O 13 de maio e o racismo nosso de cada dia

Pessoas negras sempre foram colocadas pela estrutura racista de sociedade em condições inferiorizadas de vida

Concentração de ato organizado pela Marcha das Mulheres Negras contra o racismo, o machismo, o genocídio e a lesbofobia, em São Paulo, 2016. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Concentração de ato organizado pela Marcha das Mulheres Negras contra o racismo, o machismo, o genocídio e a lesbofobia, em São Paulo, 2016. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

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Hoje recordamos os 132 anos da Lei Áurea que pôs fim à prática da escravidão no Brasil. A data é sempre uma oportunidade para recordarmos que o fim da escravidão não significou o fim do racismo, da negação das pessoas negras como iguais, e da exploração dos trabalhadores em nosso país. É ainda oportunidade significativa para cristãos e cristãs reafirmarem o racismo como pecado, uma ofensa ao Deus da Vida.

O racismo é uma das formas mais cruéis de intolerância estabelecidas na história da humanidade. Tem por base a negação (não aceitação) das diferenças entre humanos e da possibilidade de coexistência entre diferentes. Esta negação se soma a práticas sociais e políticas que estabelecem uma distribuição desigual de poder entre grupos sociais e determinam a supremacia de uma “raça” (a branca) sobre outra (a negra).

Dá-se, historicamente, de forma institucionalizada, por meio de políticas e legislação, por meio da subordinação e da exploração de povos inteiros, e também como uma estrutura integrada às formas de vida culturalmente estabelecidas em sociedades diversas. Por meio destas expressões o racismo opera explicita ou sutilmente, no dia a dia. 

O Brasil foi o maior receptor de africanos escravizados (46% do mercado de escravos de todo o mundo) e o último país das Américas a extinguir a escravidão, já independente de Portugal e a um ano antes de se transformar numa República.

Mesmo reconhecendo a cidadania a indígenas e à grande população negra e mestiça, fato é que a escravidão, tanto no seu sentido econômico de exploração do trabalho alheio, como no seu sentido moral e político de produção de distinções sociais, se manteve, na prática, presente desde então.

Já havia uma cultura da desigualdade e da inferiorização de pessoas estabelecida e vivida com a colonização e, ainda que leis surgissem na história para superar essa realidade, esta estrutura é mantida.

Pessoas negras sempre foram colocadas pela estrutura racista de sociedade em condições inferiorizadas de vida, majoritariamente na pobreza, nas periferias e favelas, com baixos salários, e, por vezes, com a oferta da ilegalidade como recurso para superação das dificuldades. 

Esta situação cria um estigma para a população negra brasileira, o da criminalidade. Pessoas negras são vistas com desconfiança e sofrem com o preconceito da segurança privada e de agentes do Estado. Muitas pessoas negras são tratadas, sem quaisquer motivos, como suspeitas em várias situações, submetidas a humilhações e chegam a ser presas e executadas.

 

Estes casos se somam a uma infinidade de outros no Brasil, desde aqueles tornados públicos, por pessoas comuns ou mesmo celebridades, até aqueles acobertados ou silenciados, do dia a dia de milhões de pessoas cuja cor da pele é motivo para preconceito, discriminação e segregação. 

No presente, basta ver os índices da covid-19 para identificarmos como opera a estrutura racista segregacionista no Brasil. De acordo com os primeiros números disponibilizados, em abril, pelo Ministério da Saúde, a pedido da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade) e pela Coalizão Negra por Direitos (via Lei de Acesso à Informação), pretos e pardos são 23,1% das pessoas internadas por Síndrome Respiratória Aguda Grave, mas correspondem a 32,8% dos óbitos por covid-19.

Este quadro pode ser ainda pior dadas a subnotificação de casos e mortes e a limitação de acesso a diagnósticos nas periferias, onde a população negra está concentrada.

Tudo isto se agrava quando a maior autoridade do país não esconde o racismo que lhe move, e que tem sido fonte para muitos dos apoios que recebe. Ainda em campanha para a Presidência da República, em 5 de abril de 2017, Jair Bolsonaro afirmou em discurso para parte da comunidade judaica carioca (que reagiu com risadas): “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”.

E assim segue o racismo predominante, a negar o valor humano da negritude e a esconder os muitos negros e negras que fizeram história, nestes séculos do nosso Brasil, como intelectuais em várias áreas do conhecimento, lideranças políticas e comunitárias, artistas. 

Tudo isto é uma ofensa à fé cristã. A Bíblia deixa nítido o desejo de Deus firmado nas relações justas e na reconciliação de toda a sua Criação. Este desejo se manifesta no ato do Criador que fez os seres humanos à sua imagem e semelhança (Gênesis 1.26) e valoriza as diferenças para que não haja dominação de uns sobre os outros (Gênesis 11.1-9), agindo sempre para derrubar todo o muro de separação entre as pessoas, que resulta do pecado que é o desprezo e a intolerância com as diferenças (Efésios 2.8-16). 

O Deus que inspirou a libertação do povo hebreu do Egito é o mesmo que a partir da utopia dos Quilombos levou ao fim a escravidão dos povos africanos em diáspora na América Latina. Foi o espírito de resistência que permaneceu entre a população negra, que levou a séries de movimentos e revoltas que acabaram provocando a abolição da escravidão.

Apesar de haver o pecado dos discursos e práticas racistas entre as próprias igrejas e suas lideranças, há cristãos ao longo da história que fomentam uma leitura da fé para superação do racismo. Eles formam consciências e inspiram movimentos por justiça e igualdade que têm marcado o mundo. Entre eles estão o batista Martin Luther King e o metodista Nelson Mandela. No Brasil são muitos os nomes de homens e mulheres negros que levam adiante a história de consciência e libertação.

O clamor por justiça e igualdade deve continuar a ser levantado não apenas pelas pessoas negras, mas por todos nós que confessamos o racismo como pecado e ofensa, e assumimos o compromisso radical por superá-lo a fim de transformar esta realidade injusta.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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