto, Rede Fale, Evangélicxs, Coalizão de Evangélicos pelo Clima, Rede de Negras Evangélicas, Cristãos Contra o Fascismo, Coletivo Vozes Marias, Movimento Social de Mulheres Evangélicas do Brasil, Coalizção de Evangélicos Contra o Bolsonaro. Além de evangélicos e evangélicas que estão e são lideranças nos movimentos populares, como MST, MTD, Levante Popular da Juventude, movimentos urbanos de moradia, que trazem as vivências e identidades, entre elas evangélica, para o trabalho de base, dialogando e atuando com o povo diariamente, e construindo a luta e o movimento sem que por vezes os companheiros e companheiras saibam sua identidade de fé, por justamente não se sentirem acolhidos em sua fé por grande parte dos militantes não religiosos que reproduzem o senso comum conectando a fé evangélica diretamente às narrativas fundamentalistas.

Em 2018 estive na Universidade de São Paulo em um encontro sobre Religião, Política e Psicanálise: Convivência e Movimentos Sociais, com líderes religiosos do islamismo, judaísmo e o psicanalista Christian Dunker. Nesse evento pude trazer a reflexão a partir de um olhar desse entre-lugar da esquerda e da fé, apontei que os evangélicos progressistas representam as margens das margens, pois são marginais da própria fé. Esta insiste em desqualificar a vivência religiosa e produções teológicas com base na régua do fundamentalismo apontada acima. São marginais dentro da própria esquerda, pois ela ainda tem uma visão que infantiliza os religiosos, quase sempre excluiu o fenômeno das análises de conjuntura e fechou os diálogos com os crentes da base e com os intelectuais religiosos com um ar de superioridade e arrogância acadêmica, epistemológica e classista.

O ativista evangélico Vinícius Lima, um dos fundadores da ONG SP invisível, em um post nas mídias sociais, apontou que desde 2018 a esquerda diz “precisamos falar com os evangélicos”. Ele reconhece que embora hoje esse diálogo aproximou e existam iniciativas e projetos para isso, ainda sim encontramos dificuldades desse relacionamento entre os evangélicos progressistas e a esquerda. Como Vinícius aponta, falar só com os evangélicos progressistas não é falar com os evangélicos.

Ou seja, o caminho é longo! E precisamos, mais do que nunca, nos unirmos nas ações, trocarmos aprendizados, comungarmos naquilo que nos une e celebrarmos naquilo que somos diferentes. Com respeito e escuta atenta! Nosso projeto de sociedade, enquanto esquerda e progressistas, não é semelhante ao vigente, que exclui e elimina a diferença, e precisamos praticar isso entre nós mesmos. E aí sim, conseguiremos um diálogo e uma solidariedade revolucionária de classe, que abrange evangélicos, ateus, candomblecistas, umbandistas, católicos, espíritas, agnósticos, todos, todas e todes! Onde estamos? Estamos aqui, abertos para o diálogo e ações em conjunto, auxiliando o despir-se de preconceitos e mudarmos a sociedade.

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Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

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