O Brasil vive um Calvário e espera Ressurreição!

'Esta Semana Santa 2021 está oferecendo muitos objetos de reflexão a cristãs e cristãos do País', escreve Magali Cunha

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Diálogos da Fé

Esta semana chamada santa por cristãs e cristãos está dizendo muitas coisas para o momento em que vivemos no Brasil.

Estamos em um contexto em que o País vive um verdadeiro Calvário: milhões de contaminados por Covid-19, centenas de milhares de mortos, sem que haja uma ação emergencial inteligente e eficaz em nível nacional para salvar vidas; o preço dos alimentos nas alturas como não se via há décadas, tornando impossível que pessoas empobrecidas sobrevivam com o básico; altos níveis de pessoas desempregadas ou vivendo de trabalho precário e indigno; aumento da pobreza e da fome… sem mencionar as outras tantas situações que gritam por socorro no País!

Tudo isto sob um governo fragilizado, assentado em mentiras, atuando prioritariamente pela manutenção do poder, pela satisfação de quem ganha com a desgraça e pela proteção de familiares e aliados envolvidos em crimes.

É nesse contexto que o presidente da República e seus apoiadores religiosos convocaram um jejum pelo Brasil na segunda 29 com momento de oração em Brasília. Um dos proeminentes pastores do grupo não pôde estar presente por ter sido contaminado pela mesma Covid-19, cuja gravidade, por mais de um ano, ele insistiu em relativizar. O que isso tem a dizer sobre quem usa o jejum como instrumento político?

No mesmo dia do jejum, tornou-se nítido o que é um governo assentado sobre a areia, como na parábola que Jesus contou (Mateus 7), referindo-se a quem ouve as palavras do Evangelho e não as pratica. Segundo a parábola, isto é atitude de gente insensata, assentada sobre fragilidade, e é grande a queda quando vêm as tempestades. Nesta segunda-feira do jejum convocado pelo presidente e apoiadores, o que o País viu foi parte do governo se desmantelando.

Tudo começou quando uma de suas pilastras, o Ministério das Relações Exteriores, nas mãos do católico Ernesto Araújo, desabou. Aquele que dizia estar agindo em nome do governo para proteger o Brasil das ameaças do “comunismo”, do “globalismo”, do “climatismo”, do “covidismo”, e mais uma lista de inimigos imaginários que alimentam o ódio, desmoronou.

Depois de mais de dois anos, Araújo não só destruiu décadas de diplomacia construída a duras penas, para o Brasil ser colocado num patamar respeitável das relações internacionais, como transformou o País num pária mundial, como classificam reconhecidos analistas da diplomacia no mundo.

O ministro da base ideológica-religiosa do governo é ainda considerado um dos responsáveis pelas crescentes mortes por Covid-19, por negar a gravidade da doença, impedir a participação do Brasil em consórcios por vacina e obstruir as relações com países como a China para negociação de insumos para imunizações.

Este pilar do governo caiu no dia do jejum nacional, no segundo dia da Semana Santa, mas já vinha em estado de demolição desde a não-reeleição do presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Esse era como a “areia” em que estava assentada não só a política internacional bolsonarista, mas a visão de mundo que este grupo tem. Mais uma vez: o que isso tem a dizer sobre quem usa o jejum como instrumento político?

Para maquiar tamanha perda, o mandatário articulou uma “dança das cadeiras” envolvendo seis ministérios. A ação já era planejada, no jogo de compra e venda que envolve partidos no Congresso Nacional que, chamados de “Centrão”, tentam enganar com a ideia de que são um centro político e não um grupo de partidos, alguns de aluguel, marcados por fisiologismo e oportunismo, todos à direita na arena da política. Para superar o baque do desabamento que a saída de Araújo representa, a dança das cadeiras foi antecipada e dois ministros da base ideológico-religiosa do governo foram diretamente envolvidos.

O evangélico batista General Luiz Eduardo Ramos saiu da Secretaria de Governo para dar lugar à deputada federal Flávia Arruda (PL-DF), identificada genericamente como cristã. Ela é do partido de um dos mais aguerridos líderes do “centrão” Valdemar da Costa Neto e tem o apoio do presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). Para um ministério estratégico, articulador político, sai um general de quatro estrelas, da turma mais próxima do ex-capitão presidente da República, e entra uma deputada de primeiro mandato sem qualquer experiência coerente com a função.

Além disso, Flávia Arruda entrou na política depois que seu esposo, um destacado político do PL, José Roberto Arruda, ex-senador e ex-governador do Distrito Federal, condenado por corrupção, tornou-se “ficha suja” e foi impedido de concorrer em eleições. Ela terá o poder de negociar votações, verbas e cargos com o Congresso e como a própria ministra disse “atuará para diminuir as tensões entre governo e Câmara”. Já é possível imaginar como.

O General Ramos continuará no posto de articulador político e muda para a cadeira da Casa Civil, substituindo o General Braga Neto. Braga Neto é outro do grupo de militares mais próximos do presidente, acionado em 2020 para segurar “desabamentos” na Casa Civil, no lugar do evangélico Onix Lorenzoni. O general agora foi destinado ao Ministério da Defesa, para conter o “desmoronamento” causado pela demissão do ministro general Fernando Azevedo Silva, reflexo da insatisfação de comandantes militares com a política do presidente. Novamente: o que isso tem a dizer sobre quem usa o jejum como instrumento político?

O segundo ministro da base ideológico-religiosa do governo envolvido na dança das cadeiras dos ministérios é o pastor presbiteriano André Mendonça. Ele, curiosamente, retorna de onde saiu quando foi deslocado para o Ministério da Justiça, em 2020. Em uma mesma Semana Santa, Mendonça havia sido acionado em um “desabamento”, a saída do ex-juiz Sérgio Moro. O pastor retorna agora à Advocacia Geral da União, mantendo a posição que lhe foi dada neste governo, a de “ajudante de ordens” do mandatário. Qualquer que seja a cadeira destinada a este ministro, que chamou o presidente de “profeta” em sua posse na pasta da Justiça, ele realizará o que mostrou ser destinado a fazer nestes mais dois anos: conduzir perseguições a opositores do governo e proteger o mandatário, a família e amigos dele de investigações sobre ações criminosas. O que isto tem a dizer sobre quem usa o jejum como instrumento político?

Esta Semana Santa 2021 está oferecendo muitos objetos de reflexão a cristãs e cristãos do Brasil, que são parte do Calvário como sofredores ou como promotores dele. Ainda temos nela a memória dos 57 anos do golpe militar de 1964, que instituiu uma ditadura violenta e sangrenta que durou 21 anos e ainda tem reflexos na vida do país até hoje.

Há quem negue este tempo de trevas e até queira comemorar o “aniversário”. É a composição da verdadeira “roda de escarnecedores”, como registram passagens da Bíblia, inclusive a narrativa sobre os executores de Jesus.

Porém, este tempo de recordar um outro Calvário é mais do que oportunidade de afirmar as atrocidades praticadas pelo Estado no passado e que se mantêm vivas, com feridas abertas, não curadas, nas execuções de desafetos e opositores, nas torturas em delegacias e prisões, no aparelhamento de instituições para demitir, perseguir e calar.

O que nos move em esperança ativa, no compromisso com a vida em sua plenitude, assentado sobre a “rocha” da paz com justiça, é a crença cristã de que depois do Calvário há Ressurreição. Que assim seja!

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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