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Kardec, o camponês que se tornou o bom senso encarnado

Diálogos da Fé

“Nascer, Viver, Morrer, Renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a Lei”
 Allan Kardec 

Neste mês de outubro comemora-se o nascimento do humanista e educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, um velho conhecido – dos espiritas e do povo brasileiro – por Allan Kardec (nome celta de vidas passadas). Foi ele quem sistematizou os ensinamentos dos espíritos, surgindo daí uma nova doutrina, o espiritismo.

Assim como Jesus não era cristão, Kardec não era espírita, tampouco “kardecista”, mas católico, embora tenha sido criado no protestantismo. O termo kardecista, aliás se popularizou no Brasil como forma dos espíritas mais radicais e ortodoxos se distanciarem das religiões de matriz africana, que também acreditam no intercâmbio com o mundo espiritual.

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O espiritismo chegou no Brasil em 1860, sofrendo, desde o início, grande preconceito. Para se ter uma ideia, o Código Penal de 1890, classificava-o como crime:

“Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilegios, usar de talismans e cartomancias para despertar sentimentos de odio ou amor, inculcar cura de molestias curaveis ou incuraveis, emfim, para fascinar e subjugar a credulidade pública [art. 157, na grafia da época]” era crime punível com “prisão cellular por um a seis mezes e multa de 100$000 a 500$000 [100 mil a 500 mil réis]”.

Os primeiros centros espíritas surgiram em meados de 1865, quatro anos antes do desencarne de Kardec. A reivindicação do caráter religioso do espiritismo durante a primeira República se deu, justamente, para sua legitimação social, pois esse caráter religioso não era algo definido desde o início do espiritismo, nem na França e muito menos no Brasil.

Rivail nasceu em 1804 na cidade industrial de Lyon. O que poucos sabem é que ele nasceu naquela cidade porque sua mãe, Dona Jeanne, queria ter um acompanhamento médico adequado. O pequeno Kardec, que mais tarde se tornaria o maior expoente da doutrina espírita no mundo, nasceu em uma casa de águas minerais artificiais com fins medicinais, local destinado para o tratamento de problemas respiratórios, de coluna e também para gestações difíceis, como foi o seu caso.

Logo após o nascimento do garoto, sua família voltou para a cidade natal, Bourg-en-Bresse, no departamento de Ain, onde passou seus primeiros anos de vida cercado por muita natureza e diversidade, inclusive cultural, junto aos povos tradicionais rurais. Um povo de rica tradição, língua nacional (dialeto próprio), arquitetura, hábitos, vestuários, músicas, entre outros.

De família com tradição na magistratura e na advocacia, desde cedo manifestou interesse para o estudo das ciências e da filosofia. Por esse motivo, foi encaminhado para a Escola de Pestalozzi, tornando-se um dos seus mais distintos discípulos e ativo propagador de seu método.

Aos 14 anos, substituía seus professores em sala de aula e aos 18 bacharelou-se em Ciências e Letras, lecionando astronomia, física, química e matemática, além de dominar o alemão, o inglês e o espanhol. Como pedagogo, o jovem Rivail dedicou-se à luta para uma maior democratização do ensino público.

Casado com Amélie Gabrielle Boudet, Gaby, que viria assumir, após o desencarne de Kardec, todos os encargos necessários à gestão do espiritismo, na França e no mundo. Colaborou permanentemente com os estudos do companheiro, tornando-se grande incentivadora do trabalho de sistematização e difusão do Espiritismo.

Seu primeiro contato com os fenômenos mediúnicos, por meio das mesas girantes, despertou sua curiosidade para estuda-los, fazendo surgir daí o espiritismo.

Dotado do mais avançado espírito investigativo e didático, não escreveu sob a influência de ideias preconcebidas ou de espírito de sistema, aplicou à nova ciência o método da experimentação.

Dois anos depois, em 18 de abril de 1857, sob o pseudônimo de Allan Kardec, publicou O Livro dos Espíritos, dando início ao processo de codificação da Doutrina Espírita. Kardec consultou 10 médiuns enquanto escrevia e revisava o trabalho.

Kardec escrevia O Livro dos Espíritos a luz de velas e com caneta tinteiro, após o jantar, quando lhe sobrava tempo. A primeira edição, com cerca de 500 perguntas respondidas pelos médiuns consultados por Kardec, incluindo três meninas, demorou 20 meses para ficar pronto. A segunda edição, definitiva, saiu com 1.019 perguntas.

Os princípios do espiritismo foram reunidos por Allan Kardec em cinco obras: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1859), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1863), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868).

Desencarnou aos 64 anos em Paris, em 31 de março de 1869, vítima da ruptura de um aneurisma quando ainda tinha muito a oferecer.

No seu sepultamento, o famoso astrônomo Camille Flammarion, então com 27 anos, proferiu um discurso épico, que tomo a liberdade de reproduzir, como forma de homenagear o mestre lionês e resgatar o espírito progressista do espiritismo, que vem atravessando, em solo brasileiro, uma onda conservadora e reacionária:

“Allan Kardec foi homem de ciência que, sem dúvida, não pôde prestar esse primeiro serviço e assim propagar ao longe, como um convite, a todos os corações. Mas ele era o que chamarei simplesmente o bom senso encarnado”. “Porque senhores, o espiritismo não é uma religião, mas uma ciência da qual conhecemos apenas o ABC. Acabou o tempo dos dogmas. A natureza abraça o Universo”. “É pelo estudo positivo dos efeitos que se remonta à apreciação das causas. Na ordem dos estudos reunidos, com o nome genérico de espiritismo, os fatos existem”. “Porque tendo às mãos o livro ‘Pluralidade dos Mundos Habitados’, você os colocou imediatamente na base do edifício doutrinário que sonhastes. Agora, oh alma, você sabe, por uma visão direta, em que consiste esta vida espiritual a qual todos retornaremos e que esquecemos durante esta existência”. “O corpo tomba, a alma fica e retorna ao espaço. Nós nos reencontraremos em um mundo melhor. E no céu imenso, onde se exercerão nossas faculdades mais poderosas, continuaremos nossos estudos que na Terra dispunham de um local muito pequeno para contê-los”. “A imortalidade é a luz da vida, como este brilhante Sol é a luz da natureza. Até logo, meu caro Allan Kardec, até logo!”

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