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Jesus expulsou CNPJs do templo para salvar CPFs

“Tendo Jesus entrado no pátio do templo, expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo (…)”

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sa/AFP
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sa/AFP
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Um governo que romantiza a ditadura, cospe em enfermeiros, atira em manifestantes nas janelas, espanca jornalistas e faz carreata da morte em frente a hospitais não dá mais pra ser adjetivado. Aliás, se existe, na língua portuguesa, alguma palavra ou expressão que possa adjetivar esse governo, desconheço.

Bolsonaro, Regina e Moro carregam o estigma da morte e como Pilatos, lavam suas mãos em sangue. Além de não ter feito nada para os mais pobres, desempregados e excluídos desde que assumiu o governo, Bolsonaro também tem demonstrado absoluta falta de empatia com as mais de 11 mil mortes pela covid-19, fora a inabilidade na condução da pandemia. Não podemos naturalizar o horror, banalizar o mal e perdermos a capacidade de nos indignarmos diante de tudo que esse governo representa.

E foi com essa indignação que, na semana passada (eles não nos dão paz…), assisti a entrevista da secretária da Cultura cantando música que homenageia a ditadura e relativizando a morte de colegas artistas. Além desse acinte à dignidade humana, o que, na nossa Constituição, é previsto como crime a apologia à ditadura militar – previsto na Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287) -, ainda tivemos a marcha da elite em direção ao STF.

Por si só, a marcha já representa um horror, pois teve a intenção de constranger a nossa suprema corte. No entanto, para piorar, um dos empresários (que representa uma importante fundação de defesa dos direitos de crianças e adolescentes e que já foi condenado duas vezes pelo Cade por formação de cartel) disse lamentar a “morte de CNPJs” em detrimento das mortes de CPFs.

Esses “cidadãos de bem” nunca decepcionam, como diz Chico Cesar: “Deus me defenda de mim e da maldade de gente boa, da bondade da pessoa ruim”.

Com tudo isso que tem acontecido, Jesus e seus ensinamentos ficam, cada vez mais, evidentes. Jesus é legal pra caramba, o que estraga, às vezes, é seu fã-clube.

De súbito, lembrei-me da passagem em que, ao chegar ao templo, Jesus da gente, depois de sua entrada triunfal em Jerusalém (queria ter vivido essa cena; se vivi, infelizmente não me lembro), expulsou os comerciantes, denunciando a opressão e a exploração dos mais pobres pelas autoridades religiosas. Não satisfeito, previu a ruína daquele lugar, mostrando que aquela instituição religiosa já estava falida.

Para os judeus, o templo era o lugar privilegiado de encontro com Deus. Ali, colocavam-se as ofertas e sacrifícios levados pelos judeus do mundo inteiro, formando, assim, um verdadeiro tesouro, administrado pelos sacerdotes. A casa de oração tornara-se lugar de comércio e de poder, disfarçados em culto piedoso. Pelo muito que fez e pela sua coragem, despertou a ira dos poderosos de seu tempo e eles o crucificaram, penalidade máxima para aqueles que ousavam se levantar contra a corrupção.

Essa é uma das muitas passagens que exemplificam que Jesus tinha lado e não era o dos ricos e influentes. Não tenho duvida que, vivendo nos dias de hoje, Ele já teria sido exterminado novamente, mas não sem antes virar várias mesas, de vários templos, e expulsar vários falsos profetas, mercadores da fé. Jesus escolheu as pessoas, simples como ele, perseguidos, excluídos e marginalizados. Ele não se preocupava com “CNPJs” e sim com “CPFs”.

“Replicou-lhe o jovem: “A tudo isso tenho obedecido. O que ainda me falta?” Jesus disse a ele: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Ao ouvir essa palavra, o jovem afastou-se pesaroso, pois era dono de muitas riquezas.” – Mateus 19:20-22.

Nós, espíritas, não cremos na teologia da prosperidade ou no evangelho da prosperidade, doutrina cristã da década de 1980 que prega a benção financeira como o desejo de Deus para os cristãos e que aponta que a fé, o discurso positivo e as doações para as comunidades religiosas (ou seus representantes) irão sempre aumentar a riqueza material de quem doou.

Mas há várias instituições ditas espiritas e famosos médiuns que, por exemplo, dispensam seus empregados em meio a pandemia ou defendem a flexibilização da quarentena e a volta imediata ao trabalho. Geralmente, esses “cidadãos de bem” criticam programas de redução da pobreza, como o Bolsa Família ou as cotas nas universidades públicas para negros, indígenas e quilombolas.

São “meritocratas” e adeptos de uma “moral estranha”, aquela que Jesus condenou e, se voltasse, como dito anteriormente, viraria novamente as mesas dos vendilhões modernos dos templos. O espiritismo não é e nem pretende ser o detentor das verdades absolutas. Sigamos a doutrina dos espíritos e não a doutrina dos espíritas. A partir dessa ideia, cada qual responde pelas suas atitudes, prestando conta, com sua própria consciência, pelo bem ou mal, pelos excessos que praticaram.

Diálogos da Fé

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