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O Brasil e a Bahia de Jorge Amado vivem em nós

Se Jorge Amado vivesse para ver o Brasil de hoje, talvez implorasse aos orixás para erguerem suas armas em favor do povo

Jorge Amado (Crédito: Domínio público / Acervo Arquivo Nacional)
Jorge Amado (Crédito: Domínio público / Acervo Arquivo Nacional)
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Obá Arolu, sua bênção. Jorge Amado, um dos maiores escritores do mundo, era um homem de candomblé. Filho de santo da venerável Mãe Senhora, orgulhoso de sua posição de grande prestígio junto a Xangô no Ilê Axé Opô Afonjá. Devoto de Oxóssi, o orixá caçador e seu pai. Arguto, aberto, astuto, o notável intelectual disseminou, por meio de sua literatura, as cores, sabores, valores, aromas, saberes, encantos, jeitos, gestos, mistérios, misturas, sons e tons da “Bahia de todos os santos”.

No “país do Carnaval” fez-se o cenário de suas histórias, com seu povo marcado pelo sol e o “suor” e o brilho sobre a pele escura. O Brasil mulato preconizado em suas obras tornou-se mais claro nas adaptações para o cinema e a televisão. Sabemos bem o motivo. Jorge Amado também sabia. Também bradou contra o racismo, contra a intolerância. Também se engajou nas lutas dos terreiros, em defesa de Procópio de Ogum, “Jubiabá” e Joãozinho da Gomeia.

Do sul da Bahia, o “cacau”, os coronéis, os bataclans. De Salvador, o dendê, os “capitães de areia”, o mar. “Terras do sem fim”, onde habitam as forças da natureza: a mata, o vento, o arco-íris. Terra dos deuses que despertavam sua fé imortal e que na “tenda dos milagres” se tornavam tangíveis e desciam as ladeiras, rumo às igrejas, onde dançavam com santos, ao som de atabaques e adjás.

“Gabriela”, “Dona Flor”, “Teresa Batista”, “Tieta”, suas protagonistas tão marcantes, tão ousadas, tão belas. Como seriam essas mulheres? Será que ainda andam pelas ruas do Pelourinho? Pelas praças de Ilhéus? Será que atravessam o “mar grande” nas jangadas, saveiros ou balsas? São filhas de Oxum ou Iansã? São iaôs de Iemanjá e filhas de Mãe Menininha?

Cantou a triste travessia, “a morte e a morte”, no porto, no cais. Nas ondas verdes do mar, nos braços da sereia, o doce morrer. As composições ao lado de Caymmi, a arte de Carybé ilustrando os contos, as palavras de Exu tomando forma de romance, os olhos de Oxalá iluminando os caminhos. O Bonfim, a Conceição da Praia, o Bom Jesus dos Navegantes.

Num trago de cachaça, entre os ebós que se espalham pelas encruzilhadas da Cidade da Bahia, o cheiro do dendê. O acarajé de Iansã, o vatapá e o caruru de sete meninos. As feiras, mercados e festas, as procissões, insurreições e os protestos. E o povo, o povo preto, mestiço, baiano.

Cravo e canela, pimenta de cheiro, matizes da pele morena, sensual, quente. As paixões e transgressões de seus personagens: Pedro Arcanjo, Vadinho, Nassib. Quantos vieram à velha Bahia em busca de amores e sonhos? Quantos não desejaram se perder entre as ladeiras, entre as curvas e entre as coxas daquelas mulheres de Jorge.

O Brasil que se mostra lindo em seus romances, na convivência perfeita entre raças, na integração entre negros, índios e brancos, é um ideal, não uma realidade. Romancear a violência da mestiçagem, alimentar o mito de uma democracia racial, escamotear o sangue que escorre das mãos brancas que sempre governaram o país.

Mas estamos falando de um comunista, de um homem de candomblé, sensível às dores de sua gente. Ele sabia. Sabia da exploração e do racismo, da perseguição e da morte, dos abusos e das maldades. Ele sabia.

Seu acesso aos poderosos e ao povo, aos clérigos e mães de santo, às beatas e prostitutas traçava em entrelinhas os elos que coziam os retalhos díspares da nossa diversidade. O Brasil e a Bahia de Jorge Amado vivem em nós, com todas as contradições que nos forjaram.

Filho de Oxóssi, fiel a Xangô, Amado entendeu o candomblé como ethos. Assumindo sua fé nos milagres do povo, mesmo ateu, viveu dentro dos ritos e mitos dos terreiros. A resistência o encantava. Imortal nas lutas que travou, honrou o legado da ancestralidade. Um branco da Bahia, um mulato claro, como ele mesmo dizia, sonhou com a unidade e contribuiu decisivamente para os ideais de justiça social, inspirando o mundo a ser como o Brasil de seus romances.

Tudo é belo, até que o livro se feche e, num piscar de olhos, nos jogue na realidade triste e torpe de um país que não respeita as diferenças, as minorias, a cultura. Se Jorge Amado vivesse para ver o Brasil de hoje, talvez implorasse aos orixás para erguerem suas armas em favor do povo. Porque a sanha da chibata ainda ameaça índios e negros. Porque um grito de liberdade precisa ecoar. Porque a vida não é um romance.

Pai Rodney

Pai Rodney Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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