Diálogos da Fé

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Diálogos da Fé: Na dúvida, fique ao lado dos pobres

‘Causa indignação a prática do “toma lá, da cá” adotada por religiosos que gozam da confiança de um grande número de fiéis’

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Por Professor Waldir Augusti e Padre Ticão

Acontecimentos recentes envolvendo líderes religiosos de diferentes Igrejas, atraíram a atenção de muita gente, inclusive a nossa. Deparamo-nos com ações e empreendimentos levados a cabo por eles, que nos chocaram pela dimensão alcançada. Refletindo, então, sobre o que estas práticas poderiam representar para o Cristianismo e, particularmente, para as Igrejas que os acolhem em tempos nos quais a incredulidade e a desesperança são marcas presentes na população em geral, entendemos que tais acontecimentos só fazem fortalecer estes sentimentos. Mas o que dizer a respeito? Em nossa reflexão, fomos remetidos ao Evangelho de Mateus, capítulo 23:

1Então Jesus falou às multidões e a seus discípulos: 2Os doutores da Lei e os fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. 3Portanto, façam e observem tudo quanto eles disserem a vocês. Porém não imitem as ações deles, porque dizem mas não fazem.

4Amarram fardos pesados e os impõem no ombro das pessoas, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los nem sequer com um dedo.

5Praticam todas as suas ações para serem vistos pelas pessoas. De fato, usam faixas largas na testa e nos braços, e põem longas franjas na roupa. 6Gostam de ocupar o posto de honra nos banquetes e os primeiros lugares nas sinagogas. 7Gostam de ser cumprimentados nas praças e ser chamados de mestres pelas pessoas. 8Vocês, porém, não deixem que os chamem de mestres, pois um só é o Mestre de vocês, e vocês todos são irmãos. 9Na terra, não chamem ninguém de Pai, pois um só é o Pai de vocês, o Celeste. 10Nem deixem que os chamem de líderes, pois um só é o Líder de vocês, o Messias.

11O maior de vocês será aquele que os serve. 12Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”. (Mt 23, 1-12)

As duras críticas de Jesus dirigidas aos fariseus e aos doutores da Lei, censura neles de modo direto, aquilo que pode se fazer presente em qualquer contexto de organização religiosa: a arrogância e a prepotência daqueles que pensam serem mais que os outros, por terem supostamente o conhecimento de Deus e de sua Palavra. O Nazareno alertava a comunidade comprometida com o Reino e com a Justiça de Deus, para que não tolerassem dominações, pois todos são irmãos e discípulos do mesmo Mestre.

Dando prosseguimento ao seu discurso, Jesus profere os chamados sete “ais” contra os escribas e fariseus, dirigindo-se a eles como “doutores da Lei e fariseus hipócritas” (Versículos 13-37), onde lhes faz diversas acusações, chegando a chamá-los de “guias cegos, sepulcros caiados, serpentes e raça de cobras venenosas”.

Não estamos aqui querendo enquadrar quem quer que seja a esta passagem do Evangelho. Estamos apenas fazendo uma leitura de fatos recentes à luz desta palavra. Sem a necessidade de grandes esforços, encontramos nos mais diversos meios de comunicação matérias jornalísticas sobre práticas que contrariam diretamente os ensinamentos do Mestre de Nazaré. E o pior, é que tais práticas são levadas a cabo em seu nome.

Não se vai longe o dia em que padres e leigos católicos donos ou dirigentes de TVs e Rádios participaram por videoconferência de uma reunião pública com a presidência da república, onde, sem nenhum pudor, ofereceram apoio ao governo em troca de anúncios estatais e outorgas para expandir suas redes de comunicação. De acordo com o noticiado à época, o grupo teria pedido ainda acesso ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação, à Agência nacional de Telecomunicações (Anatel) e principalmente à Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom). Não vamos aqui repetir as falas dos padres e demais participantes. Para quem quiser conhecer na íntegra o que foi dito e acordado na referida reunião, basta buscar na Internet. Este episódio não requer o aguardo de apurações para se saber a verdade. São fatos que se deram e foram registrados publicamente.

O que nos causa indignação, é saber que a prática do “toma lá, da cá” está sendo adotada por religiosos que gozam da confiança de um grande número de fiéis, que lhes ajudam através de doações mensais e compras de seus produtos: livros, CDs, DVDs entre outros, numa verdadeira mercantilização da fé.

Nos indignamos ainda mais com este “oportunismo” enxergado por estes religiosos e leigos, diante de tantas ações contrárias a vida de milhões de pessoas sendo postas em prática por meio da retirada de direitos dos mais pobres; da falta de investimentos em áreas cruciais como a educação e a saúde; do descaso com o qual o governo vem tratando a Pandemia do Covid 19, que até o momento já ceifou a vida de mais de 118 mil brasileiros/as; da falta de políticas públicas geradoras de emprego, isso para citar apenas algumas, praticadas pelo mesmo governo ao qual oferecem “apoio em troca de apoio”. Ou seja, estes “padres midiáticos” inescrupulosamente enxergaram no desgaste do governo uma oportunidade para “se darem bem”.

Mas este não foi o primeiro -e nem será o último, infelizmente-, ato repugnante praticado por padres, pastores, religiosos, religiosas, leigos e leigas de confissão Cristã, que enxergaram uma oportunidade de “negócios” com o atual governo. Não! Isso começou ainda na campanha eleitoral de 2018 quando, numa prática radicalmente contrária ao cristianismo, inúmeras pessoas pousaram de armas em punho ou fazendo “arminha” com as mãos, manifestando apoio à candidatura do atual presidente da república. No que se refere aos padres, religiosos/as e leigos/as de confissão Católica que adotaram esta conduta, vale dizer que contrariaram impetuosamente as orientações da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Ainda impactados por esses acontecimentos, outro de igual ou maior monta nos é dado a conhecer: as ocorrências envolvendo a Afipe – Associação Filhos do Pai Eterno, e outras duas associações criadas e presididas pelo Padre Robson de Oliveira Pereira, Reitor do Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade – GO. As acusações de supostas irregularidades praticadas pelos integrantes da Afipe e o padre, são assustadoras.

As investigações feitas pelo GAECO do Ministério Público de Goiás, apontam uma movimentação de cerca de 2 bilhões de reais nos últimos 10 anos. São acusações graves que devem ser investigadas. Mas por hora, são acusações. É preciso esperar e acompanhar as investigações e que elas sejam feitas na maior lisura.

Ninguém tem o direito de condenar alguém com base em “acusações”. Padre Robson, afirma não haver nenhuma irregularidade na Afipe e que tudo será esclarecido. Estamos rezando para que tudo seja de fato esclarecido. Já assistimos em nosso Brasil diversos acontecimentos deste porte, que condenaram antecipadamente pessoas inocentes. Portanto, tenhamos cautela em nosso julgamento.

O que temos a lamentar é que uma instituição ligada à Igreja, e apoiada por milhares de pessoas que colaboram financeiramente com seus projetos, esteja sendo investigada pelos motivos apresentados. Todas as vezes que uma Igreja Cristã, seja ela católica, protestante ou evangélica é colocada na berlinda como agora, é o cristianismo que sofre e que está sendo atingido direta e indiretamente. E isso, lamentamos profundamente.

Entretanto, mesmo entre cristãos, haverá aqueles que de imediato tentarão fazer uso deste acontecimento -como já o fizeram de outras vezes-, para denegrir a Igreja da qual os acusados fazem parte. A prudência nos ensina a aguardar a verdade dos fatos para formar juízo.

Cabe uma interrogação: será que o povo cristão ainda precisa de templos tão grandiosos para manifestarem sua fé? Já não são suficientes o que temos? Não está na hora de voltarmos nossas atenções para os verdadeiros Templos do Espírito Santo que somos nós, homens e mulheres feitos à imagem e semelhança de Deus?

Não se trata de acusar ou apontar o dedo àqueles que entendem ser preciso edificar paredes e ornamentá-las com as mais ricas obras de arte. Mas o que vale mais, uma construção suntuosa que exigiu o emprego de milhões, bilhões de reais, ou uma vida humana?

Em tempos onde a fome e a miséria estão se espalhando pelo mundo todo; onde 7 mil crianças menores de cinco anos morrem a cada dia por causas relacionadas à desnutrição; refugiados são postos em acampamentos que são mais campos de concentração; moradores de rua morrem de frio; não seria melhor aplicarmos todos os recursos que temos em prol das vidas humanas que podem ser salvas?

Precisamos de tantas rádios e TVs “evangelizadoras” diante de tanto sofrimento imposto aos mais pobres e marginalizados? Bom seria se tivéssemos uma grande rede de comunicação, que se preocupasse com a fome, a miséria e as injustiças sociais presentes no mundo todo e se colocassem a serviço do Reino denunciando-as e promovendo campanhas ininterruptas contra estas mazelas.

Imaginemos quantas vidas seriam salvas e quantas pessoas poderiam viver com a dignidade a que têm direito, se os recursos arrecadados para a construção de templos faraônicos ou para a manutenção de programas de rádio e TV veiculados diariamente pelas Igrejas e associações de cunho religioso fossem destinados a socorrer os que mais precisam. Para a casa de Deus, os templos, deve bastar o dízimo e as ofertas feitas espontaneamente pelos fiéis.

Por certo, alguns irão dizer: “existem outros recursos que poderiam ser usados para este fim”. É verdade, principalmente em se tratando de investimentos feitos pelo Estado. Um claro exemplo, são os recursos militares investidos pelas nações em 2019 que ultrapassaram 1.7 trilhão de dólares. O Brasil gastou 27,5 bilhões de dólares. Mas esta, a exemplo de outras, é uma situação que podemos reverter ao exercermos democraticamente nosso direito de votar e escolher quem nos governará.

No campo religioso, entendemos -e não renunciamos a isso-, que os investimentos devem ser feitos, todos eles, em defesa da vida, maior bem que nos foi dado. E quando falamos em vida, não estamos nos referindo meramente a sobreviver, mas em viver plenamente. “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo, 10,10). Como seguidores do Cristo, devemos levantar esta bandeira. Viver com dignidade significa ter onde morar, assistência médica de qualidade, ter onde estudar, ter alimento farto em na mesa, lazer e cultura dentre outros.

São muitos os Santos e Santas de Deus que dedicaram suas vidas em defesa dos mais necessitados renunciando a seus próprios confortos materiais. Dias atrás, celebramos a Páscoa de um desses Santos: Dom Pedro Casaldáliga, o “bispo do povo”. Dom Pedro fundou o Conselho Indigenista Missionário e a Comissão Pastoral da Terra e foi (e continuará sendo) símbolo internacional na defesa dos povos do campo, enfrentando os latifundiários e a ditadura militar. Sem pestanejar afirmava e ensinava: “Na dúvida, fique ao lado dos pobres”.

Por fim, queremos aqui manifestar nosso total apoio e solidariedade à luta da Comissão Pastoral da Terra – CPT do Estado de São Paulo, na pessoa do nosso querido Padre Antônio Naves, contra o desmonte, a extinção que o governo Dória, ao estilo Bolsonaro, está promovendo de bens públicos conquistados pelo povo.

A CPT acompanha a luta dos trabalhadores e trabalhadora da terra, bem como as Comunidades Quilombolas do Estado de São Paulo há cerca de 40 anos. Foram inúmeros assentamentos rurais e comunidade quilombolas que a CPT acompanha desde o início e que hoje vivem as três dimensões da vida defendidas e incentivadas pelo Papa Francisco em todo o mundo, que é a conquista da Terra, do Teto e do Trabalho para todos, além de produzirem alimentos saudáveis e zelar pela natureza num trabalho ecológico.

Assim, a CPT -e com ela outras instituições-, se posiciona contrariamente à extinção do ITESP – Instituto de Terras de São Paulo que existe há muitos anos e ajuda na construção de uma política agrária para o Estado. Acabar com o ITESP, é o mesmo que dizer não à Reforma Agrária, à Terra, ao Teto e ao Trabalho

Em sintonia com a CPT, nos posicionamos ao lado do Padre Naves, contrários ao projeto 529/2020. Não podemos admitir que haja, mais uma vez, a expulsão dos homens e das mulheres do campo e de suas comunidades, forçando-os a migrarem para as grandes cidades. Seria a promoção de um novo êxodo rural que faria aumentar ainda mais o número de pessoas vivendo em condições precárias e desumanas.

Aqui está um exemplo de notícia que não vimos ainda nas redes de comunicação que estiveram reunidas com o presidente da república. Aqui está um claro exemplo de políticas públicas nefastas praticadas contra os menos favorecidos, que poderiam ser discutidas e debatidas na rádios e TVs católicas. Sendo expulsos de suas terras, para onde irão? Onde encontrarão abrigo e apoio?

Para encerrar, vale recordar a atitude de Dom Paulo Evaristo Arns quando se tornou Arcebispo de São Paulo. Diante das condições precárias em que o povo da periferia estava subjugado, e do número de migrantes que chegavam cotidianamente à São Paulo, o Arcebispo tomou uma decisão inédita: vendeu o palácio episcopal a que tinha direito para morar, mudou-se para uma casa menor e com o dinheiro arrecadado com a venda, comprou 1200 terrenos na periferia e neles instalou centros comunitários de acolhida e apoio aos que precisassem.

Tenhamos nós cristãos, católicos ou não, a sensibilidade de viver o Evangelho de Cristo em espírito e em verdade, colocando-nos ao lado daqueles que Ele escolheu para estar junto: os pobres. Quem sabe, um dia poderemos lhe perguntar: “Senhor, quando foi que o vimos com fome e demos de comer, com sede e demos de beber, estrangeiro e te acolhemos, nu e te vestimos, doente ou na cadeia e fomos de visitar?” E para nossa alegria, ouviremos Dele: “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um desse meus irmãos pequeninos, foi a mim que o fizeram”. (Mt 25, 34-40).

Shalom!

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