Evangélicos e o presidente Bolsonaro, entre sonhos e pesadelos

Pesquisa de opinião pública levantou que 44% dos que compõem o grupo avaliam o governo como bom ou ótimo

(Foto: Marcos Corrêa/PR)

(Foto: Marcos Corrêa/PR)

Diálogos da Fé

‘Nunca na história deste país’ o segmento cristão evangélico esteve tão em evidência no espaço público. O cenário se deve à história recente da ocupação significativa dos Poderes do Estado, em especial, no plano nacional: Legislativo (desde 1987, com a formação da “Bancada Evangélica” no Parlamento), Executivo (com a nomeação de ministros de Estado amplificada com o atual governo de Jair Bolsonaro) e Judiciário (com a maior visibilidade de agentes em diferentes instâncias).

Porém, o que é mesmo destaque em diferentes discussões é o apoio ao governo Bolsonaro, classificado como inabalável por expressiva parcela dos evangélicos que habitam o Brasil. Pesquisa de opinião pública realizada pela Exame/Ideia neste mês de abril levantou que 44% do grupo avaliam o governo como “bom ou ótimo”. O número cai para 25% quando se leva em conta a população em geral.

O fundador do Instituto Ideia, Maurício Moura, declarou em reportagem sobre o tema ter “percebido em toda a série histórica que o grupo dos evangélicos é a fortaleza do presidente Bolsonaro, com forte avaliação positiva. Certamente é um grupo essencial para sua reeleição”.

De fato, é instigante pensar o que leva pessoas que assentam sua fé na doutrina cristã baseada no amor, na misericórdia, na paz, na humildade, ao significativo apoio a um líder político cujas atitudes públicas se mostram radicalmente opostas a estes valores?

No que tange aos líderes evangélicos pentecostais (pastores, bispos, apóstolos, missionários), que declaram publicamente seu apoio a Bolsonaro desde 2018, não é difícil compreender as motivações. Essas figuras são conhecidas no cenário religioso e político: são líderes de grandes igrejas, e de outras nem tanto, que alcançaram status em termos de patrimônio e influência social, com visibilidade nas mídias e representação no parlamento. Aqui importa a aliança com um poder, qualquer que seja, que ofereça a manutenção deste status, quiçá sua ampliação. Isto foi oferecido por Jair Bolsonaro em troca de apoio e vem sendo cumprido.

Um exemplo frequente no noticiário é a realização de repasses pelo governo federal, sem edital de concorrência, a instituições evangélicas, em especial via Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, liderado pela pastora batista Damares Alves, e via programa Pátria Voluntária, liderado pela primeira-dama, também batista, Michelle Bolsonaro. Outro exemplo é o perdão de dívidas de igrejas com a Receita Federal e o INSS, aprovado em março passado, que beneficia grande fatia desse grupo.

Um de seus mais famosos porta-vozes chegou a declarar em uma reportagem: “Por enquanto, não tem ninguém que possa fazer frente a Bolsonaro no mundo evangélico. Ninguém”, e citou os pastores José Wellington Bezerra da Costa e Manoel Ferreira (Assembleia de Deus), Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de Deus), R.R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus) e Valdemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus).

Esse líder desconsiderou apoiadores evangélicos não-pentecostais, mas eles existem. São de igrejas classificadas como históricas, majoritariamente batistas e presbiterianas. São o grupo que credencia ideologicamente o governo, fornecendo, inclusive, quadros para os ministérios. Não é por acaso que não há um pentecostal sequer entre os ministros de Estado.

Para a composição ideológica, o governo Bolsonaro articulou aliança com o grupo evangélico que historicamente exerceu influência na vida nacional, e é proprietário de escolas e universidades, e tradicionalmente promove projetos de ação social, tendo ocupado, no passado recente, posições, por exemplo, no Conselho Nacional de Educação e em instâncias jurídicas. Daí termos Ministros na Advocacia Geral da União (AGU) e na Educação que são pastores presbiterianos; nas pastas da Mulher, Família e Direitos Humanos, da Secretaria de Governo e das Comunicações que são batistas; e no Ministério da Cidadania de raiz luterana. No segundo escalão esta lista aumenta, em especial com líderes que sempre atuaram com educação e ação social, marca significativa das igrejas históricas.

Exercer influência na vida do país já era a ideologia dos missionários batistas, presbiterianos, metodistas, luteranos que chegaram no século 19. A parcialidade desta influência que nunca havia alcançado o poder sonhado, com uma presidência da República, foi superada com o governo de Jair Bolsonaro.

Este grupo está alicerçado no “american way of life”, na piedade puritana da salvação individual, no fundamentalismo da teologia do domínio (“o governo de Deus sobre todas as nações”) e da guerra a inimigos (o combate ao que chamam de “humanismo”, incorporado nos movimentos feminista, LGBTI+, no ecumenismo, e em um comunismo imaginário). Com isso, ganham força segmentos como a Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (ANAJURE) e programas para domar os “sempre rebeldes jovens”, como o The Send, o Projeto Dynamus, apoiados por missões dos Estados Unidos que já atuam por aqui, como Jovens com Uma Missão (Jocum), entre outras.

Foi assim que o fundamentalismo conseguiu, com o governo Bolsonaro, se tornar parte das políticas de Estado. Vide a ocupação da FUNAI por missionários, o desmoronamento do Ministério da Educação e a promessa de nomeação de um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Nesse sentido, a ambiguidade da religiosidade do presidente da República (católico, evangélico ou nada?) e o seu questionável comportamento moral (defesa da tortura, apelo a vingança e armas, relacionamento com milicianos, racismo e sexismo, grosseria, deboche com mazelas humanas, linguagem de baixo calão) não importam para os líderes descritos aqui. Importa o que Bolsonaro oferece. É a política que favorece a realização dos projetos destes grupos (e não a fé) que torna Bolsonaro “o presidente dos sonhos” destes evangélicos.

Isto torna possível, por exemplo, que o pastor André Mendonça em discurso, quando alçado ao Ministério da Justiça, no bate-volta da e para a AGU, classifique Bolsonaro como “profeta”. Permite também que o pastor ministro da Educação Milton Ribeiro apareça sorridente ao lado do presidente, em programa de TV que prega a pena de morte e ameniza o extermínio, na celebração de “CPFs cancelados” (linguagem de policiais e grupos de extermínio em referência a alguém que foi assassinado).

Entretanto, este grupo não é suficiente para formar os 44% de apoiadores identificados na pesquisa Exame/Ideia. Há um extenso número de líderes evangélicos que silenciam e não tornam seu apoio público. Há, ainda, a massa composta por membros das igrejas e fiéis simpatizantes do mundo evangélico, que demandam pesquisa qualitativa densa para se compreender este “apoio inabalável”. Entretanto, podemos fazer inferências. Como o espaço não permite prosseguir, voltaremos a elas em um próximo artigo.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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