“Jesus da Gente”: uma oportunidade de revisão da vida

Este deveria ser o sentido da Quaresma, rever os caminhos para pessoas religiosas, mas também uma inspiração para as que não são

Na comissão de frente da Mangueira, Jesus ressurgia da favela (Foto: Gabriel Nascimento / Riotur)

Na comissão de frente da Mangueira, Jesus ressurgia da favela (Foto: Gabriel Nascimento / Riotur)

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Entramos nesta quarta-feira 26 no tempo da Quaresma. É o período de 40 dias logo após o carnaval e que antecede a Páscoa. Um tempo de preparação para a festa da vitória de Jesus sobre a morte marcado pela oportunidade de revisão da vida. Depois de cometerem “excessos” no carnaval, com a entrega aos prazeres e uma inversão dos papéis sociais, as pessoas têm a chance de refletir e mudar de rumo, assumindo novos projetos de vida.

O carnaval é historicamente marcado pela crítica à ordem estabelecida com escravos que viravam senhores e vice-versa; demônios que se tornavam deuses e vice-versa; bobos e prisioneiros que viravam reis, estes eram humilhados; castos que se entregavam à sensualidade. De lá para cá, a festa permanece irreverente e subversora.

Só no Rio de Janeiro, neste 2020, pelo menos sete das 13 escolas de samba do Grupo Especial apresentaram composições críticas ao sistema que rege o país e seus governantes. Blocos de carnaval seguiram na mesma linha com temas, marchinhas e fantasias que alfinetam autoridades, suas práticas e ações.

Entre as escolas de samba do Rio, chamou a atenção a apresentação da Mangueira. Com o enredo “A verdade vos fará livre”, a agremiação cantou e representou Jesus, inspiração máxima do Cristianismo, religião predominante no Brasil, imaginando como seria se ele retornasse nos dias de hoje. O desfile foi uma verdadeira aula popular de teologia cristã, que falou de um “Jesus da Gente”.

A escola lembrou a origem pobre de Jesus e a identificação que ele tinha com seus iguais, hoje encarnados nas minorias oprimidas: negros, indígenas, mulheres, crianças e adolescentes das periferias vítimas de extermínio por armas de fogo. Um Jesus radicalmente oposto à imagem exclusivamente branca, masculina e privilegiada, fortemente propagada pelas igrejas por dois milênios – na verdade, a própria imagem e semelhança delas.

O Jesus da Gente, exposto na avenida pela Mangueira, é a afirmação de que Ele não tem religião, pois está “no amor que não encontra fronteira”. E é um Jesus que questiona permanecer “dependurado em cordéis e corcovados” que impedem que as pessoas entendam sua mensagem. O enredo também denuncia que o corpo de Jesus é morto e sacrificado novamente todos os dias pelos “profetas da intolerância”.

A mensagem do Jesus da Gente propaga que é preciso que a favela “pegue a visão”: rejeite as promessas de solução de um messias armado, que se alimenta da morte dos pobres, e perceba que só há futuro possível por meio da partilha, da tolerância e do amor.

Esta mensagem se concretizou também na participação de um grupo de 20 religiosos, que abriu o desfile, antes mesmo da Comissão de Frente, testemunhando as possibilidades de convívio e tolerância entre as pessoas de fé. Entre os evangélicos estavam as pastoras Lusmarina Garcia e Inamar Corrêa de Souza, os pastores Daniel Rangel, Edson Fernandes, Eduardo Calil Ohana, Júlio Oliveira, Mozart Noronha, Rodrigo Coelho. Também estava o Monge Beneditino Marcelo Barros, que com o grupo, levou uma faixa que dizia: “Independente de sua fé, o respeito deve prevalecer”.

As duras críticas a esta visão do Jesus da Gente não tardaram a se manifestar da parte de católicos, de evangélicos e de pessoas que nem religião têm mas se colocam como guardiãs de Deus. Fazem lembrar as críticas, concretizadas em censura, contra o Jesus Mendigo da Escola de Samba Beija-Flor, em 1989.

A Beija-Flor celebrava na avenida o enredo “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia!”, uma exposição das mazelas, das misérias e suas diferentes manifestações entre os pobres. Uma das alegorias apresentava um convite: “ATENÇÃO Mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, profetas, esfomeados e povo de rua: tirem dos lixos deste imenso país restos de luxos… Façam suas fantasias e venham participar deste grandioso BAL MASQUÉ”.

O carnavalesco era Joãozinho Trinta, que se apresentou na avenida vestido de gari, e criou o carro abre-alas que seria um Cristo Redentor mendigo, em farrapos, emergindo de uma favela. Dois dias antes, o carro teve sua exibição pública proibida, a pedido da Arquidiocese Católica, acatada por liminar do juiz da 15ª Vara Cível. O ato de censura gerou uma subversão que fez história no carnaval do Rio: a imagem do Cristo Mendigo foi para o final do desfile, coberta com plástico preto mais a faixa gigante “Mesmo proibido, olhai por nós” e representou uma apoteose na avenida.

Por que representações de Jesus como humano, pobre, encarnado nos sofredores, que é crucificado novamente a cada execução de inocentes, causam tanto incômodo? Por que a humanidade de Deus encarnada na pessoa de Jesus causa revolta? A quem interessa manter Jesus aprisionado na forma branca, masculina e privilegiada?

Controlar a fé é conter o que faz mover as pessoas… manter Jesus aprisionado em imagens que refletem a ordem estabelecida é conservar as pessoas sofridas (aquelas empobrecidas, moradoras das periferias, sem-teto, mulheres, negras, LGBTI+, indígenas) aprisionadas em seus devidos lugares, vivendo das falsas promessas de salvadores de arma na mão. São práticas de religiosos e seus apoiadores, que, como dizia o teólogo Rubem Alves, querem ser mais divinos que o próprio Deus.

A Beija-Flor já buscou subverter esta ordem em 1989, e 31 anos depois, a Mangueira, corajosamente, promove nova transgressão, repetindo o que nos ensina a tradição cristã sobre Jesus, popularizada pelo teólogo Leonardo Boff: “Humano assim como Jesus só Deus mesmo!”.

É neste sentido que devemos chegar à Quaresma, vendo-a como uma oportunidade de revisão de caminhos para pessoas religiosas, mas também uma inspiração para as que não são. A partir da mensagem do Jesus da Gente, que mesmo proibido ou criticado “olha por nós”, é preciso “pegar a visão” e assumir um momento de decisões e de mudanças. Tempo de reafirmar projetos de vida ou revê-los, mas com um sentido profundo: rejeitar as promessas de solução violentas, que mata os sofredores e continua matando Jesus, e construir um futuro por meio da partilha, da tolerância e do amor.

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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