Memória é utopia: mulheres evangélicas na oposição à ditadura

'Vale ressaltar este ponto: trazer viva a memória para que o passado fale ao presente e ao futuro', escreve Magali Cunha

(Foto: Arquivo Nacional/ Correio da Manhã)

(Foto: Arquivo Nacional/ Correio da Manhã)

Diálogos da Fé

Março chegou e com ele duas datas significativas: o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, e os 57 anos do golpe de 1964, que deu início a uma ditadura no Brasil que durou 21 anos (31 de março). Neste artigo, quero unir as duas datas e recuperar memórias cada vez mais relevantes por conta dos duros tempos que vivemos, com ameaça à nossa frágil democracia.

Vale ressaltar este ponto: trazer viva a memória para que o passado fale ao presente e ao futuro. Lembrar ajuda a animar e avaliar o presente e a projetar o futuro. Lembrar é também atribuir novo sentido ao que deu certo e corrigir o que não deu.

Por isso não canso de repetir o que diz o teólogo Rubem Alves: “a memória tem uma função subversiva. (…) Talvez que a memória das esperanças já mortas seja capaz de trazê-las de novo à vida, de forma que o passado se transforme em profecia e a visão do paraíso perdido dê à luz a expectativa de uma utopia a ser conquistada” (em Dogmatismo e Tolerância, Ed. Loyola, 2004).

Promover o esquecimento é apagar as referências do passado para que elas não impeçam a aceitação de novas formas impostas por quem domina processos sociais.

Assim aconteceu com as igrejas evangélicas. A história oficial silenciou por muito tempo sobre o papel das igrejas evangélicas tanto no apoio quanto na oposição à ditadura militar, deixando em evidência apenas Igreja Católica, quando se tratava da memória dos cristãos no período.

Pesquisas acadêmicas e, mais recentemente, o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV, volume II, texto 4), trouxeram à tona episódios e nomes de perpetradores e cúmplices das atrocidades cometidas pelo regime militar naqueles “anos de chumbo” e também memórias de muita gente comprometida com a fé cristã aplicada à vida coletiva em nome da paz com justiça.

O relatório da CNV cita 29 membros de igrejas evangélicas (metodista, presbiteriana, luterana e Assembleia de Deus), sendo 20 prisões arbitrárias, dez com a aplicação de terríveis torturas, sete mortos e desaparecidos e dois missionários expulsos. Entre estes 29 evangélicos estão seis mulheres: Clara Amélia Evangelista, Ana Maria Estêvão, Idinaura Aparecida Marques e Heleny Telles Ferreira Guariba, lideranças jovens da Igreja Metodista; Zenaide Machado de Oliveira, liderança de juventude da Igreja Presbiteriana Independente; Eliana Rolemberg, da Igreja Luterana, líder de movimento de juventude ecumênica.

Todas estas mulheres tiveram seus corpos cruelmente manipulados por agentes do Estado, por lutarem por justiça em oposição ao sistema da ditadura. Como contou Ana Maria Estêvão em depoimento à CNV:

Fiquei nua no pau de arara, levei choque na vagina. Recebi muita ameaça de que iriam me estuprar, não chegaram a cumprir. Os primeiros três dias foram mais fortes. Nos outros dias, a gente ouvia os gritos, as ameaças… você vê o chão todo sujo de sangue… nos amordaçavam para não gritarmos quando levávamos o choque.

Levei vários tapas no rosto. O capitão Gaeta depois foi lá embaixo na minha cela dizer que tinha batido na gente porque a gente estava tendo ataque histérico. Ainda vinha se justificar. “Vocês não eram tão quentes assim na esquerda? Mesmo assim a gente teve que ser violento, porque vocês estavam tendo ataque histérico, começava a gritar”. E isso foi o que mais me ofendeu… claro… ser pendurada, ser obrigada a ficar nua, levar choque na vagina, tudo isto é muito humilhante, mas dizer que foi porque a gente tinha uma crise histérica, é uma coisa para te ofender como mulher (CNV, volume II, texto 4, p. 182-183 ).

Uma destas mulheres, a jovem professora de 30 anos, Heleny Guariba, acabou tendo a vida interrompida pela ditadura militar. O relatório da CNV indica que apesar do silêncio e da negativa sistemática das autoridades, as provas da prisão ilegal e do desaparecimento forçado de Heleny Guariba foram coletadas. Ela teria sido levada para a casa clandestina de Petrópolis (RJ), conhecida como “Casa da Morte” e lá teria sido torturada durante três dias, inclusive com choques elétricos na vagina, relatou a sobrevivente Inês Etienne à CNV.

Além de sofrerem nas mãos de cruéis agentes do Estado, estas mulheres que atuaram no espaço público, inspiradas pela fé cristã com que foram formadas, padeceram nas suas igrejas. Lideranças com visões de fé opostas, além de calarem sobre as torturas, as condenaram, expurgaram, discriminaram e apagaram sua memória nos espaços eclesiásticos. Quem são Clara Amélia, Idinaura, Ana Maria, Heleny na Igreja Metodista? Silêncio. Quem é Zenaide e Eliana nas Igrejas Presbiteriana Independente e Luterana? Esquecimento.

A promoção de amnésia social é típica de espaços autoritários, com o descarte da memória que anima e projeta a potência que existe nas pessoas. É assim que a história passa a ser frequentemente oficializada e contada a partir da perspectiva dos vencedores e líderes, deixando a memória das minorias, ou dos vencidos ou liderados relegada ao esquecimento.

A memória destas seis mulheres evangélicas está viva e é alimento para o presente das mulheres que ainda hoje, mais de 50 anos depois, ainda atuam no Brasil, pela justiça com paz, pela defesa da democracia, em nome de sua fé. Não são poucas e ainda são alvos de cruéis processos autoritários que as desqualificam e humilham. Porém não desistem! Elas estão em igrejas locais buscando atuar no empoderamento de minorias, estão nos movimentos evangélicos progressistas os mais diversos, estão em organismos do movimento ecumênico, estão na escolas e universidades, em projetos nas mais diferentes frentes sociais, participam de partidos políticos, processos eleitorais e ocupam cargos públicos.

Neste março de 2021, vamos manter viva esta memória, afinal, o passado ainda está em nós. E ele está sendo reconstruído por um Brasil que quer curar as feridas, cicatrizar as fendas abertas nos corpos e na alma. Para isso é preciso buscar a verdade e fazer a justiça fluir como um rio.

A ditadura não acabou. Ela foi silenciada e está introjetada: ainda existe nas instituições e em suas práticas. Por isso o autoritarismo ainda é realidade. Por isso ainda há tortura em delegacias, quartéis, prisões, perseguição nas igrejas e governantes que promovem a morte. À vista disso, mulheres ainda são humilhadas na sua condição nestes espaços.

É neste sentido que a memória nunca deve ser vista apenas como revisão ou recuperação do passado. A memória precisa ser vista também como utopia. É o olhar para o passado como algo que alimenta o presente e o futuro. Especialmente nestes tempos terríveis que vivemos no Brasil.

Clara Amélia Evangelista, Idinaura Marques, Ana Mari Estevão, Heleny Guariba, Zenaide Machado, Eliana Rolemberg: presentes!

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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