LGBTs com deficiência: um debate também para o campo da fé

'Reivindicar nossas existências no Movimento Espírita é uma reparação histórica'

Foto: iStock

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Diálogos da Fé

Estamos na semana do Dia do Orgulho LGBTQI (28 de junho), data que faz de junho o mês em que lembramos, celebramos e pautamos a diversidade sexual e gênero por onde estamos, incluindo os espaços de fé e os Centros Espíritas. Todo este movimento de celebrar a diversidade precisa estar atento à pluralidade existente na nossa diversidade.

Hoje, o meu convite é falar sobre o orgulho das pessoas com deficiência lésbicas, gays, bissexuais, trans, travestis, não bináries, intesexos, queer, assexuais, pansexuais e de outras orientações sexuais e identidades de gênero fora e dentro do movimento espírita.

Sim, nós pessoas com deficiência temos sexualidade, orientação sexual, identidade de gênero e religião também.

Nossos corpos (tanto das PcD como das LGBTQIAP+) fogem à norma social cishetenormativa sem deficiência, não são comuns pelas ruas E sofrem opressões, exclusões, patologização. Entretanto, a construção de pautas e a luta por direitos, inclusão e autonomia não seguem juntas.

Pessoas com deficiência LGBTQIAP+ ainda buscam os direitos básicos do afeto, da atração e do desejo correspondentes, pois até hoje sofrem com a negação de sua sexualidade, por não serem vistas como desejáveis, principalmente em uma comunidade que vive sob a sombra do que faz parte do padrão de beleza. Do outro lado, está a objetificação de corpos PcD como fetiche.

O segundo aspecto, já com certo avanço para as LGBTQIAP+, é o de acesso a qualquer espaço ou instituição que desejam ir ou estar, pois o preconceito, a ausência de condições arquitetônicas e comunicação, e a falta de oportunidades geram essa situação compulsória.

Estamos, então, como o “outro do outro” (pegando emprestada a categoria cunhada por Grada Kilomba para falar das mulheres negras). Essa posição nos coloca em um lugar de mais difícil reciprocidade ou ainda a alocação em um não lugar, pois deixamos de ser considerados, incluídos e representados.

As nossas existências no contexto espírita hegemônico tudo tem a ver com o que já foi relatado acima. Podemos dizer que somos uma contradição nos Centros que adentramos. De um lado, recebemos a assistência e somos vistos como alguém que veio a ensinar algo, e do outro a aversão e o desprezo. A inclusão de nossos corpos fica ainda mais difícil, pois não temos como deixar do lado de fora uma das duas identidades e participar das atividades como assistência ou pessoa voluntária, e não falar sobre o nosso conjunto.

O que, novamente, nos une são as tentativas alheias de buscarem explicações em débitos de vidas passadas, expiações para as nossas existências atuais em corpos moldados para encarnarem como LGBTQIAP+ e terem uma deficiência; além, claro, da cura, pois nossos corpos com deficiência sempre são reduzidos como os que necessitam de cura e precisam de sublimar nossos desejos.

Reivindicar nossas existências no Movimento Espírita é uma reparação histórica, pois sabemos o quanto que as religiões contribuem para a manutenção de estigmas, o estímulo ao capacitismo (preconceito contra as PcD) e à LGBTfobia e necessitam reconhecer a dignidade das pessoas com deficiência e das LGBTQIAP+.

Trilhamos até aqui para demonstrar o quão complexo, desafiador e instigante é falar sobre a construção do orgulho de ser uma pessoa LGBTQIA+ com deficiência espírita. Utilizamos “Orgulho” como a afirmação dupla de ser quem somos, em oposição à “vergonha”. A construção desse estado é diária, de muita insistência para nos colocar como um espírita LGBTQIAP+ com deficiência e afirmar essa tríade que faz parte de quem sou e está comigo por onde for.

Contra esse cenário, estamos construindo um movimento de afirmação das nossas vozes e temáticas, feitas por pessoas LGBTQIAP+ sem e com deficiência, pois o acreditamos na potencialidade das nossas contribuições para o Movimento Espírita a partir de nossas vivências diversas e plurais; e do quanto o Consolador Prometido pode acolher tantas pessoas como nós e que se identificam com o Espiritismo.

Temos muito o que somar no Movimento Espírita para uma vivência mais inclusiva, acessível, diversa, plural e com mais respeito, empatia, amor, justiça, tudo o que está posto por Jesus e nas Obras Básicas. É por essa via que conseguiremos, enquanto espíritas habitantes do “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, contribuir para deixar de ser o país que mais mata pessoas LGBTQIAP+, a garantia da aplicação dos nossos direitos, a vivência ampla das pessoas com deficiência e a tão almejada transição de estágio evolutivo do planeta para mundo regenerador.

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Jader Arantes é um homem com deficiência e gay, além de jornalista, ativista dos direitos humanos, voluntário da Mocidade Espírita e idealizador da Espíritas Plurais

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