Não existe só uma religião brasileira, presidente

Existem religiões no Brasil que, certamente, estão distantes de onde o senhor deseja que elas que estejam, escreve Magali Cunha

Bolsonaro durante ataque a jornalista. (Foto: Reprodução)

Bolsonaro durante ataque a jornalista. (Foto: Reprodução)

Diálogos da Fé

Na segunda passada, 21 de junho, o presidente Jair Bolsonaro teve mais um surto de fúria e desrespeito contra uma mulher jornalista, prática corrente da promoção da barbárie e do caos que caracteriza sua gestão e é aplaudida por apoiadores que nele se espelham.

Ao se apresentar em público, na cidade de Guaratinguetá (SP), mais uma vez sem máscara, e ser lembrado de que já havia sido multado pelo Governo de São Paulo pelo mesmo motivo, o presidente gritou para a jornalista, entre outras agressões verbais e gestuais: “Cala a boca, vocês são uns canalhas. Vocês fazem um jornalismo canalha que não ajuda em nada. Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira. Vocês não prestam”, disse.

Desconsiderado o ataque ao jornalismo, vamos refletir sobre a expressão que chamou a atenção na fala do mandatário: a ideia de uma “religião brasileira” ameaçada.

A prática de disseminar desinformação é cotidiana nas ações do mandatário e seus seguidores. No episódio de Guaratinguetá, Bolsonaro recorre a mais uma ideia enganosa: a da existência de uma “religião brasileira”, na permanente tentativa de manter a fidelidade de uma base religiosa, cristã, reacionária, colada ao terrorismo verbal.

Não existe uma religião brasileira, assim como não existe uma mulher brasileira ou uma cultura brasileira, expressões que ouvimos aqui e ali, mas que estão cada vez mais em desuso. Testemunhamos uma explosão de pluralidades das múltiplas identidades que formam o que costumamos chamar de “povo brasileiro”. Elas sempre foram existentes, vivenciaram silenciamentos e sufocamentos, mas estão cada vez mais visibilizadas por movimentos sociais e pela participação popular nas mídias digitais.

Já escrevi nesta coluna que, em geral, “religião” pode ser popularmente definida como o universo de crenças que envolvem o transcendente, aquilo que está para além do palpável e do concretamente experimentável pelos cinco sentidos do corpo, mas nunca sem relação com tudo isso. Daí a ideia geral que se tem de religião: as pessoas estarem voltadas para a crença em um ou mais seres divinos, superiores, em espíritos, seres sobrenaturais, e na vida para além da morte, sempre estruturando o presente na sua concretude.

O estudioso Otto Maduro definiu religião como “uma estrutura de discursos e práticas comuns a um grupo social referentes a algumas forças (personificadas ou não, múltiplas ou unificadas) tidas pelos crentes com anteriores e superiores ao seu ambiente natural e social”.

Nesse sentido, “religião” deve ser compreendida de forma ampla, em sua universalidade, levando-se em conta a diversidade de formas particulares, relacionadas a crenças, mitos, ritos e organizações coletivas, dentro de contextos sociais, culturais e históricos específicos. Este sistema comum de crenças é social, cultural e historicamente construído a partir de narrativas, que movem a sociedade com força que vai além do que a lógica materializadora diz.

É por isso que é necessário, muito especialmente neste momento da história, assumir que as religiões, não só o Cristianismo, com sua ampla diversidade, têm uma função de sustentação da vida. Somam-se a este quadro as espiritualidades indígenas e as da floresta, as de matriz africana, as religiões mediúnicas, as orientais. São muitas expressões que formam um grande e complexo mosaico religioso do país.

No século XXI, não se pode mais ignorar ou negar a visibilidade que as religiões alcançaram no espaço público. Elas estão em evidência seja no âmbito do cotidiano, no cultivo da religiosidade e na pluralidade de práticas religiosas. Estão visíveis no acesso que têm às mídias e na interação midiática que possibilitam, com aquisição de espaços nas mídias tradicionais e digitais, produção e consumo de conteúdo, constituição de suas próprias celebridades, midiatização da linguagem e das práticas religiosas. As religiões são, também, objeto da indústria cultural, como temas de publicações, de filmes, de telenovelas, e são segmento do mercado, por meio do consumo de bens, de serviços e de entretenimento.

As religiões têm, ainda, realce na esfera da representação e da participação política institucionalizada ou não com a busca que lideranças e de instituições religiosas fazem pela ocupação de cargos e espaços públicos. Elas são destacadas nos debates relacionados aos direitos civis em relação ao corpo, a gênero, à sexualidade, à reprodução humana, à biopolítica, à liberdade de crença.

Com isso, temos tanto a emergência de novas formas de comunicação e diálogo quanto reações com manifestações de violência e de intolerância.

Nesse sentido, apesar de toda a pluralidade vivenciada, descrita acima, ainda se faz presente, em diferentes espaços, a ideia de que o Brasil é um país cristão. O fazer crer em uma “religião brasileira” é um projeto histórico da colonização, que foi aliançada com o Catolicismo Romano que chegou nestas terras como base da violenta invasão portuguesa. Este projeto acabou escondendo a pluralidade religiosa e de crenças que marca o Brasil. Reforçar isto interessa apenas a quem deseja dominar pelo autoritarismo que nega a diversidade e atua para manter o latifúndio, o patriarcalismo e o racismo, eixos da colonização, que sempre marcaram a vida do país.

Não é à toa que a pronúncia de que “a religião brasileira” está ameaçada de destruição pelas mídias vem justamente da boca de um líder político autoritário, comprometido com os ideais históricos dos colonizadores. A ideia de que há uma ameaça emerge justamente de quem quer falsas homogeneizações para dominar (como na narrativa da Bíblia da Torre de Babel, já trazida neste espaço) e para apagar a visibilidade da pluralidade e da não unanimidade que as mídias evidenciam.

“Religião brasileira” não existe, senhor presidente! Existem “religiões no Brasil”, que, em sua pluralidade, certamente estão muito distantes de onde o senhor e seus apoiadores, religiosos inclusive, desejam que elas que estejam. Quem esteve nas ruas em 19 de junho sabe do que estou dizendo.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

Post Tags
Compartilhar postagem