O Herodes do Brasil

O inominável presidente da república, teve a ousadia de se referir a um dos maiores milagres realizados por Jesus: a multiplicação dos pães

Foto: EVARISTO SA / AFP

Foto: EVARISTO SA / AFP

Diálogos da Fé

1 Do mestre de canto (…) Salmo de Davi.
2Socorro, Javé! O fiel está sumindo! Desaparece a fidelidade entre os homens: 3 cada qual mente ao seu próximo com lábios enganadores e segundas intenções.
4 Que Javé corte todos os lábios enganadores, e a língua arrogante 5 dos que dizem: Nossa força está na língua, nossas armas são nossos lábios. Quem poderá nos dominar?
6 Javé declara: Agora eu me levanto para defender os pobres oprimidos e os necessitados que gemem. Vou salvar quem quer ser salvo! 7 As palavras de Javé são palavras sinceras, prata pura, sem nenhuma impureza, sete vezes refinada.
8 Sim, Javé, tu nos guardarás, livrando-nos para sempre dessa gente. 9 Por toda parte rondam os injustos, quando a corrupção é exaltada entre os homens. (Sl 12)

Iniciamos nosso artigo de hoje com a leitura do Salmo 12. Assim o fizemos por tratar-se de um Salmo de súplica coletiva feita pela comunidade, que percebe estar vivendo em meio a uma sociedade corrompida.

O estado das relações sociais está em calamidade. A mentira criada e sustentada pelos poderosos faz desaparecer a sinceridade e a fidelidade entre as pessoas. E tudo isso é acobertado por uma inocência aparente, que esconde a opressão.

Contra a palavra dos injustos, se opõe a palavra de Javé. Ele assume a causa dos oprimidos e necessitados, desde que estes o desejem, ou seja, desde que tomem consciência da situação, descruzem seus braços e se organizem para realizar o projeto de Deus.

A esperança de uma nova sociedade nasce do conflito dos fiéis a Javé e os injustos e suas palavras mentirosas. Estes serão destruídos pela força da verdade.

Há que se observar, logo no início do Salmo a expressão ” O fiel está sumindo! Desaparece a fidelidade entre os homens: cada qual mente ao seu próximo com lábios enganadores e segundas intenções.” Ao trazermos esta afirmação para nossos dias, não será tarefa difícil identificar os recentes acontecimentos que assolaram nossa terra e continuam nos atingindo com força brutal.

Julgando-se donos da verdade, homens e mulheres servem-se de todos os meios para disseminar mentiras e propagar o ódio entre as pessoas. Mesmo diante de fatos que comprovam suas ações inescrupulosas que atingem diretamente os menos favorecidos e marginalizados, levando à morte milhares de pessoas, uma multidão ainda insiste e defender os verdadeiros culpados.

Ainda pior, é a persistência de determinadas pessoas que fazem interpretações equivocadas –e até maldosas-, das palavras de Jesus registradas nos Evangelhos, numa busca insana de convencimento e fortalecimento daqueles que os seguem. E tudo fica ainda pior, quando o fazem tendo ao seu lado pastores e padres conhecidos pelo público, servindo-se de suas imagens como referendo às suas afirmações toscas.

Recentemente, o inominável presidente da república, teve a ousadia de se referir a um dos maiores milagres realizados por Jesus: a multiplicação dos pães.

Mais uma vez, o presidente demonstrou total desconhecimento da Bíblia ao se enrolar por completo em nova tentativa de utilizar as palavras evangélicas de Jesus, ao discursar para seus “seguidores” que costumeiramente o aguardam nos jardins do Palácio onde reside. Relatos de jornalistas e imagens divulgadas pela imprensa, mostram que neste dia havia entre seus devotos, um pastor evangélico e um padre católico que naquele dia, rezou por ele e o abençoou.

Afirmou o presidente: “Tem uma passagem bíblica quando Jesus dividiu o pão. Depois ele deu uma ‘desaparecidinha’ né? Daí o povo foi atrás. Foi atrás para quê? Para mais benefícios pessoais. Fizeram a ligação com o PT dando bolsa isso, bolsa aquilo? É o ser humano que tá aí.”

Para aqueles que são realmente cristãos, essas palavras são ofensivas. Se o presidente conhecesse o mínimo que fosse das verdades ensinadas por Jesus, jamais diria tamanha besteira. Os Evangelhos não fazem nenhuma menção a uma “desaparecidinha” de Jesus depois da partilha dos pães e dos peixes (Mc 6, 30-44). Ao seguirem Jesus para onde ia, as pessoas que o faziam estavam em busca de conforto espiritual e dos ensinamentos trazidos por um profeta e não de “benefícios ou vantagens pessoais”, como alimento de graça.

O inominável –repito-, presidente da república, não alcançou seu objetivo de tentar ofender ou atacar o Partido dos Trabalhadores –como insiste em fazer cotidianamente na tentativa de arranjar um culpado para seus erros-, ao se referir ao Evangelho. Ao contrário. Ofendeu diretamente aos pobres e marginalizados, que por falta de políticas públicas responsáveis e capazes de sanar o problema do desemprego, a falta de atendimento médico e da vacina contra o Covid 19, sentem na carne a dor causada pela doença e a fome.

Ao dizer tamanha asneira, o presidente demonstrou, mais uma vez –como fazia o rei Herodes-, de que lado está e com quem gosta de conviver. Na passagem do Evangelho de Marcos aqui referida, temos um ensinamento teológico profundo e esclarecedor: a companhia de Herodes em sua refeição eram os poderosos; a companhia de Jesus, ao contrário, eram os pobres e famintos.

A responsabilidade pelas pessoas não pode ser transferida, nem se pode confiar na lógica da compra e venda; os discípulos precisam agir para que todos tenham o necessário. Na medida em que a partilha dá o tom, chega a sobrar, e isso é sinal para todo o povo (doze cestos). O pão distribuído a todos é a marca da ação de Jesus, o símbolo maior de sua missão com a gente marginalizada.

Se não se entende o sentido do acontecimento dos pães, não se compreenderá a Jesus, no qual age o Deus do Êxodo, o “Eu sou” (Ex 3,14). Jesus continua sua ação libertadora, comprometido com os corpos e com a vida, porque o povo sabe que pode confiar nele, e não deixa de procura-lo.

Em referência aos hábitos do rei Herodes conhecido historicamente por suas práticas genocidas e sua sede insaciável pelo poder, podemos, analogamente, fazer a leitura de um fato ocorrido recentemente (dia 07 de abril/21) na cidade de São Paulo e amplamente divulgado pelos veículos de comunicação.

O episódio ao qual nos referimos, foi um jantar oferecido pelo presidente a um grupo seleto de empresários de diversos setores do mercado, na tentativa de reverter a deterioração de sua imagem perante a elite. Ao seu lado, estavam dois de seus “discípulos”: Paulo Guedes, ministro da economia e Marcelo Queiroga, ministro da saúde, dois ministérios em voga no cenário brasileiro.

O jantar realizado na mansão de Washington Cinel, dono da Gocil, empresa de segurança, foi regado a champanhe francês Veuve Clicquot, ao custo médio de R$ 500,00 a garrafa. De acordo com convidados ouvidos pela imprensa, o presidente criticou governadores chegando até a usar o termo “vagabundos”, tendo sido ovacionado pelos empresários.

Interessante observar, que dentre os convidados do presidente estavam personalidades como o Rubens Ometto, da Cosan, que foi -de acordo com o noticiado por esta revista e amplamente divulgado por outros veículos de comunicação-, o maior doador individual para a campanha eleitoral do atual presidente. Mas isso não é tudo. Subsidiárias Cosan já foram condenadas por desmatamento e trabalho escravo. O empresário responde por uma ação proposta pelo Ministério Público Federal de reparação ao povo Xavante por violações de direitos humanos. Ainda mais: uma de suas principais empresas, a Raízen Energia, deve para a União 433 milhões em impostos e tributos.

André Esteves, dono do BTG Pactual, banco em que foi sócio do ministro da economia, Paulo Guedes, também se fez presente. Esteves tem faturado alto com Guedes ministro, que possibilitou a venda de uma carteira de créditos do Banco do Brasil a um fundo administrado pelo BTG Pactual. O deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores Ênio Verri, protocolou requerimento de informações para que Guedes esclarecesse detalhes da venda. O caso ainda não foi esclarecido. O impacto financeiro da operação ao banco público foi calculado em 371 milhões de reais.

O dono da rede roupas Riachuelo Flávio Rocha, também participou do faustoso jantar. De acordo com redação da RBA – Rede Brasil Atual, uma de suas fábricas foi condenada pela Justiça do Trabalho por submeter funcionários a longas jornadas em troca de salários abaixo do mínimo. O processo foi repleto de relatos de abusos físicos e psicológicos cometidos pelos gestores contra os trabalhadores. Rocha já foi deputado federal por dois mandatos consecutivos, de 1987 a 1995. Em 1994, foi flagrado no esquema de corrupção conhecido como Escândalo dos Bônus Eleitorais.

A lista de convidados para o jantar é longa. Dentre os participantes, temos ainda: Alberto Saraiva – Fundador e CEO do Habib’s; Paulo Skaf – Presidente da Fiesp; Ricardo Mello Araújo – Presidente da Ceagesp; Rubens Menin – Presidente da construtora MRV, proprietário da CNN Brasil e do Banco Inter; Tutinha Carvalho – Proprietário e presidente da rede Jovem Pan; Carlos Sanchez – CEO da farmacéutica EMS; David Safra – Proprietário e CEO do Banco Safra; Luiz Carlos Trabuco – Presidente do banco Bradesco; Jose Isaac Peres – Presidente da Multiplan, uma das maiores empresas de shoppings do país dentre outros.

Retornando, então, às palavras proferidas pelo presidente ao referir-se à passagem da multiplicação dos pães realizada por Jesus, nenhuma dúvida nos resta sobre sua real intenção, como fora muito bem descrita pelo jornalista Ricardo Noblat em sua coluna na revista Veja: “Dos pobres, Bolsonaro quer votos, apertos de mão, fotos e distância segura”.

Quanto ao pastor evangélico e ao padre católico que acompanhavam o presidente naquele dia, foram embora sem entender bulhufas sobre o que o ele quis dizer, donde podemos extrair a dificuldade para os demais que o escutaram, fazer qualquer ligação com os programas sociais do Bolsa Família, do PT.

Em relação a afirmação do inominável: “é o ser humano que tá aí” temos a revelação de seu total descaso e desmerecimento que nutre pelos mais pobres que carecem de ajuda para sobreviver.

Por fim, retomando o Salmo 12, temos a afirmação que hoje se encaixa perfeitamente ao governo genocida que temos: “Nossa força está na língua, nossas armas são nossos lábios. Quem poderá nos dominar?” Porém, lembramos que o verdadeiro poder pertence ao povo, que por mais que seja enganado e usado pelos poderosos, sempre se levanta para promover a justiça e a verdadeira paz.

O atual presidente, tem afirmado com a arrogância que lhe é peculiar, que manterá a ordem com o uso da Forças Armadas, alto afirmando ser o seu comandante em chefe, para acabar com o caos no Brasil, em combate às “forças” que o promovem. Interessante esta aberração dita pelo “comandante em chefe”, uma vez que o caos que já estamos vivendo, foi causado por ele mesmo e seus fiéis “discípulos”, que não se importam o mínimo com a fome e a tragédia vividas pelo povo, tendo em vista insistir em um auxílio emergencial de R$ 250,00, quando o botijão de gás custa cerca de R$ 100,00. Ainda pior, faz pouco caso disso, realizando um jantar regado a champanhe de R$ 500,00 a garrafa.

Aqueles que seguem os ensinamentos de Jesus sabem que ele é o Verbo de Deus Encarnado, feito homem, o profeta da paz e da justiça que se colocou entre os pobres para mostrar que uma sociedade mais justa e solidária é possível ser construída. O Reino de Deus deve ser edificado aqui, neste chão, neste tempo.

Como lemos no versículo 6 do Salmo 12, “Javé se levantará para defender os pobres oprimidos e os necessitados que gemem. Vai salvar quem tem que ser salvo”, bastando a esses descruzarem seus braços e tomarem consciência de que “por toda parte rondam os injustos, quando a corrupção é exaltada entre os homens, e se organizarem para realizar o projeto de Deus, pois “as palavras de Javé são palavras sinceras, prata pura, sem nenhuma impureza, sete vezes refinada”.

Por fim, deixamos aqui como recado a todos os que hoje sentem-se inatingíveis e donos do poder, as sábias palavras do grande estadista Abraham Lincoln:

“Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar todas por todo o tempo.”

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

É licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia. Escritor, agente de pastoral, assessor de movimentos sociais, gestor da Rede de Escolas de Cidadania de São Paulo.

Compartilhar postagem