Espíritas antifascistas, uni-vos

"Mas, todos os que tiverem em vista o grande princípio de Jesus se confundirão num só sentimento, o do amor do bem"

Manifestação na Avenida Paulista. Foto: Pam Santos

Manifestação na Avenida Paulista. Foto: Pam Santos

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O povo brasileiro vem sendo estimulado a incendiar-se de um ódio altamente destrutivo para a nossa sociedade. Massacrar a população, tirar a esperança de gerações e ainda estabelecer um culto hediondo às armas, são formas de fomentar a autodestruição de um povo.

O verdadeiro espírita deve se colocar ao lado de todas as correntes religiosas e espirituais que estejam dispostas a enfrentar essa necropolítica que assola o país.

Em tempos de polarização, é preciso tomar partido, descer do muro, sair do armário e se posicionar contra todo tipo de intolerância e violência. Seja contra quem for.

A indiferença e a omissão serão cobradas de todos e este é o momento de cumprirmos o nosso papel de agentes transformadores, conforme recomendado por Jesus no seu sermão inesquecível.

Nós espíritas, temos a obrigação moral de lutar contra a opressão e nos posicionarmos, radicalmente, antifascistas.

É necessário levantar a discussão, estimular e contribuir para a reflexão e promover ações propositivas para a superação do fascismo que vem ganhando terreno no Brasil nos últimos tempos.

Sermos antifascistas é combatermos o racismo, o machismo, a LGBTfobia, o capacitismo, condenando, combatendo e reprimindo, diariamente, todo tipo de preconceito e segregação, dentro e fora das casas espíritas.

Ainda que o espiritismo não faça nenhuma acepção de indivíduos ou pregue qualquer tipo de discriminação – aliás, nenhuma religião faz, são as suas interpretações, feitas por gente, que gera exclusão e preconceito –, muitos trabalhadores e frequentadores de casas espíritas ainda são rotulados e excluídos por suas ideologias políticas, por sua condição socioeconômica e por questões de classe, raça, sexualidade e gênero.

Nossos adversários – e não inimigos – dizem que espiritas não devem se posicionar politicamente, mas o que mais essa gente – ruim – faz é posicionar-se politicamente, inclusive quando são falsamente neutros, quando apoiam um presidente – que de cristão não tem nada – forjando psicografias, reeditando profecias (e não me canso de dizer que espirita não acredita em profecia), chamando-os de Messias, Venerando, apresentando-se como “médium de direita”. Bem sabemos que o que esse pessoal quer é que não falemos de justiça social, de combate às desigualdades e de privilégios.

Não é novidade a atuação de espíritas na política. Bezerra de Menezes fez isso de maneira brilhante. Liberal e de ideias abolicionistas, Bezerra não foi o “bom velhinho”, doce, que alguns espíritas insistem apresentar ou representar. Enérgico, dono de uma fabulosa oratória, foi contemporâneo de Joaquim Nabuco, Dom Pedro II e Rui Barbosa.

O problema, para nós, é quando espíritas de alta plumagem, travestidos de uma pseudo-imparcialidade que sabemos não existir, utilizam-se de seu prestígio vaidoso para apoiar ideias que não têm absolutamente nada a ver com os princípios defendidos por Kardec e muito menos com os ensinamentos do Cristo.

O espírita não só pode, como deve debater política, por que não estamos alheios às questões sociais do País. Mas não podemos confundir, em hipótese alguma, “a reação do oprimido com a violência do opressor”, como afirmou o defensor dos direitos dos afro-americanos, Malcolm X.

Ver espíritas em marcha com o atraso, com o preconceito, com a ruptura democrática, com a retirada de direitos e com o ódio e fundamentalismo, me faz acreditar que essas pessoas estão bem distantes dos postulados de Kardec e dos ensinamentos de Jesus, afinal, “se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 João 4:20).

Kardec foi ainda mais enfático na questão 350 de O Livro dos Médiuns: “De que serve acreditar na existência dos Espíritos, se essa crença não torna o ser humano melhor, mais benevolente e mais indulgente para com seus semelhantes, mais humilde, mais paciente na adversidade?”

A Doutrina Espírita, essencialmente educativa, tem como objetivo libertar e proclamar o reino de Deus – de justiça, amor e paz – para todos.

É fundamental o diálogo entre comunidades de fé e movimentos sociais, a confecção de materiais educativos que abordem o combate ao fascismo e auxiliem na formação de irmãos e irmãs sensíveis aos problemas sociais. O fascismo não pode ser tirado do debate no campo da fé.

Percebam que temos muito trabalho pela frente, dentro e fora do movimento espírita: disputando narrativas, denunciando abusos cometidos por representantes espíritas, eliminando velhos paradigmas, construindo pontes em vez de muros, ensinando, didaticamente, conceitos de bem viver e justiça social e, sobretudo, resgatando os preceitos de amor e diálogo de Kardec, esquecidos pelos pseudo-médiuns midiáticos, pelos dirigentes fanáticos e pelos expositores ensimesmados.

Como disse o pastor Martin Luther King, no livro “Os Grandes Líderes”: “Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não o fazer. Não posso ficar no meio de todas essas maldades sem tomar uma atitude”.

A paz que todos e todas buscamos só será implementada quando a justiça existir como “fome e sede” dentro de cada um de nós: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.” – Mateus 5:6

Espíritos imortais que somos, o futuro de todos é o nosso próprio futuro.

Sigamos unidos/as e fortes na luta pela justiça social.

Para nós, a saída é coletiva, com Cristo, Kardec e pela esquerda!

Aproveitem para assinar o Manifesto dos Espíritas Progressistas pela Abertura do processo de cassação da Chapa Bolsonaro-Mourão que lançamos na semana passada: Http://Chng.It/M2dpdmxxqn

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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