Diálogos da Fé

Esquerda ou direita – uma proposta para reflexão

‘Ao contextualizarmos as narrativas do Novo Testamento com o nosso tempo, como classificaríamos os líderes políticos e religiosos de hoje?’

Foto: iStock Foto: iStock
Foto: iStock Foto: iStock

Por Professor Waldir A. Augusti e Padre Ticão

Por quantas vezes em nossas jornadas, já ouvimos expressões do tipo “fulano é de esquerda, beltrano é de direita” ou ainda: “esse movimento é de direita, aquele é de esquerda”? Por certo, foram muitas.

No entanto, na maioria das vezes que isso ocorre, concordamos ou discordamos de tais afirmações, sem nos darmos ao trabalho de refletir sobre qual ponto de vista, ou a partir de quais critérios elas foram feitas. Para o senso comum, a referência fundante das afirmações é a política.

Mas, -e haverá sempre um, “mas”-, sob o mesmo ponto de vista, as afirmações a respeito de alguém ou de algum movimento serem de esquerda ou de direita, chegaram às esferas da fé, da espiritualidade e das religiões. Ocorre, porém, que nem sempre as afirmações feitas estão corretas; o mesmo se dando com as concordâncias e/ou discordâncias.

Em dias atuais, essa dicotomia ganhou holofotes e gerou divisões no seio de instituições religiosas das mais diferentes possíveis. Tornou-se comum considerar esta ou aquela religião, este ou aquele grupo de pastoral como sendo de esquerda ou de direita. E isso não é tudo: pode-se observar, sem a necessidade de grandes esforços, a presença desta ”separação” no interior de uma mesma religião. Em meio às religiões Cristãs, existe um debate que se arrasta há anos sobre Jesus de Nazaré, com objetivo final de determinar se Ele é de esquerda ou de direita.

Pensando sobre isso -e motivados pelas verborragias descarregadas nas redes sociais e outros veículos de comunicação por um sem-número de pessoas-, decidimos abordar esta questão. Entretanto, devemos deixar claro, que não temos a intensão de “santificar” ou “demonizar” qualquer uma delas ou seus pensamentos. Em nosso entendimento, a formação de juízo deve ficar a cargo de cada leitor ou leitora como seres livres e pensantes capazes de construírem suas próprias conclusões.

Temos consciência de que este texto poderá causar indignações, ou até despertar o ódio em algumas pessoas que se julgam exímias conhecedoras do assunto, por lerem materiais politicamente enviesados amplamente divulgados na internet. Não é essa, sob qualquer hipótese, a nossa intenção.

Trataremos do tema em questão de modo mais generalista a fim de facilitar a interlocução que possa surgir. Sabemos da existência de diferentes vertentes tanto na direita quanto na esquerda e quando julgarmos necessário esclarecer essas diferenças, nós o faremos.

Definição de Esquerda e Direita

Ao contrário do que muitos podem pensar, esquerda e direita não são categorias existentes desde os primórdios da história humana, nas quais os elementos da nossa vida cotidiana iam se encaixando. A definição de esquerda e direita surgiu por ocasião da Revolução Francesa de 1789, na Assembléia dos Estados Gerais, instituída com o intuito de definir os caminhos da França pós revoltas daquele ano. Nas referidas assembleias, dois principais grupos se destacavam nos debates realizados no salão onde a mesma se dava. Do lado direito ficavam posicionados os mais moderados que tendiam à conciliação que eram bem articulados com a nobreza e a –assim chamada-, “alta burguesia” conhecidos como girondinos. No lado esquerdo do salão, ficavam os mais radicais e exaltados articulados com a “baixa burguesia” e os trabalhadores. Seus principais representantes eram os jacobinos. Daqui, deste posicionamento adotado por pessoas que traziam em si percepções de mundo e visões política diferentes durante sua permanência no salão da AEG, surge o duo “de esquerda ou de direita” que permanece até nossos dias.

Contudo, essa “identidade” foi ganhando novas conotações no decorrer dos anos, servindo a diferentes propósitos e a diferentes setores da sociedade para classificar grupos, pessoas ou movimento opositores entre si.

O Italiano Norberto Bobbio (1909-2004), grande pensador do século XX, que se dedicou intensamente a teoria política e ao direito, em sua obra “Direita e Esquerda – Razões e significados de uma distinção política”, afirma:

“Direita” e “esquerda” não são conceitos absolutos. São conceitos relativos. […] não são palavras que designam conteúdos fixados de uma vez para sempre. […] O fato de direita e esquerda representarem uma oposição quer simplesmente dizer que não se pode ser simultaneamente de direita e de esquerda.

Mas não diz nada sobre o conteúdo das duas partes contrapostas. A oposição permanece, mesmo que os conteúdos dos dois opostos possam mudar. (Editora UNESP, 1995; p. 91-92)

Na esfera político-social, podemos definir esquerda e direita da seguinte maneira: enquanto a direita prioriza a eficiência, a esquerda prioriza a igualdade. Dizendo de outro modo: enquanto a direita aceita e defende a desigualdade entre homens e classes sociais, a esquerda busca a igualdade de oportunidades para todos.

Estamos diante de uma definição que incomoda muita gente -sobremaneira os que se identificam com a direita-, pois leva a entender, que enquanto a esquerda enxerga a desigualdade como algo construído socialmente, que deve ser combatida e destruída para que todos tenham igualdade de oportunidade para crescer e se desenvolver na vida, alcançando o que deseja ser, a direita não quer a mudança do status quo não se importando com o sofrimento ou a morte das pessoas causados por esta desigualdade.

Para a direita a desigualdade é algo natural que deve ser aceita por todos e entendida como sendo eficiente para a sociedade, pois, ao invés de se buscar acabar com as desigualdades, tanto de oportunidades quanto a absoluta, sendo isso, em seu entendimento algo impossível de ser alcançado, deve-se buscar uma sociedade mais eficiente onde o esforço de cada um deve ser incentivado como meio para se chegar onde deseja. Estamos diante da meritocracia desumanizadora.

Dadas estas informações, passemos à nossa dissertação sobre direita e esquerda na sociedade globalizada de hoje, que em seu desenvolvimento globalizou a indiferença, a continuidade de um capitalismo selvagem emparelhado com o neoliberalismo e suas ideias de construção de um Estado mínimo que deve privatizar os serviços prestados à sociedade tais como saúde e educação pública, fornecimento de água e energia elétrica, transporte público e defende a extinção de programas sociais.

A história mundial nos mostra, que as elites de todos os tempos foram dominadoras, excludentes, escravagistas e exploradoras da mão de obra dos trabalhadores, independente dos seguimentos de trabalhos prestados. No campo ou na cidade os trabalhadores eram tratados meramente como ferramentas necessárias para que os lucros do patronato fossem garantidos e sempre elevados.

Na Inglaterra pós revolução industrial, tivemos períodos onde os trabalhadores se viam obrigados a se contentar com uma “ração” alimentar e carvão para aquecerem suas casas durante o inverno. Mulheres e crianças foram levadas às fábricas para trabalharem em jornadas que chegavam –e em muitos casos ultrapassava-, a dezoito horas por dia. Muitos morriam nas linhas de produção em razão dos esforços desprendidos e a falta de alimentação.

O capitalismo era –e ainda o é por milhões de pessoas-, reconhecido como o mais eficiente sistema de produção. Os governos, então, enxergaram neste a oportunidade de enriquecimento de suas nações, ainda que isso custasse a vida dos trabalhadores. Qualquer levante contrário ao sistema era duramente reprimido. Podemos lembrar, como exemplo, o histórico incêndio ocorrido na cidade de Nova York no dia 15 de março de 1911 na Triangle Shirtwaist Company, que vitimou 146 pessoas sendo 125 mulheres e 21 homens, na maioria dos mortos judeus. O incêndio foi causado pelas péssimas condições das repartições da fábrica, da precariedade das instalações elétricas e do grande volume de tecidos estocados, que serviu como combustível para o fogo.

A morte dos 146 funcionários, contudo, se deu em razão de alguns proprietários de fábricas da época –incluindo a Triangle-, trancarem os operários na fábrica durante o expediente com o objetivo de impedir motins e greves. Na hora em que a Triangle pegou fogo, as portas estavam trancadas e os funcionários não puderam sair morrendo carbonizados.

Este episódio -e tantos outros registrados na história-, mostra a agressividade com que as classes dominantes sempre dispensaram contra os trabalhadores empobrecidos e condenados a viver na miséria.

Após a Segunda Guerra Mundial, instaurou-se a chamada “Guerra Fria” na qual duas potências se destacaram: os Estados Unidos da América – EUA e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, ou simplesmente, União Soviética.

De um lado, o capitalismo selvagem defendido pelos EUA; de outro o socialismo soviético. Um dos marcos histórico mais importantes desta polarização, foi o Muro de Berlim que dividiu a Alemanha em duas: Ocidental e Oriental. O muro foi derrubado em 1989 e tal ocorrência passou para a história como “A queda do Muro de Berlim”.

Servindo-se de seu potencial econômico, os países capitalistas se uniram para demonizar o Comunismo e/ou Socialismo. Produções cinematográficas, periódicos, livros e revistas produzidos aos milhares tratavam desta questão mostrando sempre o “lado bom” do capitalismo e as “misérias do comunismo/socialismo”. O mundo estava dividido em “direita e esquerda”, sendo considerados como de esquerda todos que simpatizavam com as ideologias comunista e/ou socialista.

Voltando os olhos para o Brasil e a América Latina, encontramos registros históricos da repressão violenta sofrida por camponeses e trabalhadores das industrias por parte do patronato e dos governos instituídos. No campo, os grandes latifundiários se encarregavam de exterminar pequenos produtores rurais, comunidades quilombolas e tribos indígenas com o objetivo de ampliarem as fronteiras de suas propriedades. A ousadia desses grandes proprietários -que se sentiam (sentem) protegidos pelo Estado-, chegava (e ainda chega) ao ponto de considerar indígenas, quilombolas e pequenos produtores como posseiros ou invasores de terras. Nas cidades, os movimentos sindicais e centrais de trabalhadores eram violentamente reprimidos. O mesmo se dando em diversos países Latino-Americanos.

Os Estados Unidos, se davam o direito de invadir os países por eles considerados como ameaças para o sistema capitalista. Governos considerados como socialistas e/ou comunistas eram destituídos por golpes civis-militares engendrados pela elite dominadora com apoio internacional. Partidos políticos e seus líderes eram caçados, presos, torturados e, em muitos casos, mortos, o mesmo se dando com lideranças sindicais, estudantis e religiosas. O uso da tortura que vitimou dezenas de pessoas, tornou-se algo corriqueiro nos porões das ditaduras impostas.

A corrupção corria solta. Os governantes com o poder que tinham, beneficiavam seus colaboradores com concessões de canais de comunicação, grandes obras, perdão de dívidas com o Estado, isenção de impostos e dinheiro, muito dinheiro.

Inseridos neste universo, estavam as Igrejas e também nesta esfera, a polarização se fez presente. Bispos, padres, religiosos, religiosas e leigos que se posicionavam a favor dos mais pobres, eram imediatamente taxados de comunistas e passavam a figurar na lista de procurados pelo regime. Já os que se posicionavam ao lado dos governos repressores, eram considerados como cidadãos responsáveis defensores da ordem e da paz nacional.

Não foram poucos os integrantes de Igrejas Cristãs que se colocaram ao lado do poder opressor, denunciando até mesmo seus membros como comunistas ou socialistas. Bastava essa ação para que os denunciados fossem presos.

Por outro lado, tivemos homens e mulheres destemidos que não cederam às opressões e perseguições enfrentando as ditaduras de peito e coração abertos. Por permanecerem ao lado dos perseguidos, muito pagaram com a própria vida.

Chegamos, então, a o ponto central deste artigo: Jesus de Nazaré e seus ensinamentos. Fazendo a leitura dos Evangelhos e livros do Novo Testamento, nos deparamos com um homem que se colocou desde o início de sua jornada na terra ao lado dos pobres e marginalizados, questionando a crueldade com que os mais ricos e poderosos os tratavam.

Não foi à toa o modo como foi tratado pela elite e o governo da época. Se fosse hoje, por certo seria chamado de socialista ou comunista, sem jamais ter se identificado como tal. Seus gestos, suas falas, ações e posição na sociedade, renderam-lhe acusações múltiplas, calúnias e perseguições. Os poderes estatal e religioso sentiram-se ameaçados por ele.

Sua prisão se deu graças a um ato de corrupção: foi entregue pelo preço de 30 moedas de prata (Mt, 26, 14-16). Trazendo este episódio para nossos dias, veremos diversos homens e mulheres que também sofreram o golpe da traição por parte de pessoas que andavam com eles (as).
Quebrando barreiras e ensinando às pessoas que somos “todos iguais perante Deus”, Jesus destituía dos poderes terrenos àqueles que deles se serviam para escravizar e condenar à miséria a maioria do povo.

Recomendamos a todos e todas a leitura do Evangelho de João, capítulos 9 inteiro até versículo 39 do capítulo 10. A cura do cego narrada no capítulo 9 e o caminho por ele percorrido até chegar a Jesus, mostra a oportunidade para que se torne explicita a cegueira daqueles que se julgam donos da religião, das Escrituras e de Deus. A comparação feita com o pastor, a porta e as ovelhas os denunciam como ladrões preocupados com seus próprios interesses e privilégios.

Jesus, ao contrário, rompe com os esquemas estabelecidos e dá sua vida em favor da humanidade. Seu compromisso supremo, o sentido mais profundo de sua missão e obra é a vida plena das pessoas. Isso não faz sentido algum para os dirigentes, que são declarados cegos. As fortes palavras de jesus apontam para novas consciência e prática por parte de quem, como cego, se abriu para ouvir a voz do bom pastor e descobrir nele a luz. Quem prefere a comodidade das instituições e a segurança do poder não pode aceitar esse caminho: está cego.

As ações de Jesus desconcertam os líderes religiosos, que pensam ter o verdadeiro conhecimento de Deus, quando, na verdade, são insensíveis à novidade trazida por Jesus em favor da vida, a começar das situações de maior precariedade e carência. Acabam assim, por se mostrarem cegos.
As palavras de Jesus sobre a cena apresentada aos fariseus reforçam as diferenças no modo de agir: enquanto estes se ocupam apenas com seus próprios interesses (e por esta razão são denunciados como ladrões e mercenários (cf. Ez 34)), o sentido da missão e obra de Jesus é a vida plena da humanidade, e é para isso que ele forma em torno de si uma comunidade de pessoas que ouvem sua voz, têm certeza de que ele age como pastor que dá a própria vida, e se comprometem com seu projeto. As palavras e a obra de Jesus causam divisão, porque são inovadoras ante os esquemas sociais e religiosos do momento.

Observem que em nenhum momento aparecem palavras como “direita” e “esquerda”. Trata-se, isto sim, de uma nova proposta de vida e de construção de uma sociedade mais justa, solidária, igualitária e inclusiva. Notem ainda, que Jesus revela como deve ser o verdadeiro pastor, o verdadeiro líder religioso Este, deve colocar acima de tudo, o bem-viver das ovelhas, do povo.

Contudo, ao entendermos o que a díade Direita – Esquerda representam, podemos inferir à luz da nossa realidade atual, como Jesus e seus seguidores estariam classificados. Inteligência para compreender um ensinamento, entender uma nova proposta de sociedade não é coisa de esquerda ou direita. Mas sim, um instrumento natural dado a todos e todas que não querem se manter na escuridão da cegueira, e se abrem para o novo. Abrir-se para o novo é conhecer a verdade; é não temer as represarias que poderão vir da parte de líderes religiosos ou civis

A exemplo de Jesus, todos aqueles que se colocam a serviço e se tornam líderes religiosos ou civis de um rebanho, de um povo, devem viver verdadeiramente o ato de “servir e não ser servido” (Mc 10,45). O Acumulo de riquezas materiais por parte de alguns enquanto milhões vivem na miséria, não cabe na vida de um verdadeiro pastor.

O modelo de comunidade, de sociedade apresentada e defendida pelo Mestre Jesus, está descrito no livro Atos dos Apóstolos capítulo 4, 32-35:

A multidão dos que acreditavam era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram seus os bens que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum. Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. ‘E todos eles eram muito estimados. De fato, entre eles não havia nenhum necessitado, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, levavam os valores das vendas e os colocavam aos pés dos apóstolos. Então se distribuía a cada um segundo a própria necessidade.

Com base no que vimos sobre direita e esquerda, como você acredita que a comunidade descrita nos Atos dos Apóstolos seria classificada em nossos dias? Capitalista ou Socialista? De esquerda ou de direita?

Ao contextualizarmos as narrativas do Novo Testamento com o nosso tempo, como classificaríamos os líderes políticos e religiosos de hoje? Quais deles se enquadram nos ensinamentos do Cristo e nos exemplos de seus Apóstolos? Quais estão ao lado do povo explorado e quais estão ao lado dos exploradores? Quais seriam enquadrados como sendo de esquerda ou de direita?

“Quem tem ouvidos ouça”. (Mt 11,15)

Assine nossa newsletter

Receba conteúdos exclusivos direto na sua caixa de entrada.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fonte confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!