Jesus agoniza e morre junto com a menina Ágatha Félix

De onde você estiver, prometemos ser cada dia menos colaboradores deste projeto genocida.

Jesus agoniza e morre junto com a menina Ágatha Félix

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*Com Marcelo Rocha e Tabata Tesser.

“Naquele tempo, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam. Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: “Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas. Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. Ele abraçava as crianças e as abençoava, impondo-lhes as mãos.” São Marcos 10, 13-16

Rio de Janeiro tem amanhecido Belém, e todo dia Marias e Josés fogem para o Egito como na época de Herodes, o reinado que foi marcado na história pelo assassinato de crianças.

Mais de dois mil anos depois, o sangue inocente continua a escorrer, como um projeto de poder, contra toda a potência de reis e rainhas negras, e nessa última semana, Ághata Félix, aos 8 anos, foi mais uma vítima dessa máquina de matar em nome de Deus, mas ignorando que essas são as filhas e filhos Dele.

Jesus é incisivo e firme quando diz: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas” – Mateus 19:14.

Jesus foi uma dessas crianças perseguidas, vítimas do terrorismo de estado, advinda de uma família pobre e trabalhadora de imigrantes. José, seu pai, um carpinteiro operário e sua mãe Maria, uma camponesa.

Ágatha Félix foi uma criança nascida em uma família pobre e trabalhadora da favela de Fazendinha (Complexo do Alemão) no Rio de Janeiro. Sua mãe testemunhou quando o disparo de fuzil da Polícia Militar atravessou suas costas dentro de uma Kombi. Como no martírio de Jesus, Ágatha, antes de morrer, ainda agonizou.

Familiares da menina negam a informação dada pela Polícia Militar de que, na hora do disparo que acertou a criança, equipes policiais da UPP Fazendinha foram atacadas de várias localidades de forma simultânea.

Mas, infelizmente, esse projeto de poder nefasto não interrompeu apenas a vida da pequena Ágatha. Somente neste ano, no Rio de Janeiro, outras cinco crianças também foram vítimas de “bala perdida”, mas que só encontra corpos negros. Kauê Ribeiro dos Santos, 12 anos; um garoto de 12 anos de nome não identificado; Kauã Rozário, 11 anos; Kauan Peixoto, 12 anos; Jenifer Silene Gomes, 11 anos.

Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Fernando Frazão/Agência Brasil

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que se reivindica “cristão” e fez disso um trampolim político oportunista, defende um deus que tem licença para matar. Nesse Deus genocida não cremos!

O governador anticristo tem licença para matar crianças ao defender um projeto de (in)segurança pública que gera mais e mais mortes a cada dia.

Ser cristão e não denunciar as mortes promovidas pelo próprio Estado é contrário aos ensinamentos de Jesus.

A adesão a este fogo requer deixar a hipocrisia de lado e estar disposto a pagar o preço por escolhas coerentes com o Evangelho. É bom dizer-se cristão, mas é preciso antes de tudo ser cristão nas situações concretas, testemunhando o Evangelho e denunciando uma estrutura que está à serviço da morte de crianças. Como diz o Papa Francisco, dizer-se cristão não é o mesmo que ser cristão, é preciso coerência.

Bolsonaro e Witzel compactuam com esse projeto de necropolítica. Ambos constroem um império pessoal que reluz a ouro e cheira a sangue retinto pisado. Eles não amam a Deus e muito menos a igreja de Deus. São os próprios lobos em pele de cordeiro. E lembrem-se: falsos profetas são populares, eles gostam dos holofotes midiáticos, comemoram mortes, fazem promessas que Deus nunca fez (armamento?), proíbem o que Deus nunca proibiu e dizem operar grandes sinais e maravilhas com objetivo de enganar a fé alheia.

Quanta blasfêmia! Bolsonaro e Witzel não são cristãos escolhidos por Deus, são o verdadeiro diabo encarnado no mercado, no ódio e na tortura.

Não há possibilidade de entender o Cristo, sem entender que sua morte, é projeto de salvação e não de derramamento de sangue. Jesus estaria naquele ônibus, olharia para o sequestrador e diria: “ainda hoje, te encontro no paraíso”.

Jesus estaria no corpo daquele garoto negro, chicoteado com fio de cobre num supermercado em São Paulo.

Ele estaria ao lado dessa pequena garota, e morreria outra vez para ver ela sorrindo. Mas Ele nunca pegaria a caneta que autoriza essas mortes, ou estaria dentro de um caveirão ou um helicóptero trazendo medo e opressão.

Ágatha, de onde estiver te pedimos perdão!

Perdão por esse indivíduo político ter usado o nome de Deus para legitimar um projeto que te matou.

Nos perdoe por não termos denunciado mais e mais os falsos profetas.

Nos perdoe pelas vezes que nos silenciamos sobre o pecado do racismo.

Jesus morreu junto de você e, assim como você, experimentou em Seu próprio corpo as dores da matança de Estado.

De onde você estiver, prometemos ser cada dia menos colaboradores deste projeto genocida.

A morte jamais terá a última palavra.

*Marcelo Rocha, 22 anos, é educador, membro do Movimento Negro Evangélico – SP e da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. Tabata Tesser é socióloga, integra a equipe de ativistas de Católicas pelo Direito de Decidir, coordena o grupo FÉ_ministas em São Paulo, faz parte da Rede Ecumênica da Juventude e é uma das autoras do livro “Teologias Fora do Armário”.

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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