Evitar o extremismo não é renunciar à liberdade de expressão

Cabe às pessoas de boa vontade e lúcidas evitar qualquer coisa que possa danificar a paz que muitos tentam estabelecer fazendo sacrifícios

Foto: iStockphotos

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Diálogos da Fé

Está mais do que na hora de rever e repensar os tais “valores ocidentais” como a liberdade de expressão, liberdade religiosa etc. Digo entre aspas, pois acredito que não é nada mais do que uma ironia assumir todos esses valores universais como apenas ocidentais e chegar a alegar que “o outro” não é apto a viver ou a se adequar a esses valores. Claro, esta afirmação de “outro” serve como uma herança colonial para subalternizar quem não nasceu na sociedade europeia.

 

 

 

O colonizador dominava o colonizado colocando este segundo como um ser inferior, pois não sabia ler o alfabeto do Ocidente, não se vestia igual ao ocidental, até não partilhava a mesma religião que o europeu. Porém, apesar do colonialismo ter acabado em teoria, essa visão ainda permanece na cabeça daqueles que defendem a supremacia de uma cor de pele, língua, religião, cultura etc. Por isso, às vezes, acontece que “o sonho do oprimido (colonizado, subalternizado etc.) é se tornar o opressor quando a educação não é libertadora.” como afirma Paulo Freire. A sempre implicância da supremacia de alguém ou de alguma cultura etc. acaba resultando em atos extremistas. 

Recentemente eu também fui vítima de intolerância religiosa através da minha página pública em uma rede social. Aliás, não se trata apenas de uma intolerância religiosa, mas de uma agressão verbal que continha palavras inexpressáveis em meio a outras como “morra, seu terrorista”. Inclusive, o fato de isso ter ocorrido em uma postagem de mais de dois meses atrás significa que a pessoa foi e procurou o seu “alvo” propositalmente, e não foi que ele tivesse encontrado isso instantaneamente.

Nas mesmas proximidades temporais, uma pessoa me havia questionado sobre os meus dois últimos artigos neste blog, onde eu defendo que a liberdade de expressão deve ter seus limites e devemos prevenir discursos e atos que podem levar o outro ao extremismo. A pergunta foi se “evitar alguns discursos e atos não seria renunciar ao direito de liberdade de expressão”. Logo depois pensei no que eu havia sofrido horas antes e a minha resposta foi a seguinte:

Eu, ao invés de ir e explodir algum lugar, tentei acionar um processo jurídico que possa levar à suspensão dos perfis que me atacaram nas redes sociais e buscar o meio direito de viver a minha religião através de meios legítimos. Porém, nem todo mundo pode ter essa reação. Nem todo mundo está tão apto a reagir de uma maneira tão branda.

Eu também, em primeiro momento, pensei em responder, ao menos, com palavras bastante pesadas quase no mesmo patamar que as palavras dele. Porém, recordei-me que a maneira mais lúcida de responder a estas coisas é a que o Alcorão nos ensina: “repelir o mal com o bem para acabar com as inimizades” (41:43) e se a pessoa não me dá ouvidos nas minhas boas ações, “avisá-lo das consequências daquele ato” (9:5), que nesta ocasião foi pelo menos a tentativa de um processo jurídico. Mas nem todo ser humano tem esta paciência muitas vezes por sempre estar sujeito a esse tipo de discurso o tempo todo. Por isso é que devemos evitar atos que podem causar danos muito graves a uma sociedade. 

Para finalizar e deixar mais claro o que eu quis dizer, é claro que nenhuma liberdade deve ser renunciada por ninguém, muito menos por terroristas. Como venho falando em várias ocasiões, o terrorismo não tem religião nenhuma. Porém, cabe às pessoas de boa vontade e lúcidas evitar qualquer coisa que possa danificar a paz que muitos tentam estabelecer fazendo sacrifícios, que chegam a ser, às vezes, a própria vida deles.

A intolerância religiosa, ou seja, insultar qualquer tipo de fé e religiosidade, é um crime quase em todo lugar do mundo. Pode ser que em alguns países seja apenas em teoria. Mas isso existe e não pode ser desconsiderado. Por isso, renunciar às coisas que podem insultar uma religião ou uma comunidade religiosa não é abrir mão da liberdade de expressão, é evitar um crime.

 

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Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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