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“Não tenham medo!” é a mensagem do Apocalipse

O texto serve para encorajar a resistirmos diante das mazelas experimentadas hoje

(crédito: Ria Sopala /  Pixabay)
(crédito: Ria Sopala / Pixabay)
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Nos últimos dias a palavra “Apocalipse”, conectada com a hashtag #fimdomundo, ganhou as mídias sociais. Isto foi estimulado pelo clima catastrófico em torno da pandemia global de coronavírus somado a um tal barulho no céu que foi ouvido em diferentes partes do mundo e à erupção do vulcão Krakatoa (Indonésia), que havia provocado um tsunami mortal em 2018.

A esta perspectiva se juntam as mensagens de alguns pregadores religiosos que fazem uma leitura terrorista do tempo que estamos vivendo. Da boca e do teclado deles saem afirmações como: a covid-19 é maldição de Deus, ela cumpre um propósito, um recado de Deus; o coronavírus é um anjo da morte de Deus que veio para fazer justiça contra o comunismo, a liberação da homossexualidade e as “sujeiras” da TV e do cinema; Deus está prestes a expurgar muitos pecados do planeta com este vírus, ainda há tempo de arrependimento.

Não é a primeira vez (e possivelmente não será a última) que a ideia de um deus vingativo é relacionada ao Apocalipse e ao fim do mundo. O imaginário coletivo está povoado destas ideias e a cada catástrofe partilhada por mais de um continente, ele é acionado.

Isto é resultado de uma compreensão de deus baseada em ideologias de domínio e retribuição, e numa leitura equivocada do livro da Bíblia denominado Apocalipse. A palavra vem do grego e não quer dizer destruição ou fim do mundo, mas sim “revelação”. Apocalipse é a revelação, “véu tirado”, ação que torna possível enxergar o que está escondido. No caso do livro bíblico, temos um texto na forma de carta, pela qual Deus revela aos seguidores de Jesus coisas que eles não conseguiam enxergar diante de momentos muito difíceis de perseguição e morte pelo Império Romano. É a revelação divina de fatos de um presente que deveriam ser compreendidos e vividos com a memória do passado e com a projeção do futuro.

A autoria do Apocalipse é atribuída ao apóstolo João (ou a um de seus seguidores), que, segundo o próprio livro, era um preso do Império na Ilha de Patmos. Nesse sentido, João não estava fazendo previsões para o nosso futuro. Ele escreveu para os cristãos daquele tempo (cerca de 90 anos depois de Jesus) que estavam sofrendo, como ele, a perseguição dos romanos. A intenção era animar as comunidades para que elas não desistissem e continuassem fiéis ao caminho de Jesus. Ele falou do futuro próximo daqueles grupos, de que Deus não deixaria tanto sofrimento por tanto tempo.

A perseguição do Império Romano resultava do fato de que o imperador era o Senhor do Mundo, como um deus (Apocalipse 13 e 14), enquanto os cristãos diziam o contrário: “Jesus é o Senhor dos Senhores!” (Apocalipse 10 e 17). Este não era um conflito apenas conceitual já que todos deviam prestar culto ao imperador (Apocalipse 13. 8-15). Assim, ajudado pela religião, o imperador montou todo um sistema que controlava a vida do povo (Apocalipse 13) e que explorava as pessoas pobres para manter o luxo das elites (Apocalipse 18).

 

Para os cristãos, Deus é um só e, por causa disso, ele é Pai de todas as pessoas, então todas são irmãs. Por isso, em nome da sua fé, eles procuravam viver como irmãos: colocavam seus bens em comum, diziam que todos eram iguais, condenavam os ricos que exploravam os trabalhadores, não apoiavam o sistema injusto do Império Romano (tudo isto está expresso nas páginas do Novo Testamento da Bíblia). As comunidades diziam: “Jesus é o Senhor e a nossa vida é cumprir a vontade dele!” mas, fora delas, quem dominava era o Imperador de Roma. Daí tanta perseguição!

Há muita coisa difícil de compreender no Apocalipse pois a carta foi escrita de forma enigmática, com palavras e símbolos que só os cristãos poderiam decifrar, pois diziam respeito à situação de perseguição em que se encontravam. Assim, ela pode ser enviada da prisão. Para se entender hoje tantas imagens, números, símbolos, só mesmo conhecendo a memória da caminhada do povo com Deus (no Antigo Testamento) e mergulhando na realidade vivida por aquelas pessoas, naquele momento e lugar, muito diferente da nossa.

O Apocalipse, portanto, não é nem nunca foi uma previsão de acontecimentos do nosso futuro. Tanto é que o fim do mundo já foi muitas vezes previsto com base nele e não aconteceu. Porém, é uma mensagem de ânimo para cristãos que estavam sofrendo muito naquele tempo e lugar e precisavam de esperança de que o sofrimento iria terminar logo. “Não tenham medo!” é expressão recorrente em todo o livro.

De qualquer forma, as palavras do Apocalipse para aquelas pessoas servem para nós. Quando a carta foi escrita, muita gente desistia de manter sua fé por causa do sofrimento, com medo dos romanos ou porque pensava que as dificuldades não tinham solução. O texto serve, portanto, para encorajar a resistirmos diante das mazelas experimentadas hoje.

Serve também para alertar sobre o “Anticristo”, aquele que engana os cristãos como se fosse o Cristo, ensinando e praticando valores contrários a ele, com base no egoísmo, na violência e na falta de amor e misericórdia, em apoio ao Império.

O Apocalipse diz que mesmo no sofrimento é preciso ficar firmes, não se deixar dominar pelo medo, que paralisa e fragiliza, pois a justiça vai ser realizada e a paz será plena! Para isto, é preciso tirar o véu que não permite enxergar o presente, livrar-se de todo engano que esconde a realidade. Isto significa ver o coronavírus como desafio à saúde pública e a políticas econômicas mais justas e inclusivas. Representa tirar o véu que esconde a destruição do meio ambiente pelos Impérios de hoje e desenvolver mais cuidado com ele. Implica identificar os Anticristos que usam a fé para manter sistemas que geram morte, especialmente daqueles que os Impérios excluem por classe, raça, gênero e etnia. Isto é revelação do presente para alimentar o futuro com muita esperança de dias melhores.

Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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