Intolerância tem cura

Diálogos da Fé

Nos últimos dias foi bem repercutida a notícia de que evangélicos levantaram fundos para a reconstrução do terreiro Kwe Cejá Gbé, liderado pela Mãe Conceição d’Lissá, em Duque de Caxias, Rio, incendiado de forma criminosa em 2014. A verba de R$ 11 mil foi doada pela Igreja Cristã de Ipanema e pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs Seção Rio. A doação foi oficializada nesta quarta 22 em um café da manhã no terreiro, com a presença de várias lideranças evangélicas.

Essa atitude é um ato de humildade e resistência a toda intolerância expressa em violência contra a liberdade de crença. É também uma sinalização de que é possível que grupos religiosos distintos coexistam, não só com base nos princípios de liberdade e de respeito mútuo, mas cooperem entre si com o objetivo do alcance da paz com justiça.

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Acompanhei a repercussão desta notícia pelas mídias sociais e fui instigada em minhas reflexões por vários comentários sobre o ato. Especialmente porque vários deles revelavam inconformismo de que os doadores fossem apresentados como evangélicos. Foram várias expressões como “essas igrejas não são evangélicas, são protestantes”, “‘evanjegues’ não fazem isto”, “se fossem neopentecostais colocariam mais fogo”, entre outras na mesma direção. Por que desqualificam essa atitude e afirmam que essas igrejas não são evangélicas?

Situação curiosa. Da mesma forma que temos incendiários de terreiros, que descartam quem está fora do padrão religioso que têm como verdadeiro, temos “pistoleiros” de teclado, que disparam palavras contra quem vive a fé de forma diferente.

Um dos maiores desafios do ser humano tem sido existir e coexistir na terra que habitamos, na nossa casa comum. Por isso a necessidade da tolerância, a atitude de aceitação e respeito entre seres humanos em sua diversidade, em responsabilidade com a vida em comum. Significa atribuir valor às diferenças, quaisquer que sejam, entre os indivíduos, que compõem o incrível mosaico que é o mundo. Portanto, tolerância não é a convivência entre iguais, mas a vivência em comum que leva em conta diferenças, divergências, discordâncias como componentes do coexistir humano.

Nesse sentido, tolerar não significa “aguentar” viver com o outro, mas é a consciência do direito que cada pessoa tem de viver e de conviver no planeta que habitamos, de ser aquilo que é. A regra de ouro do Cristianismo, na versão que Jesus de Nazaré formulou, reflete bem este sentido de tolerância: “Façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam” (Mateus 7.12).

Mas, então, cada um vive como quer e faz o que quer? Não… na casa comum temos regras de coexistência que passam por direitos e deveres, assentados fundamentalmente no direito à vida humana e de sermos tratados como humanos. Se formas e atitudes de viver impedem o direito à vida e à dignidade humana é preciso agir para garantir a coexistência. Um assassino deve ser, então, punido por impedir o outro de viver; corruptos devem ser punidos por desviarem recursos coletivos e prejudicarem o direito à vida do outro; torturadores devem ser punidos por não tratarem presos como seres humanos.

A intolerância é a redução da realidade a apenas “um lado”:  é a negação do direito de existir em diversidade. É a decretação de que há uma única forma que é válida, certa e verdadeira, e se reverte em único modo de vida, postura ou único sentimento, uma única visão de mundo, crença, ideologia ou única opinião. Rejeita-se todos os outros que não são, vivem ou pensam dentro deste formato.

Além da arrogância, uma base forte da intolerância é a ignorância – a compreensão nula ou limitada do outro, restrita ao que ouviu falar. Intolerantes não querem dialogar, não têm abertura ao aprendizado, querem sempre convencer de que sua vida e sua perspectiva são as verdadeiras. No extremo, intolerantes chegam até mesmo a usar de violência física para que todos assumam sua vida e sua perspectiva.

E neste ponto retomo os comentários nas mídias sociais sobre a cooperação de evangélicos com um terreiro… Desqualificar evangélicos como um bloco, com base em experiências questionáveis (presentes em qualquer religião!) ou tendo como referência as práticas de lideranças alavancadas pelas mídias ou dos políticos da Bancada Evangélica, pode também ser uma forte expressão de intolerância religiosa baseada em ignorância e preconceito.

A Igreja Cristã de Ipanema e as igrejas do ramo protestante que fazem parte do CONIC são evangélicas, sim, bem como são as Presbiterianas, a Metodista, a Congregacional, a Batista, as Assembleias de Deus, a Universal do Reino de Deus, a Cristã Metropolitana e as tantas outras grandes ou pequenas, antigas ou novas, tradicionais, pentecostais ou comunidades independentes. O termo “evangélico” identifica, historicamente, os cristãos não-católicos e não-ortodoxos no Brasil. Com todas as suas contradições, são expressões de fé que marcam a diversidade religiosa.

Cura para a intolerância? Existe! Antes de se apertar o gatilho do teclado, vale descer do pedestal da arrogância, revestir-se de humildade, conhecer o outro e suas diferenças, e aprender que homogeneidade não é marca da coexistência humana e, assim, nem das igrejas evangélicas.

 

 

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