“Festim de Paraisópolis”: Jesus também estava no baile funk

Várias Marias de Nazaré ou Marias de Paraisópolis estão chorando as mortes de seus filhos

PM dispara em pessoas na favela de Paraisópolis (Foto: Reprodução)

PM dispara em pessoas na favela de Paraisópolis (Foto: Reprodução)

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“Eu sou da estação primeira de Nazaré.
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher,
moleque pelintra no buraco quente,
meu nome é Jesus da gente.”
Trecho do samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira 2020

“No terceiro dia houve um baile funk em Paraisópolis. A mãe de Jesus estava ali. Jesus e os nove jovens também haviam sido convidados para o baile.”

Com essa livre adaptação do Evangelho de São João (2:1-2) sobre as Bodas de Canaã da Galiléia ou Festim de Núpcias, inicio o artigo desta semana.

Ao acordar, neste domingo 1, com a triste notícia de um verdadeiro massacre contra jovens que estavam em um baile funk em Paraisópolis, imediatamente lembrei desse Jesus festeiro e que também foi assassinado pelas mãos do Estado.

Essa é uma das passagens bíblicas que mais gosto, por que além de representar um dos primeiros “milagres” de Jesus, transformando água em vinho, apresenta um Jesus festivo, humano, bem-humorado, feliz e aliado dos seus amigos.

Jesus amava as festas, há várias passagens bíblicas que provam isso. Ele ia às festas de religiosos e não religiosos e sempre tratava os anfitriões da mesma maneira.

Jesus, para mim, é sinônimo de alegria, de festa, de amor e também de coragem. Ele enfrentou os poderosos de seu tempo, virou a mesa dos capitalistas da época, batizou “pecadores”, foi amigo de excluídos/as e marginalizados/as. Dançou com adúlteras, prostitutas, comeu e bebeu com gente de má fama. Sim, Ele chorou com os que choraram, mas também se alegrou com os que se alegraram.

Como diz um amigo, “Jesus é legal pra caramba, o que estraga é seu fã clube”. Daqui a pouco não faltarão interpretações de religiosos equivocados e maldosos para justificar esse genocídio da população pobre e favelada. Já consigo imaginar “médiuns” dizendo que foi resgate de vidas anteriores. Nos poupem! Mais compaixão e menos suposição.

Não é admissível que nove jovens pobres morreram pisoteados após ação da polícia na comunidade da Zona Sul de São Paulo na madrugada deste domingo e que as igrejas, os centros espíritas, os templos religiosos não se mobilizaram para fazer seus cultos na rua, lá na favela de Paraisópolis. Não é razoável acreditar que não foram às televisões, redes sociais, rechaçar mais essa ação violenta.

Não se pode falar de um Jesus misericordioso, soberanamente bom e justo e que fica limitado aos templos de fé.

Precisamos viver o que pregamos!

Várias Marias de Nazaré ou Marias de Paraisópolis estão chorando as mortes de seus filhos, que se divertiam onde os espaços de cultura e lazer são escassos ou inexistentes.

Cadê as hashtags #SomosTodosParaisópolis, assim como fizeram com a Boate Kiss? E antes que me acusem de falsa simetria, o que estou dizendo é que não podemos ter solidariedade seletiva. Ou favelados e funkeiros não merecem comoção?

“É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado.”

O funk é um estilo musical oriundo das favelas brasileiras e embora o nome seja o mesmo, é diferente do funk originário dos Estados Unidos, mas com influência de ritmos como black, soul, shaft, miami bass e freestyle.

Paraisópolis é a segunda maior comunidade da cidade de São Paulo e conta com aproximadamente 100 mil habitantes. É a segunda maior favela de São Paulo e a quinta maior do Brasil. Foi tema até de novela global (“I love Paraisópolis”). São dez quilômetros quadrados de área e 21 mil domicílios. Trinta e um por cento da população é composta por jovens de 15 a 29 anos, cerca de 12 mil moradores/as são analfabetos/as ou alfabetizados funcionais. Quarenta e dois por cento das famílias são chefiadas por mulheres.

A causa do problema não foi – apenas – a violência policial. Essa violência é consequência. Para Raphael Faé, “a causa é a absoluta falta de políticas públicas de lazer e cultura e a ausência de espaços culturais nas periferias, onde as pessoas possam se divertir sem ‘incomodar’ a vida dos demais. A violência policial é seletiva e reproduz a estratificação de classes no Brasil. Nas raves dos playboys, nos Rock in Rio da vida, nas boates dos mauricinhos e das patys, a polícia não pensa nem entrar para pegar drogas, menos ainda invadir, dar porrada e matar gente rica e branca. Afinal, eles não são carvão pra queimar, como dizia Darcy Ribeiro”.

Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos, presente!

Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos, presente!

Eduardo Silva, 21 anos, presente!

Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos, presente!

Mateus dos Santos Costa, 23 anos, presente!

Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16 anos, presente!

Gustavo Cruz Xavier, 14 anos, presente!

Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos, presente!

Luara Victoria de Oliveira, 18 anos, presente!

Para finalizar, recorro às palavras da irmã Juliane Cintra: “CEP tem cor e cultura também. Foi no apagar das luzes do novembro NEGRO, um diazinho depois do mês da Consciência Negra que o Estado assassinou nove jovens em Paraisópolis. E não conto com a comoção de ninguém, apenas com a constatação do fato de que esse episódio só se deu dessa maneira por que foi aonde foi, por que era com quem era”.

Segue o baile, menos na favela!

***

Nota do Grupo Prerrogativas sobre a barbárie em Paraisópolis

“Nove morreram porque dançavam. Passos de dança deram lugar a passos que pisam em fuga da violência policial.

A cultura preta e periférica cresce e toma espaço. A cidade é de quem mora nela. A periferia, potência de qualquer metrópole, é vista como território da ausência do Estado – que se apresenta apenas como violência e morte.

Mas a vida na periferia pulsa. Pulsa no seu ritmo. E se o ritmo é o funk, então que seja o funk.

A vida na periferia é protegida pelo direito à cidade, à cultura, ao lazer, a manifestação e expressão de sua arte sem qualquer repressão.

Mas o Estado que quer excludente de ilicitude para agir contra terrorismo é o que identifica numa festa de jovens o mal a ser sacrificado em praça pública.

O Estado que quer licença para matar é este que encurrala até a morte adolescentes num baile de rua.

O Estado que pressupõe o criminoso pela cor da pele ou da bandeira, pelo endereço e pelo gingado, é um Estado que precisa conhecer a quem serve e os limites da Lei que o constitui.

Por isso que, diante dessa barbárie promovida pelo agente público, cabe a nós, juristas, a corresponsabilidade de estarmos presentes e de agirmos perante as autoridades, para que o resguardo ao direito e à integridade de todos, não importa onde vivam, seja garantido.

Estamos solidários com as mães, demais familiares e amigos das vítimas. Mas iremos além do gesto de sentirmos juntos essa dor enorme.

Nós estaremos presentes e atuantes. Em todas as instâncias. Estamos já na rua e estaremos na Câmara de Vereadores. Estamos já no IML e estaremos na Assembleia Legislativa. Nos jornais e no Congresso Nacional. No Judiciário e no próximo baile.

Só queremos que sejam felizes, e andem e bailem tranquilos na favela em que nasceram.

Ninguém estará sozinho diante da opressão.”

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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