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O olhar afrocentrado de um cipó

Diálogos da Fé

Como advertiu Muniz Sodré, o negro brasileiro dispõe de meios particulares de registro histórico. Portanto, nenhum pesquisador, por mais bem intencionado que seja, dará conta de compreender o ritual, que é a “fonte” teórica produzida num terreiro.

Um iniciado nos segredos do culto tem muito mais chance de se tornar um porta-voz autorizado, oferecendo uma visão de dentro para fora, livre de estigmas e empenhada em demonstrar a realidade.

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“A verdadeira liturgia do terreiro é a veridicção de uma etnia, isto é, o empenho de dizer a verdade da gente negra arrastada à força de um continente para o outro, expropriada de territórios e bens materiais, mas espiritualmente animada pelo vigor de uma cultura em diáspora”, afirma.

Transpor em palavras e imagens toda riqueza cultural de um terreiro de candomblé não é tarefa das mais fáceis, mas o olhar do colonizador muitas vezes serviu para construir e alimentar estereótipos.

O fotógrafo Roger Cipó vem pesquisando há alguns anos a iconografia no candomblé. Para ele, pelas mãos e lentes colonizadas, a fotografia teve um papel crucial na demonização e marginalização da imagem social das religiões de matriz africana. “O olhar branco opressor, fundado no racismo, é responsável por toda violência que acomete tais práticas”, explica.

Como exemplo, Cipó lembra a história do cineasta francês Henri-Georges Clouzot, que acompanhado de sua esposa, a atriz brasileira Vera Amado, veio certa vez à Bahia para rodar um filme. Recebido de braços abertos pela intelectualidade da época, Clouzot acabou não fazendo o filme, mas foi levado a um terreiro de candomblé no qual conseguiu acompanhar e fotografar todo um ritual de iniciação.

De volta à França, Clouzot publicou seu ensaio numa matéria na Paris Match, intitulada “As Possuídas da Bahia”. Quando a notícia chegou ao Brasil, a imprensa mostrou-se chocada com tamanho desrespeito e a revista “O Cruzeiro”, a mais importante da época, procurou o fotógrafo José Medeiros para mostrar o “verdadeiro candomblé” e dar uma resposta aos franceses.

“José Medeiros acompanha um ritual similar, fotografa tudo e publica. A publicação de Medeiros, que seria a resposta brasileira aos gringos desrespeitosos com a nossa cultura religiosa, sai sob o título “As noivas dos deuses sanguinários” (título muito mais respeitoso, não?)”, ironiza Cipó.

Antes mesmo que a revista “O Cruzeiro” chegasse à Bahia, um jornal publicou uma imagem da série na matéria “O Deus tem sede de sangue”, incendiando a violência e negação contra as religiões negras e transmitindo uma imagem sombria que chocou a sociedade baiana e criou ainda mais aversão.

Cipó também ressalta que na ocasião a sociedade afro-religiosa da Bahia se revoltou com a publicação e com o terreiro em questão. Alguns anos mais tarde, Medeiros lança o livro Candomblé, como um “pedido de desculpas”.

De lá pra cá, os registros etnográficos e fotográficos dos rituais do candomblé acompanharam as mudanças impostas por pesquisadores negros, cujo olhar afrocentrado lançou novas luzes às práticas, aos modos de vida e à visão de mundo preservados nos terreiros.

Os registros de Roger Cipó, por exemplo, são uma prova de que o olhar de um iniciado consegue captar e interpretar nuances e movimentos que passariam despercebidos a um fotógrafo leigo, por mais que dominasse a técnica. Nas suas próprias palavras:

“Em um país que trabalha incansavelmente para invisibilizar a presença africana em seu povo, cultura e arte, a fotografia se faz uma das ferramentas de diálogo mais importantes. Em um país que violenta a imagem africana de inúmeras formas, a fotografia produzida por pessoas negras que compreende a importância de retratar, registrar e valorizar as memórias a partir de quem as vive é uma contranarrativa poderosa, por trazer em suas imagens toda uma trajetória pensada e repensada para um diálogo imagético honesto, que represente o que de fato são os povos da diáspora no Brasil e no mundo. É desse lugar que gosto de pensar e olhar para a forma que a fotografia nos permite apresentar o que somos, queremos e significamos.”

Roger Cipó

Foto: Roger Cipó

Ao criar a plataforma “Olhar de um Cipó”, que visa reescrever em imagens a história e cotidiano sagrado/social dos territórios religiosos e tradicionais africanos, o fotógrafo inaugura um dos canais de registros sobre candomblé mais visitados da internet. Para se ter uma ideia, o blog já ultrapassou um milhão de acessos e possui milhares de seguidores em outras redes sociais.

Ao documentar terreiros de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, Cipó entendeu sua imagem como uma ferramenta de combate à violência contra as comunidades de matriz africana. Em 2016, participou da organização da marcha do Dia Nacional contra Intolerância Religiosa, na Av. Paulista. Também colabora ativamente em diversas ações de enfrentamento ao racismo, entre elas o coletivo Okan Dimó.

Os tons desse trabalho foram conferidos em diversas exposições e intervenções visuais, em espaços como o Museu da Imagem e do Som de Campinas, Palácio da Secretária da Justiça de São Paulo, Universidade Federal de Ouro Preto, Universidade Tecnológica do Paraná, Centro Cultural Rio Verde, CEU Caminho do Mar e SESC Campo Limpo.

“Ojú: Quando Olhares Contam Histórias”, de 2011, é uma série sobre as impressões de um jovem negro de periferia para sua comunidade. “Ancestralidade e Movimento” registra as diferentes expressões das danças rituais. “Omode: Crianças de Axé” traz imagens e textos de depoimentos infantis sobre as forças sagradas do candomblé.

Em 2017, lançou a mostra itinerante AFÉTO, na importante Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro, como destaque da programação do Festival Internacional de Fotografia do Rio. Em seguida, o trabalho esteve em temporada no Aparelha Luzia, espaço de cultura negra, em São Paulo, e segue em cartaz no Museu Casa do Benin, em Salvador.

Reconhecido como um dos grandes fotógrafos contemporâneos, foi convidado para a série televisiva “Instantes Cruzados”, apresentada por Milton Guran, no Canal Curta. No programa, Cipó dialoga com Walter Carvalho, um dos maiores nomes da direção fotográfica do Brasil, e recria imagens do livro Candomblé, de José Medeiros.

Sua atuação já lhe rendeu os prêmios Almerinda Farias Gama para comunicadores negros e Luiza Bairros, ambos de 2016, além da comenda Toy Francelino Shapanan, pelo trabalho de comunicação para valorização da imagem das crenças afro.

Fez a produção fotográfica do mais recente álbum da cantora Leci Brandão e o ensaio A Beleza da Identidade, para a publicação “Ocupação Abdias Nascimento”, do Itaú Cultural. Teve suas fotos incluídas no livro Herança Africana no Rio de Janeiro, organizado por Milton Guran, e é um dos colaboradores da coletânea Fio de Conta, com poetas de terreiro. Também assina a direção de arte do álbum Liturgia de Bamba, de T. Kaçula.

Nova referência num universo artístico tão acostumado ao preconceito, Roger Cipó imprime seu olhar afrocentrado com a propriedade de quem viu, viveu e sabe exatamente o significado de tudo que retrata. 

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Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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