Lá se foi um pastor de verdade! Um tributo a Zwinglio Mota Dias

A morte dele é uma enorme perda para as igrejas que honram os princípios cristãos e para o movimento ecumênico

Foto: Centro de estudos bíblicos

Foto: Centro de estudos bíblicos

Diálogos da Fé

Temos que admitir que a imagem pública dos pastores e pastoras no Brasil 2021 não é das melhores. A aliança de líderes evangélicos com Jair Bolsonaro e a atuação iníqua de alguns deles no governo federal, em ministérios importantes como Educação, Justiça e Direitos Humanos, intensificaram as críticas. Isso se soma à defesa e à propaganda intransigente que vários deles fazem do ex-capitão e aos múltiplos escândalos a partir de ações antiéticas, ilegais e de promoção do ódio.

No entanto, tenho insistido neste espaço que esta não é a regra para o segmento religioso tão amplo e plural como o evangélico. Qualquer generalização e homogeneização do grupo, estabelecendo como padrão as personagens descritas acima, não é apenas injusta como é uma demonstração de ignorância ou de má-fé.

Digo isso pois não são poucos os líderes evangélicos que estão entre aquelas pessoas em que faltam palavras para expressar sua relevância no espaço público brasileiro e o seu legado ao mundo. Uma delas é o pastor e teólogo presbiteriano Zwinglio Mota Dias (1941-2021), que nos deixou no último 19 de novembro, vítima de um câncer, contra o qual lutou e foi vencedor por um bom tempo.

Mineiro de Passa Quatro, ganhou o nome considerado estranho por muita gente por ter nascido em uma família de presbiterianos que decidiu homenagear o pai de sua tradição religiosa. Ulrich Zwinglio foi o suíço que originou a reforma protestante em seus país no século 16.

O Zwinglio da Idade Média nasceu dias antes do reformador mais famoso Martin Luther e se tornou sacerdote em 1506. Formado no humanismo, Ulrich Zwinglio atuou como capelão de presos e em ações humanitárias. O sacerdote católico construiu ideias novas a partir da vida. Falou sobre a salvação pela fé e a confissão, entendendo que somente Deus perdoa pecados, e também contra o celibato, conseguindo amplo apoio popular. Em 1522, renunciou ao sacerdócio católico e se tornou, na cidade de Zurique, um pastor protestante. Ulrich Zwinglio envolveu-se profundamente com atividades políticas. Acabou sendo morto aos 47 anos, quando, em 1531, na Guerra Civil entre católicos e protestantes, Zurique foi atacada. Há registros de que suas últimas palavras foram: “Eles podem matar o corpo, mas não a alma”.

Zwinglio nunca desistiu de lutar pela democracia e a justiça. Um exemplo de perseverança, resistência e compromisso para todas nós!

A família do Zwinglio brasileiro decidiu homenagear o mártir que, antes do famoso João Calvino, está na origem do presbiterianismo dando-lhe o seu nome. Zwinglio Mota Dias sempre contava com humor quando tinha que corrigir os erros de pronúncia e de redação do seu nome e lidar com as piadas que era forçado a ouvir. Ele sabia também que seria sempre o último da chamada na escola. No entanto, se orgulhava de carregar no registro civil a memória do religioso humanista, engajado social e politicamente, considerado “mais protestante” do que Lutero. E os 80 anos de vida dele, de fato, honraram essa memória.

Foi no Curso Científico (Ensino Médio), em um colégio interno presbiteriano, o Instituto Gammon (Lavras, MG), aos 17 anos, que Zwinglio descobriu sua vocação pastoral e teológica. Aqui reproduzo um trecho da entrevista que ele me concedeu para a dissertação de Mestrado em Memória Social que defendi em 1997.

“O Rubem Alves tinha acabado de terminar o seu curso (de Teologia) em Campinas e foi ser co-pastor em Lavras. Era professor de Filosofia e Religião no Curso Científico. Ele começou com uma outra perspectiva de teologia, religião, que encantou todo mundo. Eu refiz todo o caminho, voltei a frequentar a igreja [Zwinglio havia dito que tinha desistido no laço com a igreja e decidido estudar engenharia]. Foi uma espécie de novo nascimento. Aí comecei a estudar Filosofia, ler mais, me apaixonei e entrei para o seminário, em 1960 [aos 19 anos].

Era um período de muita ebulição no País – em 1961 houve a renúncia de Jânio. Eu vinha de uma família conservadora, tradicional, que estava com a UDN. Quando eu cheguei no seminário em Campinas já tinha uma perspectiva ecumênica sem saber que tinha. Na época nem se usava a palavra ‘Ecumenismo’. O Richard Shaull [outro destacado teólogo que teve que sair do Brasil durante a ditadura] já tinha deixado o seminário mas tive uma ligação maior com ele por causa do movimento estudantil cristão, que naquela época estava no auge.

A gente [do seminário de Campinas] fez parte da União Estadual Estudantil de São Paulo (UEE). Nosso centro acadêmico participava da UNE e todas as temáticas que a UNE levantava nós discutíamos no seminário. Eu já cheguei no seminário com uma formação diferente. Eu tinha mais dois amigos de Lavras que foram para o seminário também e aí já éramos três levantando essas discussões lá”.

De Campinas, Zwinglio se transferiu para a então Facultad Evangelica de Teologia, de Buenos Aires (Argentina), que se tornou o Instituto Superior de Estúdios Teológicos (ISEDET), onde, em 1963, se graduou em Teologia. De volta ao Brasil, Zwinglio tornou-se pastor da Igreja Presbiteriana (IPB), em Minas Gerais, com atividade intensa no movimento ecumênico. Ele participou da formação do Centro Ecumênico de Informação (CEI), em 1965, com remanescentes da Confederação Evangélica do Brasil, que havia sido fechada na ditadura. Da experiência nasceu o Instituto de Estudos da Religião (ISER, 1970) e o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI, 1974), dos quais Zwinglio foi um dos fundadores, tendo sido secretário-geral do CEDI até 1994.

Em 1970, Zwinglio apoiou a fundação da Igreja Presbiteriana na favela da Vila Proletária da Penha, no Rio de Janeiro. Porém, foi preso pela ditadura e sofreu tortura para denunciar o irmão, Ivan Mota Dias, liderança estudantil. Depois de resistir, solto, ele deixou o País para salvar a vida, em 1971, tendo permanecido por dois anos em Montevidéu (Uruguai). Lá, atuou na organização ecumênica ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina) e colaborou na célebre revista ecumênica/protestante “Cristianismo y Sociedad”, primeira fonte da Teologia da Libertação, juntando-se a grandes nomes do ecumenismo latino-americano. Também trabalhou como pastor da Igreja Metodista do Uruguai neste período de exílio.

Sobre a repressão da ditadura militar a protestantes no Brasil, Zwinglio deixou duas obras: o vídeo-documentário “Muros e Pontes: Memória Protestante na Ditadura”, e o livro “Memórias Ecumênicas Protestantes. Os Protestantes e a Ditadura: colaboração e resistência”, que podem ser baixados gratuitamente no site do projeto Protestantes, Ditadura e Democracia, de Koinoinia Presença Ecumênica e Serviço, herdeira do CEDI, também fundada por Zwinglio Dias.

Entre 1973 e 1978, Zwinglio fez estudos de Doutoramento em Teologia pela Universidade de Hamburgo (Alemanha), e internacionalizou sua atuação ecumênica para além da América Latina. De volta ao Brasil, nos anos 1980, Zwinglio foi professor no Seminário Teológico da Igreja Metodista no Rio de Janeiro e dirigiu a “Cristianismo y Sociedad”. Retomou o pastoreio da Igreja Presbiteriana da Vila Proletária da Penha, como pastor voluntário, sem remuneração, filiada, em 1983, à nova denominação, Igreja Presbiteriana Unida (IPU), uma dissidência crítica ao alinhamento autoritário da IPB.

O pastorado de Zwinglio na Vila da Penha é o tema central do livro “Reencantamentos da Graça numa Favela Carioca – Memórias e Vivências de Zwinglio Mota Dias”, lançado há algumas semanas, pela Editora Siano, em uma parceria da IPU com Koinonia. Mesmo já fragilizado, ele ainda conseguiu participar do lançamento. Era pastor emérito da IPU, mas desde 2017 integrava a Secretaria de Educação Teológica da igreja.

Ao lado de suas atividades pastorais e ecumênicas no Brasil, Zwinglio coordenou o grupo consultivo do “Programa de Missão Rural e Urbana” do Conselho Mundial de Igrejas (1984-1992); foi professor-visitante do McCormick Theological Seminary, em Chicago (Estados Unidos, 1993), e do Emmanuel College da Victory University de Toronto (Canadá, 1995).

Tornou-se professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde atuou em dois períodos: de 1982 a 1989 e de 1998 a 2010, quando se aposentou. Na época, foi homenageado com um dossiê na revista Numen sobre a sua obra. Zwinglio continuou colaborando com a universidade até o fim dos seus dias.

Suas obras teológicas são muitas entre livros, artigos científicos e textos em revistas ecumênicas, entre as quais Tempo e Presença, da qual também foi editor. Cito aqui como destaque: “Discussão sobre a Igreja”, publicado no final dos anos 70 pela Editora Vozes e republicado em 2013 pela Fonte Editorial.

Tive o privilégio de conviver com Zwinglio quando trabalhei no CEDI e depois em Koinonia. Aprendi muito com ele e seu compromisso com a fé cristã e o movimento ecumênico, além de usufruir do seu bom humor e sua capacidade conciliadora. Tive ainda a honra de tê-lo na banca do Mestrado em Memória Social e Documento, que avaliou minha dissertação sobre os evangélicos que resistiram à ditadura, e, depois, de participar em bancas de estudantes orientados por ele na UFJF. Em 2020, pela primeira vez, estive em uma banca ao lado dele, na Fundação Getúlio Vargas, o que deixou muito honrada.

A morte de Zwinglio Mota Dias é uma enorme perda para as igrejas que honram os princípios cristãos e para o movimento ecumênico nacional e internacional. Do alto de sua relevância intelectual e como liderança ecumênica, nunca deixou de viver o compromisso com as pessoas empobrecidas, com a gente simples que tem a sabedoria do Evangelho. Fez parte também do extenso grupo de brasileiros perseguidos pelas ditaduras militar e eclesiástica, que nunca pôde enterrar um familiar querido, o seu jovem irmão Ivan, que os militares e apoiadores fizeram desaparecer.

Zwinglio nunca desistiu de lutar pela democracia e a justiça. Um exemplo de perseverança, resistência e compromisso para todas nós! Numa paráfrase da declaração do reformador que lhe deu nome e identidade, “a morte pode levar o corpo, mas não a alma”.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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