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Manifesto pelo direito ao sagrado

Diálogos da Fé,Opinião

Questão 202: Quando errante, que prefere o Espírito; encarnar no corpo de um homem, ou no de uma mulher?  Isso pouco lhe importa. O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar.

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos

Vivemos tempos difíceis para os sonhadores, em que é necessário defender o óbvio, disputar narrativas e resgatar conceitos e valores do espiritismo, atualmente adormecidos ou propositalmente apagados por aqueles que querem fazer da doutrina espírita uma religião dogmática, vazia de interpretação e semelhante a tantas outras que, afastando-se de seus princípios, excluem, segregam e oprimem.

Segundo o Relatório de Violência Homofóbica publicado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, os transgêneros e os intersexos são aqueles que tem os direitos mais violados na comunidade LGBTI+. Sofrem mais violência, psicológica/simbólica (injúrias, xingamentos, humilhações, expulsões) ou agressões físicas (espancamentos, mutilações e assassinatos). Em 2018, ocorreram 163 assassinatos de trans.

Esta é uma semana de luta, marcada por questionamentos à invisibilidade histórica que travestis, mulheres e homens transexuais, enfrentam no Brasil em relação aos seus direitos.

De lá para cá, conquistas foram obtidas. Uma das mais importantes foi o decreto presidencial, publicado em abril de 2016, que autorizou o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal.

Um exemplo da importância desse direito é a evasão escolar. Durante a vida estudantil, quando não são reconhecidas por suas identidades e o tratamento pelo nome social lhes é negado, a evasão torna-se uma constante.

Sem escolaridade, e muitas vezes sem o apoio familiar, o acesso ao mercado formal de trabalho se torna mais difícil, necessitando recorrer, em muitos casos, à prostituição e à exploração sexual comercial.

No que diz respeito à saúde, também não há garantias efetivas de acompanhamento médico e psicológico adequado.

Já a religião, a manifestação de sua fé, de acesso ao sagrado, também tem sido um espaço negado aos trans, por não se enquadrarem na norma imposta pela sociedade hétero-cis-normativa.

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Em determinados grupos, para poder ter aceitação e continuidade no compartilhamento do espaço religioso, muitos tendem a assumir identidades, comportamentos e posturas não condizentes com seu modo de ser, potencializando o surgimento de quadros de adoecimento mental, como transtornos psicológicos (quadros depressivos, doenças autoimunes) e até mesmo a morte (assassinatos ou suicídios).

Contra tudo isso, nós, espíritas, de diferentes idades, localidades, identidades de gêneros e orientações sexuais, nesta semana da Visibilidade Trans:

1) afirmamos o nosso profundo respeito e o nosso compromisso em contribuir para se assegurar a dignidade de travestis, mulheres e homens transexuais e intersexos, por meio do reconhecimento da identidade de gênero e da despatologização das identidades trans e intersexos;

2) repudiamos qualquer tipo de preconceito e discriminação transfóbica dentro das casas espíritas, utilizando-se de argumentos pseudo-religiosos ou mediúnicos para oprimir, violentar, excluir e estigmatizar a população trans e intersexo;

3) acreditamos que somos espíritos imortais, surgidos a partir de um princípio inteligente; sendo o espírito um ser individualizado, vive, cada um, as experiências necessárias à sua evolução. Nesse sentido, cada indivíduo tem sua sexualidade e identidade de gênero, não havendo, inclusive, uma homogeneização em nenhuma identidade de gênero, nem mesmo entre as identidades cis;

4) acreditamos que as inúmeras reencarnações permitem ao espírito renascer em um corpo masculino, feminino ou intersexo, como parte do processo de aprendizagem espiritual;

5) para o espiritismo, os espíritos desencarnados não têm uma identidade de gênero determinante, podendo encarnar como homens, mulheres ou intersexo;

6) quando progredimos, cada identidade de gênero, assim como cada posição social, oferece condições e novas oportunidades de adquirirmos experiência, pois ao se encarnar em apenas uma identidade de gênero, só poderíamos ter as experiências relativas a essa identidade em questão;

Acreditamos que o espiritismo pode ter papel fundamental na superação das intolerâncias, cumprindo sua missão de agente transformador, encampando discursos de acolhimento e amor, respeitando a diversidade, respeitando as identidades de gênero e apoiando aqueles que procurarem os centros e comunidades espíritas.

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Desta forma, estabeleceremos uma sociedade mais justa e mais diversa. Uma casa comum onde todos possam viver bem, tendo acesso pleno aos seus direitos, livres de preconceitos e discriminações.

Brasil, 29 de janeiro de 2019

Assinam:

Associação Brasileira Espírita de Direitos Humanos e Cultura de Paz – AbrePaz

Associação Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais – Aephus

Coletivo de Estudos Espiritismo e Justiça Social – Cejus

Coletivo Girassóis

Diversidade Espírita

Espiritismo e Direitos Humanos

Feminismo a luz do Espiritismo

Um gay espírita

3ª Revelação

 

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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