Magali Cunha: A propósito da homotransfobia gospel dos batistas da Lagoinha

'A moralidade ressentida impede que cristãos reconheçam a homofobia como uma afronta aos preceitos da fé cristã'

Entidade vai processar Ana Paula Valadão por crime de LGBTfobia. Foto: Reprodução.

Um vídeo protagonizado por Ana Paula Valadão, cantora e pastora da Igreja Batista da Lagoinha, uma das donas da marca Diante do Trono, viralizou nas redes no último final de semana. Era o trecho de uma entrevista apresentada por ela na Rede Super (de TV, da igreja), em 2016.

Sob a concordância do entrevistado, o cantor Asaph Borba, Ana Paula Valadão se referiu à homotransafetividade para condená-la com conteúdo falso e pânico moral.

“Muita gente acha que isso é normal. Isso não é normal. Deus criou o homem e a mulher e é assim que nós cremos. Qualquer outra opção sexual é uma escolha do livre arbítrio do ser humano. E qualquer escolha leva a consequências. E a Bíblia chama de qualquer escolha contrária ao que Deus determinou como ideal, como ele nos criou para ser, chama de pecado. E o pecado tem uma consequência que é a morte. (…). Taí a AIDS para mostrar que a união sexual entre dois homens causa uma enfermidade que leva à morte e contamina as mulheres, enfim… Não é o ideal de Deus”.

A controvérsia que o vídeo causou nas mídias sociais deve-se ao fato de Ana Paula Valadão ter ressuscitado o discurso de que a AIDS é um “câncer gay”, que permeou os anos 80 e foi, há tempos, cientificamente refutado. Vale refletir que a retomada deliberada de uma afirmação reconhecidamente falsa é recurso de criação de pânico moral que joga com a ignorância de pessoas quanto a um tema.

A circulação do vídeo ocorreu em sequência a postagem em mídia social feita pelo também pastor e cantor, irmão de Ana Paula, André Valadão, em 8 de setembro. Ao responder a um seguidor sobre o que a igreja deveria fazer com dois membros, “rapazes que estão namorando”, Valadão respondeu: “Entendi. São gays. A igreja tem um princípio bíblico. E a prática homossexual é considerada pecado. Eles podem ir para um clube gay ou coisa assim. Mas na igreja não dá. Esta prática não condiz com a vida da igreja. Tem muitos lugares que gays podem viver sem qualquer forma de constrangimento. Mas na igreja é um lugar para quem quer viver princípios bíblicos. Não é sobre expulsar. É sobre entender o lugar de cada um”.


A OAB-MG afirmou que apurará a possibilidade de enquadramento da postagem de André Valadão como homotransfobia. Da mesma forma, a Aliança LGBTI+ assumiu que processará Ana Paula Valadão pelo mesmo motivo. Em maio de 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu enquadrar a homotransfobia na Lei de Racismo, que prevê de 1 a 5 anos de prisão, e declarou o Poder Legislativo omisso por não ter permitido a votação de uma lei específica para a proteção da comunidade LGBTI+.

A omissão do Poder Legislativo deve-se ao fundamentalismo político-religioso que marca a atuação das Bancadas Evangélica e Católica, que trouxeram para si, com mais força a partir de 2010, o mandato da defesa da família e da moral cristã contra plataformas dos movimentos feministas e de homossexuais e dos grupos de direitos humanos.

No entanto, tenhamos a honestidade de reconhecer que a condenação religiosa da homotransafetividade não é exclusividade da família Valadão e de políticos cristãos. Ela é marca histórica da visão de mundo fundamentalista fortemente presente entre evangélicos e católicos, que hoje ganha dimensão política. Ademais, está ancorada numa leitura da Bíblia que não é literal como se apregoa, mas que é oportunista: seleciona textos de forma descontextualizada e instrumentalizada, para justificar o argumento de que pessoas LGBTI+ são pecadoras (que contrariam supostos preceitos cristãos).

A relação com a política dá-se pela intensificação da oposição aos direitos LGBTI+ no Brasil. Os avanços nas conquistas de direitos desta população nos anos 2.000, por conta de políticas dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, e em ações no âmbito do Judiciário, garantiram a estes cidadãos e cidadãs um tratamento digno em várias questões fundamentais para a vida.

As conquistas incomodaram os defensores da cultura patriarcal heteronormativa e provocaram um forte reacionarismo da parte de lideranças religiosas católicas e evangélicas e de políticos das bancadas religiosas. A cientista política Wendy Brown chama isto de moralidade ressentida, um sentimento que está na cultura e é trazido para a religião, revelador de frustrações e da tentativa da retomada do que um dia vigorou. É um ressentimento branco e masculino, de indivíduos e grupos que se sentem enfraquecidos por elementos produzidos pela democracia, pela ascensão da visibilidade de mulheres e de LGBTI+ nas ações pelos direitos de gênero, por serem confrontados quando expõem posições machistas, homofóbicas ou racistas.

A moralidade ressentida foi base para uma campanha ideológica que classifica todas as ações que reconhecem a homoafetividade como algo justo nas relações humanas, e parte das transformações que a organização das famílias pode viver, como “ideologia de gênero”.

Esta falsa noção de “ideologia de gênero” criou a ideia da “imposição de uma ditadura gay” que deve ser combatida. Gays seriam, nesta lógica, uma anomalia e como tal não devem ter direitos. Neste pacote está a oposição à criminalização da homotransfobia, pois querem garantir que a condenação da homotransafetividade e a imposição da heteronormatividade sejam livremente praticadas contra cidadãos e cidadãs LGBTI+.

Vale ressaltar que a homotransfobia não é simplesmente uma postura de condenação de quem tem orientação sexual diferente e que classifica a homotransafetividade como pecado a ser evitado. É uma forma de intolerância sexual que gera ações violentas, físicas ou psicológicas, como a praticada pela família Valadão e também por expressivo número de religiosos.

A moralidade ressentida impede que cristãos sejam coerentes e reconheçam a homofobia e todas as formas de intolerância que geram violência, como uma afronta aos preceitos da fé cristã, baseados na misericórdia, na paz, no amor incondicional, na inclusão.

É preciso ressaltar, no entanto, que isto não é unanimidade. É crescente o número de lideranças, denominações e organizações cristãs que acompanham os avanços sociais e reconhecem pessoas homoafetivas como membros com plenos direitos. Movimentos como o “Jesus Cura a Homofobia” e “Evangélicxs pela diversidade”, se espalham pelo país. Ainda neste contexto emergem as chamadas “igrejas inclusivas”, voltadas para acolher a população LGBTI+ e suas famílias, quase todas lideradas por pastores e pastoras homotransafetivas.

Isto deixa nítido que lideranças como a família Valadão ou políticos católicos e evangélicos não têm o monopólio da religião e da orientação da fé cristã. Pelo contrário, tentam, mas não conseguem controlar as mudanças permanentes que o mundo vive. Nele, nem o ser humano e nem a família estão sob ameaça, estão sob transformação, o que exige “renovação da mente, como culto racional” (Romanos 12). O que importa, acima de tudo, é o direito à vida em abundância (João 10) e o amplo acesso ao Cristo que acolhe todas as pessoas, sem distinção.

 

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Magali Cunha

Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.