Diálogos da Fé
Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões
Diálogos da Fé
O preço de ser um crente fora da lata
E eu convido a você, meu irmão e irmã, a experimentar a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus, e essa não cabe em uma lata de conserva
Há dez anos, decidi que me posicionaria publicamente com meus pensamentos feministas. O ano era 2016, o golpe contra a Presidenta Dilma estava em curso e eu estava grávida da Nina. A urgência de um exercício civil de defesa da democracia tomou milhares de evangélicos que começaram a se pronunciar em favor do Estado Democrático de Direito, por meio de coletivos como a criação da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e outros coletivos como Cristão contra o Fascismo, ou de em seus próprios nomes como Ed René Kivitz, Ricardo Gondim, dentre outros.
Eu, às vésperas de completar 30 anos e grávida de uma menina, estava mexida com os ataques misóginos contra Dilma embasados nas narrativas cristãs de defesa da família. Pensava eu que mãe de uma menina, em um mundo que odeia mulheres; evangélica, em um momento em que evangélicos protagonizavam o pior da misoginia, racismo e sexismo; negra, em um país em que o racismo religioso era considerado liberdade religiosa, precisava me posicionar. E me posicionei.
A partir desta decisão, vi ruir um mundo de afetividades e laços firmados por meio da fé. Pessoas que outrora me chamaram de irmã, me questionavam porque eu continuava na igreja, se não defendia os “princípios morais” da igreja. Vivi um luto profundo e dolorido. Saber que eu não poderia recuar e voltar ao seio de uma comunidade da mesma forma que estive lá. Era momento de criar uma outra possibilidade de fé, em que fosse possível imaginar um mundo em que a fé em Jesus Cristo não fosse a mesma coisa que apoiar discurso de ódio e aniquilação do que é diverso do status quo cristão.
Hoje, às vésperas dos 40 anos, o desfile da escola de samba Acadêmico de Niteroi, me fez reviver essas decisões tomadas há uma década. Não me arrependo nem um pouco. Gosto de viver o que diz Gálatas 5:1: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão”.
Escolhendo, assim, não me conformar com este mundo, mas me transformar pela renovação da minha mente. A ala da escola intitulada “Neoconservadores em conserva”, explicitamente fez menção à falsidade moral que envolve o cidadão, dito, de bem. A família tradicional brasileira veio à loucura, evangélicos de todo o Brasil colocaram suas famílias em latas e bateram no peito: “se ser conservador, é estar em uma lata, minha família é enlatada”.
Imediatamente me lembrei da parábola do Fariseu e do Publicano em que Jesus descreve dois homens orando na sinagoga. Enquanto um batia no peito e dizia “obrigado, Deus, por não ser como esse publicano” o outro dizia, humilhando-se “me perdoa, Deus”. Por fim, Jesus diz que o publicano teria sido acolhido em sua oração, ao contrário do fariseu.
Nesses dez anos, em que me posicionei contra a nociva ideia de família conservadora, vi e vivi muita coisa. Vivi ataques, muitos. Mas foi deste lugar de “publicana” que pude ver crianças abusadas sexualmente por lideranças religiosas; mulheres de pastores que eram agredidas psicológica e fisicamente; famílias expulsarem seus filhos de seus lares por serem LGBTQIA+.
Paguei um preço por estar fora da lata, e não foi baixo. Mas estar fora da lata é o que me faz sentir a real, doce e agradável presença de Jesus. Afinal como pode, em um país em que evangélicos crescem exponencialmente, 68% do abuso sexual contra crianças ser dentro de suas casas e por pessoas da família? Ou 70% das agressões contra as mulheres serem realizadas por maridos, filhos e pais? Ou ainda, a cada dez minutos uma mulher ou menina ser morta por parceiros ou familiares? E por fim, o que explica o fato de que 40% das mulheres que sofrem violência no Brasil serem de lares evangélicos? (fonte Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
Essa lata conserva a família tradicional imersa nas lágrimas de mulheres e crianças abusadas, silenciadas e “enlatadas” sob o arquétipo da família tradicional. Ora, se para que eu combata todo tipo de absurdo que existem em nossas igrejas, eu tenha que pagar um preço, pagarei com a Graça de Deus. Agora, o que eu não entendo é como pessoas que seguem a Jesus, conseguem se conformar com uma lata de conserva.
Eu quero água fresca, que não me deixa passar sede. Quero pastos frescos e verdejantes. Eu quero subir colinas que não me limitem a performar uma família triste, calada e violenta. Quero voar como a água e não me cansar de viver a vida abundante que Cristo tem para dar. O abundante não cabe na lata, o abundante extrapola limites e estereótipos. E eu convido a você, meu irmão e irmã, a experimentar a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus, e essa não cabe em uma lata de conserva.
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