Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Esperança, a palavra mais bonita da língua portuguesa

Para mim (e para o cristianismo), esperança é irmã da fé e do amor, fundamentais para a existência humana

(FOTO: Instituto Francisco Brennand (IOCFB), Instituto Paulo Freire e Eduardo Maia/Acervo de Ana Maria Araújo Freire)
(FOTO: Instituto Francisco Brennand (IOCFB), Instituto Paulo Freire e Eduardo Maia/Acervo de Ana Maria Araújo Freire)
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Após quase seis meses sem escrever para essa coluna por vários motivos – a crise com o espiritismo é um dos principais e falarei sobre isso nos próximos textos – e enquanto me recupero da Covid com sintomas leves, graças a Deus, a vacina e ao SUS, me isolei e aproveitei para assistir a segunda temporada de Segunda Chamada, uma das séries brasileiras mais incríveis produzidas nos últimos tempos. A série é uma declaração de amor à educação pública e ao papel transformador que milhares de educadores e educadoras, espalhados pelo Brasil, exercem diariamente e anonimamente.

A série que tem, indiretamente, Freire, e diretamente Jaci (Paulo Gorgulho), Marco (Silvio Guindane), Eliete (Thalita Carauta), Sônia (Hermila Guedes) e Lucia (Debora Bloch), mostra os dramas e dilemas para fazer da escola um lugar de afeto e de acolhida.

Para Paulo Freire, o processo educativo é o responsável pela tomada de consciência, possibilitando aos educandos e educandas inserir-se no processo histórico como sujeitos plenos de direitos, para que possam ler e interpretar não somente os textos, mas a vida como um todo.

Parafraseando Paulo Freire em Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”.

E foi num desses episódios que a professora Lucia, em diálogo com um estudante, disse a frase que serviu de título para esse texto “Eu acho esperança a palavra mais bonita da língua portuguesa”.

Eu também acho, professora e por esse motivo, quis que meu texto-retomada fosse carregado de esperanças, de amorosidades e de afetos.

Para mim (e para o cristianismo), esperança é irmã da fé e do amor, fundamentais para a existência humana. É a partir da crença genuína nelas que surgem espaços para a vida, para o amanhã, para a perseverança, para os sonhos, para os desejos, para a certeza de que algo é possível mesmo quando tudo indica o contrário.

“Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor.” – 1 Coríntios 13:13

Embora a série não seja sobre esse grande educador que completou cem anos em 2021, ela traz várias referências as suas obras.

Freire deu uma importância legítima a esperança, transformando-a no verbo esperançar. Esperançar inspira e mobiliza a presentificação de seu legado. Em sua obra pedagogia da Esperança (1992), Paulo Freire proclamou que

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros/as para fazer de outro modo…”

O filósofo Mario Sergio Cortella, assim como Paulo Freire, de quem foi amigo e é um entusiasta das suas ideias, defende que a esperança é um dos elementos mais importantes na vida, mas esperança do verbo esperançar, e não do esperar. “Espero que dê certo, espero que resolva. Isso é espera, não esperança. Esperançar, que é de onde vem a palavra esperança, é ir atrás, não desistir”.

E não poderia finalizar esse primeiro texto do ano sem lembrar também do legado do arcebispo, ativista e vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Desmond Mpilo Tutu, que faleceu nos últimos dias de 2021, aos 90 anos em decorrência dos agravos de um câncer de próstata diagnosticado em 1997.

Tutu foi um profeta da esperança, um cristão que testemunhou que a fé sem obra é morta, colocando toda sua vida e luta em prol de uma sociedade mais igualitária, amorosa e justa. Com esperança, com força e fé, conseguiu destruir um regime que cruelmente determinava quem podia e quem não podia usar um bebedouro ou que, com um risco no chão, delimitava espaços por onde negros/as e brancos/as podiam transitar.

Sua notoriedade se deu ao lado de um outro expoente – Nelson Mandela – da luta da África do Sul contra um governo violento e racista de minoria branca. No entanto, além do combate por justiça racial, Tutu se engajou na luta pelos direitos LGBTQIA+ e costumava comparar a batalha da comunidade LGBTQIA+ com aquela contra o apartheid, colocando, inclusive, ambas no mesmo nível.

Em 1984, Tutu ganhou o Prêmio Nobel da Paz por sua oposição ao apartheid. Uma década depois, ele testemunhou o fim daquele regime e presidiu uma Comissão de Verdade e Reconciliação, criada para desenterrar atrocidades cometidas durante aqueles dias sombrios do seu país.

Nascido em 1931 em Klerksdorp, África do Sul, foi professor e teólogo, tornando-se o primeiro arcebispo anglicano negro da cidade do Cabo e Joanesburgo. Foi por meio de suas palestras e denúncias contra o apartheid, que ele ficou conhecido como a “voz” dos negros sul-africanos sem voz. Após a rebelião dos estudantes em Soweto ter se transformado em tumultos, Tutu apoiou o boicote econômico a seu país, incentivando constantemente a reconciliação entre várias facções associadas ao apartheid.

Quando as primeiras eleições multirraciais da África do Sul foram realizadas em 1994, elegendo Nelson Mandela como o primeiro presidente negro do país, Mandela nomeou Tutu como presidente da Comissão Verdade e Reconciliação (CVR).

Em sua atuação pelos direitos humanos, Tutu formulou seu objetivo como “uma sociedade democrática e justa sem divisões raciais” e estabeleceu exigências mínimas para a realização desse objetivo, incluindo direitos civis iguais para todas as pessoas, um sistema comum de educação e a extinção de deportação forçada.

Nós, a exemplo de Desmond Tutu e de tantos/as outros/as os religiosos/as, temos a obrigação moral de lutar contra todas as formas de opressão e violência, em especial aquelas oriundas de cor, raça, etnia, orientação sexual e identidade de gênero. É necessário levantar a discussão, estimular e contribuir para a reflexão e promover ações propositivas para a superação destas violências.

Temos que transformar nossos espaços de fé em verdadeiras escolas de ética, cidadania e vivência plena do evangelho. Devemos debater, com base em leituras evangélicas e laicas, o racismo estrutural da nossa sociedade branca e eurocêntrica.

A sociedade justa, feliz e igualitária, uma casa comum onde todos/as possam viver bem, com acesso aos seus direitos, livres de preconceitos e discriminações, base para o mundo de regeneração, só será possível quando contribuirmos para assegurar a dignidade de todos/as.

Mesmo e apesar de todos esses desafios, é importante continuarmos tentando, construindo pontes que nos conecte e nos mostre caminhos possíveis: precisamos esperançar.

Uma esperança genuína, que nos ajude caminhar, reparando o passado e de olho no futuro.

Possivelmente neste ano teremos enormes – e diferentes  – desafios, mas de mãos dadas e em rede, precisamos seguir firmes nos nossos propósitos em defesa da laicidade nos espaços públicos e na política, da democracia, dos direitos humanos e dos bens comuns.

Feliz novo ciclo, a luta continua em 2022!

Franklin Félix

Franklin Félix
É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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